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THELGRUN, o Protetor

Atualizado: 5 de jun.

Thelgrun, antes conhecido como O Conquistador, foi um mercenário de Paern, cão de caça da Companhia das Cordilheiras Ocidentais. Um anão bruto, visceral e impiedoso que tinha prazer no conflito mais do que na fortuna que recebia da burguesia mercante.

Embora fosse implacável no campo de batalha, não era nenhum homem sem escrúpulos que assassinava inocentes. Para a tristeza de alguns contratantes, ele era honrado e de boa índole, mas era o tipo de bárbaro que sorria no campo de batalha, que vivia para lutar.

Ainda jovem, já demonstrava domínio superior do machado acima de seus vários irmãos. Quando uma cocatriz surgiu nos paredões de plantio nas montanhas de Paern, o anão agarrou a criatura pela cabeça, a girou inteira no ar, esticando seu corpo por completo, e, quando foi ao chão, logo teve seu crânio atingido por uma machadada profunda, abrindo o osso.

Antes dos vinte, já era conhecido por ter derrotado a murros pesados uma taverna inteira de beberrões em uma de suas bebedeiras.

Como um bom anão, Thelgrun bebia de sua fortuna, se enchia das joias que os joalheiros de Paern consideravam ser sinônimo de uma vida de sucesso e honrava sua família e ancestrais com sua bravura em batalha.

Era um homem de boa aparência, com um cabelo como uma juba, tão lustroso quanto a barba, peito peludo e um traje que valorizava seus músculos. Talvez não fosse o homem mais bonito da sala, mas isso nunca o impediu de acreditar que fosse.

O título de conquistador veio cedo, assim que três famílias de mercadores estrangeiros entraram em conflito, em um mesmo ano, com os joalheiros de Paern. O pequeno grupo de mercenários de Thelgrun foi mais efetivo que qualquer exército local ao repelir consecutivamente os ataques, um após o outro.

Thelgrun era bruto, mas nada burro. Sabia comandar seus homens em formação, sabia usar seus talentos e garantir que voltassem vivos. Era apto a liderar um pequeno exército e se provou capaz de derrotar mais de um.

A Companhia crescia e lucrava em cima de Thelgrun e seu bando. O chamaram de conquistador, mas era quase uma piada. O que ele conquistava era para a Cordilheiras Ocidentais. Era só um cão de caça. E estava bem assim. Glória, fama, fortuna, bebida e mulheres. O que mais um jovem anão poderia querer?

Então ele descobriu o que poderia querer.

Valéria era uma aldeã simples à primeira vista. Era uma humana de tão baixa estatura que Thelgrun pensou que fosse uma anã. Talvez fosse isso que tenha chamado tanto sua atenção... Não, longe disso. Ele ficou cativado foi por seu cabelo crespo como lã de ovelha jovem, sua pele alva como a neve do topo das montanhas, seu olhar profundo naqueles olhos avelã e no mais lindo sorriso branco que já viu na vida.

A moça trajava um vestido simples, um avental de dona de casa e um lenço branco prendendo o cabelo. Para o olhar comum, não era digna de destaque dentre mil outras aldeãs, mas para Thelgrun foi como se sua vida tivesse sido à base de pão e água e, à sua frente, houvesse o mais refinado vinho que jamais provara.

Valéria era uma artesã e mercadora vinda de Reuhtor, ao norte. Da terra dos cavalos, ela trouxe humildes amuletos de madeira em forma de corcéis. Eram simples, entalhados à mão e sem o brilho das pedras preciosas, mas carregavam a precisão de quem domina o ofício.

Em Reuhtor, uma terra onde os soldados veem honra em lutar sem elmo, com a cabeça à mostra para o oponente, os amuletos da sorte se tornaram um dos poucos alentos daqueles que temem pelo bem-estar dos soldados que se colocam em risco todos os dias.

Ela pretendia vendê-los como amuletos de proteção aos guerreiros de Thelgrun, mas foi imediatamente barrada pelos joalheiros locais.

— Você viajou do norte para trazer gravetos à terra do ouro e das gemas? — desdenhou o primeiro, rindo alto. — Entalhados com faca de cozinha? Volte para o pasto, vaqueira. O bando de Thelgrun não usa lixo orgânico.

— Nossos guerreiros marcham cobertos com o mais refinado ouro e pedras lapidadas pelas melhores guildas — completou o parceiro, com arrogância. — A Companhia das Cordilheiras Ocidentais não precisa de superstição barata de camponeses. Eles têm aço e riqueza. O que sua madeira medíocre oferece além de lenha?

Thelgrun bufou, o rosto vermelho de fúria, prestes a explodir, mas parou ao notar que Valéria sequer piscou. Ela guardou a lâmina de entalhe com calma, olhou os dois homens de cima a baixo e sorriu com genuína pena.

— O ouro de vocês compra o adorno, mas não o pescoço que o carrega. Vocês lapidam pedras para homens que fingem ser deuses, enquanto eu entalho a única coisa que os lembra de que continuam mortais. Quando o aço inimigo colidir com essas armaduras brilhantes, o seu ouro vai apenas decorar o cadáver deles; a minha madeira é o que sustenta a promessa de que há um lar esperando pelo retorno de cada um.

Ela deu um passo à frente, reduzindo o espaço entre eles até que os joalheiros recuassem um palmo.

— Mas entendo o desespero de vocês. É difícil aceitar que um pedaço de carvalho esculpido por uma "vaqueira" vale mais do que toda a sucata reluzente que vocês imploram para esses homens comprarem. Então façam o seguinte: enfiem todo esse ouro no rabo, saiam do meu caminho e me deixem negociar em paz. Eu vim vender para guerreiros de verdade, não para perder tempo com dois sanguessugas que só sabem lamber botas por alguns tostões.

Silêncio... Os dois mercadores anões nunca viram alguém humilde os enfrentar de igual para igual. Além disso, sabiam que uma aldeã não teria o decoro de um nobre. Uma palavra errada e eles seriam alvo da mesma faca de entalhe daquelas peças. Engoliram em seco, buscando seus guarda-costas com o olhar, tentando fazer descaso para não passarem vergonha.

Thelgrun estava de queixo caído...

Ele iria se casar com aquela mulher.

Com alguns anos de cortejo, romance e então noivado, Thelgrun e Valéria se casaram. Ela foi o pilar que faltava em sua vida para encontrar um caminho melhor, se tornar um homem moral, digno. Mas não foi fácil deixar os velhos modos para trás.

As discussões eram constantes. Thelgrun ainda era um bárbaro em seu âmago, ainda vivia pela batalha. Por mais que a glória e a fortuna já não lhe importassem tanto, a luta nunca deixaria seu ser. Valéria não gostava nem um pouco disso. Desde sempre, ela foi alguém que buscou nas superstições algum consolo para quando seus entes queridos iam para a batalha. Seu pai e seu irmão morreram e nenhum amuleto pôde salvá-los. Talvez por isso ela insistisse em oferecer esse mesmo carinho a qualquer outro que sentisse esse mesmo medo de perder alguém em combate.

Valéria queria uma vida tranquila criando gado e cultivando a terra em Reuhtor, mas Thelgrun ainda era apegado a tudo que construiu em Paern. Por mais que sua família tivesse outros cinco filhos para herdar a liderança da casa, ele ainda sentia o gostinho da fama e da glória dentre sua bolha de conhecidos. Estava confortável como um mercenário da Companhia. Ele era Thelgrun, o Conquistador!

Mas uma relação é uma via de dois lados. Ambos teriam que ceder para que um acordo fosse feito. Morariam em Reuhtor, mas Thelgrun ofereceria os serviços de seu bando ao exército. Valéria ainda não gostava da ideia de mais violência, mas sabia que, trabalhando para o exército rubro, seu esposo estaria mais seguro e em melhor índole do que sob as ordens da Companhia.

Então, tiveram um primeiro filho. Um meio anão, meio humano, baixinho e meigo como um hipopótamo em miniatura. Foi nomeado Bifurr, como o avô de Thelgrun, sob a promessa de que Valéria nomearia o próximo.

Thelgrun nunca foi tão feliz quanto naquele momento. A vida era calma, as missões de Reuhtor eram humildes, mas aqueciam o coração do anão. Ele ajudava os necessitados com suprimentos, repelia bandidos e resgatava aldeões de ataques de criaturas. Cada sorriso de agradecimento, cada palavra de carinho lhe fazia se sentir heroico, como nunca antes.

Em menos de dois anos, tentaram ter uma menina para fazer companhia ao garoto. Valéria logo decidiu o nome Janete assim que engravidou.

Tudo corria bem, até o fatídico dia.

— Pegue seu velho capacete. Essa não é uma missão qualquer. Vocês vão enfrentar soldados de verdade!

— Reuhtorianos não usam capacete! Mostrar o rosto em batalha, pôr a cara a tapa em frente ao oponente, é a honra dos soldados rubros!

— Você não é reuhtoriano, Thelgrun! Não importa que se vista igual, coma igual e aja igual! Você não precisa seguir essa tradição idiota!

— Tradição idiota?... Quando nos conhecemos, parecia que as tradições de seu povo eram tudo que importava. Você fez descaso de tudo e de todos em Paern. E eu vim... Eu vim para Reuhtor com você. Eu mudei meus modos e encontrei motivação na honra dos soldados! Agora quer tirar até isso de mim? — Quase rosnou as palavras, mas parecia mais frustrado do que bravo. Um desabafo entalado por anos.

O bebê chorou ao fundo.

— Eu não ligo para mais nenhuma tradição besta, eu só ligo para que você volte inteiro para mim e para o Biffur! Eu só queria uma vida tranquila no campo, sem ter que costurar suas feridas a cada semana! Eu não durmo quando você sai, fico eu e Biffur sozinhos, tremendo de medo de que você volte num caixão!

— Valéria, meu amor, minha vida... — Ele se ajoelhou e a segurou pelas mãos trêmulas, beijando as costas de seus dedos. — Eu sei que coloco o peso do medo em suas costas, mas alguns arranhões não são motivo para temer por mim. Não há inimigo nesse mundo que vá conseguir me tirar de vocês. — Ele beijou a barriga dela. — Nem da nossa pequena Janete.

— Thelgrun, estou falando sério. Use a porcaria do capacete, não é algo para se fazer tanto alarde. Não importa o que seus colegas vão dizer, o que importa é você estar seguro. — Ela encarava o peito nu do esposo, as cicatrizes que ela mesma costurou. Sabia que nunca conseguiria fazer aquele bárbaro vestir uma armadura completa, mas pelo menos seu antigo elmo ela rezava que pudesse convencê-lo. — Meu pai e meu irmão morreram por menos que isso...

— Eu não sou um fracote qualquer como eles, esqueceu? — Sorriu, demonstrando confiança. — Não há ninguém que possa me enfrentar... — O sorriso sumiu em seguida.

Assim que as palavras deixaram sua boca, ele viu os olhos sombrios e a expressão de raiva de Valéria. Aquela frase soou muito pior do que em sua cabeça. Ele profanou a família morta de sua esposa, soldados que morreram por sua pátria; os chamou de fracotes! Mas... não era sua intenção, era?

— An? — Ela fez uma pausa, como se não acreditasse no que ouviu. — Como é? — Seu olhar poderia perfurar ferro forjado.

— Não, querida! Não foi isso que eu!...

Ela baixou os olhos para o chão. A expressão de raiva ganhou um tom de tristeza e frustração. Ela tentava há anos consertar esse lado orgulhoso e egocêntrico de Thelgrun, mas parecia que isso não iria mudar. Ela suspirou.

— Só... vá.

Ele ficou em silêncio. Levantou-se, pegou seu escudo, seu machado e fechou a porta ao sair. O capacete permaneceu repousado sobre a mesa.

Naquela noite, Reuhtor marchava contra a Casa Val’Had. Traidores da coroa que tentavam um golpe de Estado. Thelgrun não tinha nada a ver com isso, à primeira vista. Não conhecia aqueles nobres, não entendia as nuances daquele conflito, só ouvira falar de uma facção que se formava na nobreza em oposição ao rei. Nada disso importava; ele foi convocado para eliminar os inimigos da coroa, e era isso que pretendia fazer.

Se juntou à formação, a seus companheiros e aos conhecidos distantes. Todos com suas armaduras de aço rubro e sem qualquer forma de elmo. Como ele poderia ouvir Valéria? “Que tipo de reputação teria se fosse o único soldado a desonrar a pátria com sua covardia?”, pensou, ou tentava se convencer disso. Era pressão de grupo? Ou ele apenas era vaidoso, e sua reputação ainda era tão importante para ele quanto era em Paern?

Chovia forte, lama se formando em poças largas. As tochas externas nas lanternas de pedra da mansão dos Val’Had, no interior de Reuhtor, eram a única iluminação em meio ao breu. O ataque noturno foi proposital; sabiam que, se não agissem agora, arriscavam deixar um atentado se concretizar na manhã seguinte. Mas não foram furtivos, não eram assassinos. Sob chuva torrencial, tentando gritar mais alto que o som da água, um soldado anunciava a chegada do exército.

— Nobre Casa Val’Had! O rei os declara traidores da coroa. Rendam-se imediatamente e terão um julgamento justo. Recusem-se e sofram o pisar dos cascos da cavalaria de vossa majestade!

Silêncio, nenhum movimento atrás das cortinas dentro das janelas. Então, som de cascos nas poças. Do meio do breu, sem nenhuma tocha, investiram contra a formação em surpresa absoluta, escondidos pela noite e pela chuva!

Thelgrun segurou firme seu escudo junto às rédeas do pequeno cavalo que montava.

— Soldados! Em guarda! — berrou o mesmo representante de antes.

O som do relinchar dos cavalos em susto, do cavalgar molhado no meio da lama, do trote distante se aproximando. Gritos de dor, o gorgolejar de sangue de guerreiros morrendo no escuro. O caos se instaurou em instantes. A formação se quebrou, soldados da oposição surgiram cavalgando de todos os lados.

Thelgrun e seus companheiros não se deixaram levar pelo caos; circundaram a região em formação para evitar serem pegos pelas investidas. Thelgrun arremessou a lança que carregava no meio do peito de um cavaleiro, atravessando a cota de malha e o empalando contra o chão, deixado para trás pela montaria. Logo sacou seu machado de guerra e o brandiu, dilacerando o escudo de outro inimigo para em seguida decapitar o que estava logo atrás. A cabeça pendeu para o lado enquanto o cavaleiro seguiu cavalgando morto.

Então, das pilhas de feno molhado surgiram lanças! Os servos da família atacaram de suas posições escondidas. Disparos de besta vinham das janelas do armazém e do curral.

De todos os lados, sangue e lama. Os companheiros de Thelgrun também foram pegos de surpresa, mas ele rosnou como um bicho, uma criatura. Brandiu golpes, abrindo o peito de um lanceiro, e depois o jogou contra outros três, espalhando sangue. Alguns recuaram, fugindo intimidados.

Mas, em meio àquele ataque surpresa, notou o aliado ferido.

— Fiorji! Merda!! — O amigo de longa data teve um braço atingido por um golpe. O membro ficou pendurado pelo osso quebrado, inutilizado.

Avançou em cavalgada para o auxílio do amigo, derrubou um cavaleiro com uma escudada e desviou um cavalo com um chute na fuça, mas foi de encontro à investida de uma lança de justa. Tanto a lança quanto o escudo de Thelgrun se esmigalharam. O anão foi jogado pelo impacto enquanto sua montaria seguia. Foi ao chão, espatifando-se no meio da lama com um baque. Sujeira tomou seus olhos por um instante enquanto ele tentava se lavar na chuva. Quando conseguiu enxergar, a silhueta se aproximava.

— Fiorji! Recue! Você é inútil com o braço assim! Vai sangrar até...

Quando entrou na luz da tocha, notou que o anão em cima daquele cavalo pendia para frente. Os olhos brancos e o pescoço degolado. O cavalo avançava lentamente sem saber para onde ir. O corpo foi ao chão com um baque ainda mais audível que o de Thelgrun. Sangue na lama, novamente. Thelgrun encarou o amigo que considerava ser tão invencível quanto ele mesmo. Alguém que ele nunca teve medo de perder, pois achavam que nada poderia feri-los. Em frustração, de boca aberta, ele chorou de raiva. Rosnou um choro desafinado e ranhento, coberto em sangue e lama, lentamente lavados pela chuva.

— Mantenham formação! — O porta-voz tentava manter a calma, mas já desafinava com o medo.

Foi berrar mais ordens quando seu queixo foi separado do resto do rosto. A língua pendeu em uma enxurrada de sangue e o corpo logo caiu mole ao chão enquanto o cavalo fugia disparado.

Após o golpe, revelou-se o comandante da guarda das forças da oposição, Sir Corvin Val’Had. O sujeito tinha mais de dois metros de altura. Por mais que pouco parecesse, era humano. Não parecia um soldado reuhtoriano; sua armadura era de aço escuro adornada com ouro em padrões intrincados, e usava um elmo com penas de ganso coloridas no topo.

“Um maldito elmo”, pensou Thelgrun.

O comandante montava um cavalo de guerra estrangeiro, uma raça do sul gélido de Magnar, maior e mais parruda que os corcéis de Reuhtor. Em sua mão esquerda, ele carregava um alfanje de ponta larga, pesado, com a guarda decorada com aves diversas em tons dourados. A lâmina gotejava sangue. Seu queixo era largo e seu bigode fino. Um sorriso cheio de dentes surgia intimidador em meio às sombras. Era alguém que sorria em meio à batalha. Thelgrun sentiu o estômago revirar ao pensar em si mesmo na situação oposta. Não conseguia nem se imaginar sorrindo naquela hora. Ele queria apenas dilacerar os malditos que fizeram aquilo com seu companheiro.

Correndo a pé com sua pouca estatura, resvalando na lama, Thelgrun avançou furioso contra o comandante. Arremessou seu machado, que cravou no escudo do oponente, forçando-o a deixá-lo para trás, e saltou de mãos nuas para tentar puxar sua perna e derrubá-lo do cavalo alto.

Sir Corvin o chutou no rosto quando se aproximou, mas, com o nariz sangrando, ele só rosnou e agarrou o joelho da armadura do cavaleiro. Levou duas pancadas do pomo da espada na cabeça, mas, antes que percebesse, o comandante foi ao chão. O enorme cavalo relinchou, levantando as patas, e acertou Thelgrun na cabeça, abrindo um corte fundo.

O anão ficou desorientado, limpando o sangue dos olhos. Tentou se manter de pé e forçar Corvin contra o chão, mas este logo mudou de postura. O sorriso tinha virado um olhar de raiva.

— Como ousa me trazer para a lama com você, traste?!

Perdeu o ar de superioridade e demonstrou uma faceta mais assertiva. Faria o que precisasse para sobreviver. Arrastou os pés pela lama funda, esforçando-se a cada passo, e, ao chegar ao alcance de um chute, derrubou Thelgrun com um pisão no peito.

O anão espalhou respingos de lama para todo lado, mas, antes de se deixar ser pisoteado, catou do chão uma lança quebrada e a cravou atrás da joelheira do homem.

Corvin urrou de dor, ganindo como um cachorro enquanto segurava a coxa da armadura ao dar dois passos para trás.

Thelgrun preparou um murro, mas foi de encontro a uma joelhada da perna boa do comandante. Ele pendeu para o lado ao se apoiar na perna ferida por um instante, mas se manteve em pé. Thelgrun caiu apoiado em um joelho, olhando para cima para encarar o homem nos olhos.

O alfanje subiu, refletindo o fraco luar no sangue sobre o aço, e desceu, partindo o crânio de Thelgrun ao meio.

Thelgrun então percebeu... Havia, sim, mais do que alguns que poderiam tirar o anão de sua família... Mas talvez aquelas mãos que seguraram tão forte um amuleto de madeira tivessem protegido o que restou de um homem moribundo que só pensava em sua família nos momentos finais.

Seria um fim justo, pensou ele. Seria catártico e, por mais patética que tivesse sido sua performance final, ainda seria uma morte em combate. Seus ancestrais teriam orgulho... E Valéria choraria. Seus filhos cresceriam sem pai.

Pela primeira vez na vida, Thelgrun teve medo de morrer. De joelhos, sustentado apenas por uma coluna paralisada pelo choque, ele chorou de medo. Medo de deixar sua família para trás.

Então, escuro.

Passaram-se semanas. A Casa Val’Had foi derrubada. Thelgrun acordou. Sua cabeça costurada por pontos familiares. Sentiu o peso de pensar em como aquilo foi mais um ferimento para sua esposa se preocupar, e dessa vez ela tinha razão. Talvez sempre tivesse tido razão...

Thelgrun voltou para casa, mas não havia ninguém para quem retornar. Sua casa estava vazia, com nada mais que um bilhete de despedida. A carta era apenas para os olhos de Thelgrun, mas as palavras de Valéria estavam cansadas do medo constante de perdê-lo. Ela ficou dia e noite ao seu lado esperando que acordasse, e o medo nunca doeu tanto. Ela escolheu que preferia se afastar a ter que passar por algo assim novamente.

O fim de seu casamento...

Aquele evento foi um marco para o anão. Mudou sua forma de pensar. Sofreu mais do que nunca pela perda da esposa, que levou consigo seus filhos, mas sentia que era o culpado, que tentar remediar aquilo seria egoísta.

Thelgrun nunca mais se deixou levar por seu gosto pela luta, pela ganância ou pela vaidade. Deixou o posto de mercenário. Encontrou no exército sua vocação na proteção de um forte distante e pacato. Um local lindo no vale dourado. Estras.

— Aqui seria ótimo para criar gado e cultivar a terra... E seria o bastante.

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