ENKAR, Punhos de Fogo
- Odisseia card game
- 7 de mai.
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Enkar sempre foi impulsivo. Cresceu à sombra do pai, Entar — general das tropas do reino —, carregando desde cedo o peso de expectativas que nunca pediu. No início, era bem tratado, visto com respeito por ser filho de quem era. Mas a pressão constante para que seguisse carreira militar e se comportasse como um exemplo teve o efeito oposto: moldou nele um espírito rebelde. E tudo piorou quando seus poderes despertaram.
Em nosso mundo, não é incomum que indivíduos apresentem afinidade com a magia. Com o conhecimento amplamente difundido, muitas crianças aprendem pequenos truques ainda jovens — uma faísca na ponta dos dedos, uma leve brisa. Mas com Enkar foi diferente. Durante uma brincadeira entre amigos, na tentativa de conjurar uma chama simples, ele liberou uma labareda violenta que se estendeu até o teto, incendiando o quarto e deixando um dos garotos com uma grave queimadura no braço.
Depois disso, tudo mudou. Os olhares tornaram-se desconfiados, vieram os cochichos, os insultos, os afastamentos. E Enkar reagia, como sempre — o que apenas alimentava ainda mais a rejeição ao seu redor. O que começou como desconforto rapidamente evoluiu para desprezo aberto. Foi então que Entar interveio. Como punição — e também como tentativa de disciplina —, confinou o filho por um período na ala militar do castelo. Ali, entre soldados endurecidos pela rotina, o comportamento explosivo de Enkar era visto quase como uma curiosidade, às vezes até motivo de riso. Ainda assim, aquele ambiente teve um efeito inesperado: com o tempo, ele começou a enxergar as coisas com mais clareza.
Os anos passaram, e sua postura começou, aos poucos, a mudar. Ele se esforçava nos estudos, embora tivesse enorme dificuldade em manter a atenção em conteúdos teóricos, que considerava entediantes. Na prática, porém, demonstrava talento. Aprendeu a controlar os elementos — ao menos até certo ponto. O problema era a estabilidade. Sua magia ainda escapava em momentos críticos, tornando-se imprevisível e perigosa para todos ao redor.
A percepção das pessoas também começou a mudar. Já não o viam apenas como um problema, mas como alguém que lutava contra algo que não compreendia completamente. E isso o incomodava. Havia nele uma inquietação constante, uma necessidade quase física de agir, de testar seus limites. Mas sua dificuldade de concentração frequentemente levava a resultados… explosivos. A única técnica que dominava plenamente era a capacidade de revestir os próprios braços em chamas — um feito impressionante que lhe rendeu o apelido que carregaria dali em diante: Punhos de Fogo.
Foi aos 17 anos que tudo voltou a desmoronar. Durante um treino de conjuração, uma rajada plasmática escapou de seu controle, ricocheteando pelo ambiente até atingir uma colega — alguém por quem Enkar nutria um carinho especial. Seu nome era Priya. Ele planejava convidá-la para sair naquele fim de semana, mas nunca teve a chance. A magia atingiu seu rosto, lançando-a ao chão e deixando uma marca arcana permanente em sua pele.
Enkar desapareceu por uma semana. Trancado em seu quarto, isolado do mundo, afundou no peso da culpa. Não era mais apenas sobre perder o controle — era sobre ferir alguém que importava. Algo precisava mudar. Foi então que tomou uma decisão: procurou o pai e declarou que partiria em busca de um mestre, alguém capaz de ensiná-lo a dominar seu poder de verdade. Entar já sabia do ocorrido e, ao observar o filho, percebeu algo diferente. Não mais o garoto rebelde, mas um jovem consciente das consequências de seus atos. Havia crescimento ali. Com um orgulho silencioso, permitiu que ele partisse.
Enkar deixou o reino naquele mesmo dia. Antes, porém, passou pelo hospital onde Priya se recuperava. Sem coragem de enfrentá-la, deixou apenas um pequeno amuleto sobre sua cama e partiu enquanto ela ainda dormia. Sua jornada foi tudo, menos fácil. Seguiu primeiro para o sul, em direção às planícies congeladas de Magnar, onde ouviu falar de uma linhagem de magos poderosos. Ao encontrá-los, foi recebido pela nova mestra da casa, Urskiev, que o rejeitou imediatamente. Disse já conhecer sua reputação — impulsivo, instável, perigoso — e, com frieza, ordenou que fosse embora.
Enkar reagiu com indignação e raiva, o que apenas reforçou o julgamento da maga. O olhar dela deixava claro que ele acabara de provar exatamente o ponto dela. Sem alternativa, partiu novamente. Dessa vez, seguiu para o leste, rumo às terras élficas, acreditando que ali encontraria respostas mais profundas sobre a magia. Meses depois, chegou a um vilarejo druídico que guardava as fronteiras da floresta. Foi acolhido e permaneceu por quase um ano. No início, houve progresso, mas, inevitavelmente, sua magia voltava a escapar do controle. Era como tentar conter uma tempestade com as próprias mãos.
A esperança começava a se esvair quando os druidas lhe falaram de um lugar: uma torre fragmentada entre realidades, onde, paradoxalmente, existia uma escola de magia em meio ao caos absoluto. Advertiram-no de que era um lugar perigoso, um último recurso. Para Enkar, era exatamente isso. Ele foi.
Um semestre naquela torre — entre acidentes, perigos constantes e ensinamentos pouco convencionais — fez o que anos de treinamento não conseguiram. Seu poder finalmente encontrou alguma estabilidade. Mais contido, menos destrutivo. Talvez mais fraco, mas, pela primeira vez, sob controle.
E isso bastava.
Aos 20 anos, Enkar decidiu retornar para casa, não mais como o garoto impulsivo que partiu, mas como um novo homem, um novo mago. Ainda assim, havia algo que ele não podia prever: o destino raramente recompensa mudanças com tranquilidade.



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