ZANAEL, o Magnífico
- Odisseia card game
- 21 de mai.
- 8 min de leitura

Zanael cresceu entre tragédia e devoção.
Sua história começou aos oito anos de idade, na pequena vila do Rio Esmeralda, ao sul, fora das fronteiras de Reuhtor. Filho de camponeses simples, viveu uma infância tranquila durante seus primeiros anos. A vila era pequena, cercada por campos férteis e cortada por um rio cristalino que refletia tons esverdeados ao amanhecer — origem do nome do lugar. As pessoas dali viviam pouco preocupadas com guerras ou política. Plantavam, pescavam, celebravam as estações e acreditavam estar longe demais dos grandes conflitos do reino para que algo terrível algum dia as alcançasse.
Então Aldar chegou.
Conhecido como “O Vigário”, Aldar não era apenas um saqueador comum. Havia nele algo profundamente perturbador. Vestia-se como um homem de fé, carregava símbolos religiosos presos às vestes e falava com uma calma quase paternal mesmo enquanto ordenava massacres. Seus seguidores o tratavam como um profeta, e muitos dos que cruzavam seu caminho descreviam o mesmo detalhe: Aldar sorria enquanto pessoas morriam.
Naquela noite, o vilarejo foi reduzido ao caos.
Casas queimavam enquanto os capangas de Aldar saqueavam alimentos, ouro e ferramentas. Os que resistiam eram mortos. Outros eram arrastados vivos como reféns. Zanael lembraria para sempre do cheiro de fumaça misturado ao sangue molhado na lama, dos gritos ecoando no escuro e, principalmente, da voz de sua mãe mandando que ele corresse sem olhar para trás.
Mas ele olhou.
E esse foi seu maior trauma.
Ainda criança, viu os próprios pais sendo assassinados diante dele enquanto tentavam impedir que Aldar o encontrasse escondido entre os destroços de um celeiro. Por muitos anos, Zanael acordaria no meio da madrugada ouvindo novamente aquele som — o grito sufocado de sua mãe e o estalo seco do machado atingindo seu pai.
A única razão pela qual sobreviveu foi porque tropas de Reuhtor chegaram antes que o massacre fosse concluído.
O comandante daquela operação era Wulric.
Mesmo anos depois, Zanael jamais esqueceria a primeira vez que o viu: coberto de fuligem e sangue, atravessando as chamas com a espada em mãos enquanto os homens de Aldar fugiam em desespero. Para uma criança aterrorizada, Wulric pareceu menos um homem e mais algum tipo de salvador enviado pelos próprios deuses.
Aldar foi derrotado naquela noite. Capturado pelas autoridades e condenado à forca. Mas o estrago já havia sido feito.
Dos quase mil habitantes da vila, apenas algumas dezenas sobreviveram.
Wulric decidiu levar Zanael consigo para Reuhtor. Oficialmente, o garoto seria seu aprendiz. Na prática… tornou-se seu filho.
Wulric vinha de uma antiga casa nobre cuja linhagem servia à família real havia gerações. Era um homem rígido, disciplinado e respeitado, mas fora do campo militar havia nele uma gentileza difícil de perceber à primeira vista. Nunca conseguira ter filhos, apesar das tentativas ao longo dos anos, e talvez por isso tenha se apegado tão profundamente ao garoto silencioso que resgatou naquela noite.
Foi Wulric quem ensinou Zanael a lutar, a ler, a montar a cavalo e a portar uma espada. Mas, acima de tudo, foi quem lhe ensinou compaixão. Dizia constantemente que um verdadeiro cavaleiro não deveria proteger reis ou castelos, mas pessoas.
Ainda assim, o passado nunca abandonou Zanael.
Os pesadelos continuaram durante toda sua juventude. Havia noites em que acordava sem conseguir respirar, sentindo novamente o calor das chamas e o cheiro da fumaça. Em algumas ocasiões, chegava a empunhar a espada enquanto ainda estava meio adormecido, acreditando que Aldar havia retornado. Wulric muitas vezes o encontrava sentado sozinho durante a madrugada, encarando o vazio em silêncio.
A pior parte não era o medo.
Era a culpa.
Zanael se perguntava constantemente se poderia ter feito algo diferente. Talvez correr mais rápido. Talvez gritar por ajuda. Talvez tentar salvar os pais. Sabia racionalmente que era apenas uma criança naquela noite, mas o coração jamais aceitava isso completamente.
Conforme crescia, transformou a dor em disciplina.
Tornou-se um espadachim excepcional. Rápido, técnico e incrivelmente preciso. Wulric frequentemente dizia que ele possuía um talento raro — não apenas habilidade, mas determinação. Ainda assim, apesar da insistência do pai adotivo, Zanael nunca quis integrar oficialmente as tropas de Reuhtor.
Numa manhã silenciosa, durante o café, Wulric voltou ao assunto mais uma vez. Disse que o reino precisava de homens como ele. Zanael ouviu tudo em silêncio antes de responder, calmamente, que era grato por tudo o que havia recebido… mas que não conseguiria passar a vida inteira preso dentro dos muros da capital enquanto pessoas sofriam pelo mundo.
Se não podia mudar o passado, então dedicaria sua vida a impedir que outras crianças passassem pelo que passou.
Tornar-se-ia um cavaleiro sem reino.
Wulric sentiu orgulho e tristeza ao mesmo tempo. Sabia o quão perigoso o mundo podia ser fora das muralhas, mas também sabia que impedir Zanael de seguir aquele caminho seria como apagar aquilo que ele havia se tornado.
Então apenas sorriu e disse:
— Não importa quão longe vá… esta sempre será sua casa.
Os primeiros meses de viagem foram tranquilos. Zanael ajudava aldeões em tarefas simples, auxiliava fazendeiros, consertava cercas, escoltava caravanas e afastava pequenos criminosos. Pela primeira vez em muitos anos, começou a sentir certa paz. Descobriu que gostava de ouvir histórias de pessoas comuns, dividir refeições simples e ajudar sem esperar nada em troca.
Foi durante esse período que chegou à vila de Ponta de Anzol, localizada próxima ao Lago do Grifo, quase na fronteira oeste de Reuhtor.
O lugar era humilde, formado principalmente por pescadores. Enquanto ajudava moradores locais, Zanael encontrou um garoto chorando atrás de uma casa. Entre soluços, a criança explicou que um pequeno ídolo de madeira havia desaparecido de seu quarto. O objeto não possuía valor financeiro, mas era a última lembrança deixada por seu pai, morto poucos dias antes por doença.
Zanael prometeu ajudar.
Ao investigar a casa, percebeu sinais sutis de invasão. Marcas recentes de lâmina na fechadura. Pegadas mal apagadas no chão. Um adulto havia entrado ali deliberadamente.
Mas por quê?
O ídolo parecia simples demais para justificar um roubo.
Durante todo o dia, Zanael conversou com moradores, buscou rastros e tentou encontrar qualquer pista. Nada. Quando a noite caiu, sentou-se próximo ao lago observando o reflexo da lua sobre a água imóvel, frustrado com o fracasso da investigação.
Foi então que analisou novamente o desenho feito pela criança.
E o passado o atingiu como uma lâmina.
Aquele símbolo.
Ele já o havia visto antes.
Preso ao pescoço de Aldar na noite em que sua vila foi destruída.
O sangue pareceu gelar em suas veias.
Mas Aldar estava morto.
Zanael viu sua execução com os próprios olhos. Lembrava perfeitamente do som terrível da corda rompendo o pescoço do homem quando o alçapão foi aberto.
Na manhã seguinte, retornou imediatamente para Reuhtor e procurou Wulric. O velho comandante percebeu a tensão no rosto do filho adotivo antes mesmo que ele falasse. Quando viu o desenho, também ficou abalado. Recordava-se do colar usado por Aldar — um símbolo estranho, perturbador, que acreditava ter sido destruído após a execução.
Com autorização de Wulric, Zanael acessou antigos registros da prisão e localizou informações sobre o enterro do criminoso.
Mas o túmulo estava vazio.
O caixão continha apenas terra úmida.
Nenhum corpo.
Nenhum osso.
Nada.
Enquanto examinava o local, um velho extremamente magro surgiu observando-o à distância. O homem não dizia uma palavra sequer, apenas fazia sinais para que Zanael o seguisse. Havia algo profundamente desconfortável em sua aparência — pele acinzentada, olhos fundos e dedos cobertos por manchas escuras.
O velho o conduziu até restos queimados de uma antiga fogueira.
Ali, Zanael encontrou fungos.
Fungos funerários.
Uma praga proibida conhecida por infestar cadáveres e reanimá-los como criaturas violentas guiadas apenas pela propagação da infecção. Ao retornar para o túmulo, percebeu pequenas raízes do fungo espalhadas ao redor da terra, cuidadosamente podadas para evitar suspeitas.
Aldar havia retornado.
Ou talvez… jamais tivesse morrido de verdade.
Zanael reuniu alguns soldados cedidos por Wulric e voltou imediatamente para Ponta de Anzol.
Mas chegaram tarde demais.
A vila estava destruída.
Casas arruinadas. Sangue espalhado pelas ruas. Portas arrancadas. Porém não havia corpos. Nem vivos. Nem mortos.
Aldar levara todos.
Os rastros seguiam para o norte, acompanhando o afluente de Kärthmir — rio que nascia próximo ao covil de um antigo dragão vermelho escondido nas montanhas.
Nenhum homem sensato pisaria naquele lugar.
Mas Zanael foi mesmo assim.
À medida que avançavam pelas trilhas montanhosas, os soldados tornavam-se cada vez mais inquietos. Histórias sobre Kärthmir circulavam havia décadas. Vilas inteiras desapareceram após provocar sua ira. O próprio ar parecia mais quente conforme se aproximavam da região.
Pouco a pouco, os homens começaram a recuar.
Até restarem apenas Zanael e três soldados.
Quando finalmente alcançaram a entrada da caverna, encontraram os aldeões. Alguns ainda vivos, presos. Outros já transformados em criaturas tomadas pelos fungos funerários. E no centro de tudo estava Aldar.
Ainda vivo.
Ou algo pior que isso.
Seu corpo estava deformado, parcialmente coberto pelos fungos que pulsavam sob sua pele como raízes vivas. Mesmo assim, seus olhos permaneciam lúcidos — cruéis como naquela noite anos atrás.
E ele sorria.
Zanael avançou imediatamente.
O combate foi brutal. Mesmo em menor número, ele lutou com uma ferocidade quase desesperada. Cada golpe carregava anos de medo, culpa e raiva reprimidos. Os soldados que restavam ganharam coragem ao vê-lo lutar, e até alguns aldeões conseguiram reagir em meio ao caos.
Percebendo que perderia terreno, Aldar correu para dentro da caverna.
Zanael foi atrás.
Quanto mais avançavam, maior se tornava o calor. O som de magma correndo pelas profundezas ecoava pelas paredes. Então chegaram à câmara principal.
Montanhas de ouro e tesouros brilhavam refletindo a luz das chamas subterrâneas. Sobre a maior delas repousava Kärthmir, o Tirano Rubro, colossal e adormecido.
Aldar correu em direção ao dragão.
Desesperado, Zanael saltou para interceptá-lo, aterrissando pesadamente diante do necromante. O impacto rompeu parte dos tendões de sua perna, mas ainda assim conseguiu impedir sua passagem.
Então lutaram.
A espada de Zanael atravessava Aldar repetidas vezes, mas o homem simplesmente não caía. Não sentia dor. Não cansava. Não sangrava como deveria. Era como enfrentar um cadáver movido por puro ódio.
Até que uma sombra colossal se moveu acima deles.
Kärthmir despertara.
O dragão observou os dois em silêncio por alguns instantes antes de rir profundamente, fazendo a própria caverna tremer.
— Continuem — disse ele. — Faz décadas que não vejo algo tão interessante.
As palavras desconcentraram ambos por um instante.
E Aldar aproveitou.
O combate recomeçou ainda mais feroz. Zanael já mal conseguia se manter de pé, enquanto Aldar continuava avançando incansavelmente. Irritado com a distância que começavam a tomar, Kärthmir destruiu parte da plataforma onde lutavam, prendendo ambos em uma área cercada por magma.
Foi então que Zanael compreendeu algo.
Ele não venceria pela força.
Quando Aldar avançou novamente, Zanael abandonou a postura defensiva no último instante, desviou para o lado e empurrou o necromante diretamente para dentro da lava.
Aldar caiu gritando.
E continuou gritando mesmo enquanto queimava.
Até desaparecer completamente sob o magma.
O silêncio que veio depois pareceu sufocante.
Então Zanael voltou-se lentamente para Kärthmir.
O dragão o encarava com curiosidade.
Por fim, abriu um sorriso monstruoso e empurrou uma enorme pedra sobre o abismo, formando uma ponte improvisada.
— Não estou com vontade de iniciar outra guerra contra Reuhtor hoje — disse ele. — Então vá embora enquanto ainda estou satisfeito… antes que a fome volte.
Zanael deixou a caverna carregando o ídolo recuperado no caminho.
Ao retornar, foi recebido como herói pelos sobreviventes. O pequeno garoto chorou ao receber de volta a lembrança do pai.
E, desde aquele dia, o nome de Zanael começou a se espalhar pelo reino.
Zanael, o Magnífico.
O cavaleiro que enfrentou mortos-vivos diante de um dragão ancestral… e retornou vivo.
Mesmo assim, ele jamais se viu como um herói.
Apenas como alguém tentando impedir que o mundo produzisse mais crianças como ele.



Ótima Lore. Legal ver como funciona o mundo do Odisseia. E esse dragão aí, fiquei curioso pra saber mais dele