VOGHR, o Imbatível
- Odisseia card game
- 13 de mai.
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Voghr nasceu na guerra. Literalmente.
Enquanto seu clã enfrentava tropas élficas vindas de Liin, sua mãe deu à luz dentro de uma pequena caverna descoberta às pressas em meio ao conflito. Ela deveria estar no campo de batalha junto dos demais Hourks, mas o destino a arrancou dali naquele momento.
E talvez isso tenha salvado suas vidas.
Os Hourks — nome herdado do som brutal de seu grito de guerra — eram um povo ogro nômade e extremamente violento. Um dos poucos clãs que ainda restavam nas terras de Enndír, já que a maior parte de sua espécie habitava o continente do norte, reunida sob o domínio de seu deus-comandante, Hütark.
O clã de Voghr jamais encontrou estabilidade. Vagavam continuamente, atravessando terras hostis e entrando em conflito com outras espécies por território, alimento e sobrevivência. E foi nesse ambiente que Voghr cresceu.
Seu pai era o braço direito do líder do clã, estando sempre à frente das batalhas. Quando Voghr tinha sete anos, o antigo líder morreu em combate, e seu pai assumiu o comando dos Hourks.
A hierarquia ogra pouco tinha de tradicional. Seus líderes não eram escolhidos por linhagem, voto ou herança. A força era a única lei verdadeira. Quando um líder caía, os guerreiros naturalmente reconheciam quem deveria ocupar seu lugar — embora isso jamais impedisse desafios pelo comando.
Desde cedo, Voghr enxergava a guerra quase como uma companheira. E na conquista, via a honra e valor. Aos poucos começou a acompanhar patrulhas, depois pequenos confrontos, até que, aos quinze anos, já lutava na linha de frente ao lado do pai. Não hesitava diante da violência, nem demonstrava medo. Coitados daqueles que cruzavam seu caminho.
Ainda assim, havia certa lógica brutal em sua crueldade. Voghr admirava força. Seu povo venerava esse atributo acima de qualquer outra virtude, e ele absorveu isso profundamente. Lutava até extrair tudo o que um adversário podia oferecer. E quando percebia que o oponente já não tinha mais nada a lhe proporcionar… encerrava sua vida rapidamente.
Aos vinte anos, Voghr já era considerado um dos guerreiros mais perigosos do clã. Os Hourks se julgavam invencíveis naquela época.
Então veio a emboscada.
Durante um ataque humano ao acampamento, os Hourks sofreram uma de suas maiores derrotas. Muitos morreram naquela noite — incluindo os pais de Voghr.
A liderança passou para Grumar, terceiro em comando entre os guerreiros do antigo líder. Sob sua ordem, os Hourks abandonaram aquelas terras e partiram rumo às cordilheiras do oeste de Enndír, em busca de um lugar onde finalmente pudessem se estabelecer.
Foi então que encontraram o vale, uma vasta região de vegetação rasteira, porém fértil, cercada por montanhas e cortada por pequenos rios. O solo era excelente para cultivo e criação de gado. Pela primeira vez em gerações, os Hourks vislumbraram algo próximo de um lar.
Mas o vale já possuía donos. Lobos atrozes habitavam aquelas terras em números assustadores. Diferente das guerras contra humanos, elfos ou anões, aquele conflito não envolvia estratégia, honra ou território político. Era sobrevivência pura. As criaturas atacavam durante a noite, dilaceravam caçadores isolados e desapareciam nas montanhas antes do amanhecer.
Os confrontos duraram meses, muitos Hourks morreram. Mas os ogros venceram.
E mais do que isso: alguns dos lobos sobreviventes foram capturados e domesticados. Com o tempo, tornaram-se montarias e companheiros de guerra do clã.
Grumar, no entanto, jamais se recuperou totalmente dos ferimentos sofridos no conflito. Enquanto isso, Voghr se destacava cada vez mais. Liderava caçadas, protegia os assentamentos e demonstrava uma ferocidade quase impossível de acompanhar.
Quando Grumar finalmente cedeu o posto, ninguém contestou o novo líder, e Voghr assumiu o comando dos Hourks.
Os anos seguintes transformaram o vale. Casas foram erguidas. Cercas levantadas. Plantações cultivadas. Pela primeira vez, crianças cresceram sem precisar fugir de guerras constantes.
Mas Voghr odiava aquela paz, sentia-se preso.
Via os outros sorrindo ao redor de fogueiras, discutindo colheitas e animais, enquanto dentro dele existia apenas inquietação. A guerra havia moldado toda sua existência. Sem ela, sentia-se enfraquecendo. Pior: sentia que seu povo também estava.
E, em segredo, começou a desenvolver um medo que jamais admitiria em voz alta, o medo de ser substituído.
Quanto mais o vale prosperava, menos os Hourks precisavam de um conquistador. Precisavam de um governante. De alguém capaz de administrar, negociar e preservar. E Voghr não sabia fazer nenhuma dessas coisas sem recorrer à força. Disso, nasceu uma tentativa de aliança com outra Tribo. Uma tentativa falha...
Desse fracasso Voghr teve um filho, Vor-Thak. Meio Ogro Verde, meio Vermelho, claramente puxando mais o lado da mãe, cujo o nome nunca era proferido em voz alta. Ele cresceu forte, grande e saudável.
Mas Voghr jamais conseguiu enxergar aquilo como uma bênção. Sua própria infância havia sido marcada pela brutalidade dos pais, pelo treinamento constante e pela sobrevivência. Era assim que um Hourk deveria crescer.
Vor-Thak, por outro lado, nasceu em tempos de relativa paz. E isso incomodava Voghr profundamente.
O garoto era forte, sim — talvez até mais disciplinado do que ele próprio fora —, mas não carregava a mesma fome de violência. Voghr via nisso uma fraqueza perigosa. Quanto mais o filho crescia, mais ele temia que os Hourks passassem a preferir aquele jovem equilibrado ao velho guerreiro que só sabia conquistar.
Com o tempo, essa insegurança transformou-se em paranoia.
Voghr começou a enxergar ameaças em pequenas coisas. Conversas silenciosas entre guerreiros. Jovens admirando Vor-Thak durante treinamentos. Até mesmo conselhos simples passaram a soar como tentativas de questionar sua liderança.
Ele começou a ampliar patrulhas desnecessariamente. Organizou caçadas perigosas. Provocava disputas contra tribos menores apenas para manter seu povo “afiado”.
Precisava de guerra. Precisava que lembrassem quem ele era. Foi durante esse período que os berrantes do vale soaram novamente. Algo havia cruzado as fronteiras.
Pela primeira vez em muitos anos, Voghr pegou seu machado esperando encontrar um verdadeiro combate.
Mas não encontrou um exército, encontrou viajantes. Um pequeno grupo de ogros desgastados pela estrada aproximava-se do vale. Entre eles estava Gur-Ath.
Ele se apresentou como líder do grupo: um ogro alto, magro para os padrões de sua espécie, de voz calma demais e olhar difícil de interpretar. Disse que uma enorme serpe venenosa os perseguira pelas montanhas e que buscavam abrigo.
Voghr conhecia a criatura. Todos conheciam. Uma antiga serpe que habitava as regiões mais altas das cordilheiras. Mas ela jamais descia até o vale. Nunca. Aquilo o colocou imediatamente em alerta.
Ainda assim, permitiu que os viajantes permanecessem. Os dias seguintes trouxeram uma sensação estranha ao vale.
Os lobos atrozes começaram a agir de forma incomum, inquietos durante a madrugada. Caçadores relatavam encontrar animais parcialmente devorados próximos às montanhas. Algumas plantações apareceram queimadas por um veneno escuro e espesso que ninguém soube identificar.
E então vieram os sons. Algo rastejava pelas pedras durante a noite. Algo enorme.
Vor-Thak, que buscava a aprovação de seu pai, patrulhava as noites em busca de qualquer pista sobre o paradeiro da criatura.
Certa madrugada, enquanto retornava de uma patrulha, viu Gur-Ath sozinho próximo aos limites do vale, parado diante das montanhas como se observasse alguma coisa. Havia símbolos estranhos desenhados na terra ao redor dele — marcas circulares, profundas, feitas como cortes na pedra.
Quando Vor-Thak se aproximou, Gur-Ath apagou tudo rapidamente com os pés. Disse apenas que estava “afastando maus espíritos”.
Vor-Thak tentou contar ao pai, que ignorou completamente.
Na verdade, Gur-Ath rapidamente conquistou sua confiança. Diferente dos outros, jamais questionava suas decisões. Sempre incentivava suas caçadas, suas demonstrações de força e seus discursos sobre os Hourks terem se tornado fracos.
Pouco a pouco, tornou-se sua sombra. Seu conselheiro. Seu braço direito.
Então a serpe atacou. Numa madrugada tomada por tempestades, a criatura desceu das montanhas destruindo cercas e esmagando casas sob o próprio corpo colossal. Seu veneno contaminava a terra por onde passava, matando plantações e transformando água em lama escura.
Hourks morreram tentando detê-la. Os lobos atrozes fugiram em pânico. Foi então que Vor-Thak tomou sua decisão. Subiu sozinho as montanhas em perseguição à serpe.
Dois dias se passaram. Muitos acreditaram que ele havia morrido, mas então ele voltou.
Ferido. Coberto de sangue. Arrastando atrás de si a cabeça da criatura.
O vale inteiro celebrou. E Voghr sentiu medo. Não orgulho. Medo.
Naquele instante, ao observar os olhares admirados voltados ao filho, algo dentro dele se rompeu.
A paranoia finalmente venceu.
Naquela mesma noite, diante dos guerreiros reunidos, Voghr confrontou Vor-Thak publicamente. Acusou-o de buscar glória pessoal. De desafiar sua autoridade. Disse que nenhum Hourk caçava sozinho sem intenção de provar algo.
Vor-Thak respondeu pela primeira vez sem abaixar a cabeça.
Disse que alguém precisava proteger o vale enquanto Voghr estava ocupado demais tentando provar que ainda era forte.
O silêncio que tomou conta do lugar foi mortal. Então Voghr atacou. Pai e filho lutaram diante de todo o clã.
Machado contra clava.
Fúria contra disciplina.
A força brutal de Voghr ainda era monstruosa, mas Vor-Thak já não era mais uma criança. Pela primeira vez em muitos anos, o líder dos Hourks encontrou alguém capaz de enfrentá-lo de igual para igual.
A batalha terminou quando Voghr conseguiu derrubar o filho contra as pedras, pressionando o machado contra seu pescoço.
Ofegante, coberto de sangue, ele ergueu a arma diante do clã e rugiu:
— EU SOU O LÍDER DOS HOURKS!
O vale inteiro silenciou.
Vor-Thak apenas encarava com medo seu pai.
E então Voghr recuou.
Cuspiu ao lado do filho caído e disse, com desprezo:
— Você não é digno de morrer pelo meu machado.
Depois virou as costas.
Mas naquela noite, enquanto os Hourks comemoravam a sobrevivência do líder… Gur-Ath sorria discretamente entre as sombras.



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