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Vor-Thak, o Indesejado

O horário já era avançado para o desjejum quando Grumar saia de sua tenda e vislumbrava o vale “Garganta das Mil Presas”. Uma vista que aprendera a desfrutar todas as manhãs, repleta de antigas ossadas que lembram presas saindo do chão, memórias de criaturas de outrora, rica em espécies arbóreas de pequeno e médio porte, sempre rodeadas por uma vegetação rasteira. O sol que tocava sua face já era quente e os ventos que cruzavam o vale não davam conta de refrescar o suor que escorria em sua testa. Ele se permitiu apreciar uma vez mais esse momento... ao fechar os olhos, conseguiu ouvir o vento sibilar, ecoando entre as longínquas Cordilheiras do Mediterrâneo que o cercava. Pode notar o farfalhar da vegetação. O canto de algumas aves que planavam ao longe. Pode também notar o aroma das sopas rotineiras que já estavam sendo preparadas para o almoço e por fim as risadas das cozinheiras que preparavam tais refeições.

Risadas... um som que pode parecer natural a qualquer ser vivo, mas não para os ogros. Eles tiveram que aprender. Mais do que isso, eles tiveram que sangrar e morrer para poder ter o direito de se dar risadas. "Quantos morreram, Voghr, para alcançarmos isso?" se questionou, interrompendo seu torpor com o abrir de seus olhos esgotados e desgostosos com o que sabia que estava por vir na reunião convocada para essa manhã. Respirou fundo e pôs-se a caminhar em direção à Grande Tenda que se localizava ao norte de Ernbark, ao pé da Cordilheira. Era uma caminhada de pouco mais de 15 minutos e que realizava diariamente, afinal era lá que Grumar administrava interinamente toda a cidade. Mas também seria lá que a reunião convocada por Vor-thak ocorreria.

No caminho, notara que as vielas estavam vazias, o que era esperado, afinal, não seria exagero dizer que essa reunião poderia decidir o futuro dos Hourk e isso, obviamente, chamou a atenção de todos, sejam simpatizantes ou não da causa defendida por Vor-Thak.

Ao chegar próximo à grande tenda, já era possível ouvir muitos burburinhos que cessavam imediatamente quando seus interlocutores avistavam Grumar. Os ogros se apinhavam nas entradas da Grande Tenda, buscando um lugar de prestígio para poder acompanhar a reunião iminente. Em meio a essa lotação, o caminho se abria para que Grumar pudesse adentrar A Grande Tenda e finalmente iniciar a tão esperada reunião.

Tambores ressoaram e um ogro com um grito gutural bradou "Silêêêêêcio", anunciando a entrada do líder no recinto. Os ogros se aquietaram na medida do possível, encarando com semblantes rústicos Grumar, que se assentava no trono.

Da cadeira de maior autoridade, à vista de todos, Grumar perscrutou toda a tenda ao seu tempo. O clima era visivelmente hostil e percebera que um passo em falso, uma palavra mal interpretada ou uma atitude mal ponderada poderia ser o estopim para todos aqueles olhares desgostosos que o encaravam naquele exato momento. O problema é que Grumar era um combatente exímio. Ou seja, suas armas eram feitas de ferro e fogo e não as palavras e discursos. Sem poder delongar mais o início da reunião, Grumar estendeu sua mão e disse: "Pois bem, convoco Vor-thak, filho de Voghr, matador da Serpe Venenosa do vale, diga-nos o que quer jovem Ogro."

Da saída leste da Tenda, alguns ogros se abriram dando espaço a um ogro que restava sentado, mas com olhos fixos e incrivelmente intimidadores fitados nos olhos de Grumar. Sua pele possuía tons avermelhados e ao ficar de pé era visivelmente maior e mais musculoso que qualquer Ogro que estava naquela tenda. Dando passos em direção ao centro ele bufava e visivelmente demonstrava sua insatisfação com todos os acontecimentos recentes. Um sentimento que beirava ao ódio e se materializava dia a dia em rancor.

"Grumar, General dos machados de sangue, líder interino dos Hourk, venho em nome de todos aqui questionar até quando você pretende ficar sentado nesse trono sem fazer nada?"

"Fazer nada, Vor-thak: Se você acha que eu não estou fazendo nada..."

"Você sabe muito bem o que eu quero dizer!" - Interrompeu Vor-thak em um grito de fúria - "Até quando ficará ignorando e apoiando as transgressões de Voghr? Eu sei que você concorda comigo, General!"

Grumar se levantou e mesmo em pé sobre a plataforma que o trono ficava, Vor-thak que estava a poucos passos dele, encontrava-se praticamente na mesma altura que ele: "O que é isso Vor-thak? Convocou essa reunião para trair seu pai? É sobre isso que quer debater? Traição?"

Com seus punhos cerrados Vor-thak retrucou com uma voz em tom ainda maior "Pare de querer chamá-lo de pai em minha presença. A forma que ele trata seu filho não lhe diz respeito. O que questiono é sobre a liderança falha de Voghr. Me explique, qual é o objetivo para esse ataque à Reuhtor? Qual o verdadeiro propósito? O que está em jogo se não vidas incontáveis de Hourks que morreram pelo quê? ME RESPONDA!!!"

Ao fundo, podia-se notar cochichos e vários ogros acenando positivamente com a cabeça.

"Você sabe que somos um povo guerreiro, a guerra faz parte de nós, está no nosso sangue, Vor-thak. Negar isso é negar o que é ser Hourk!" - Grumar sabia que seu argumento era fraco, mas estava sendo colocado contra a parede e um apelo ao princípio Hourk era o que lhe restava.

"Não Grumar, não sou eu que nego o que é ser Hourk. A guerra está na nossa história, está no nosso sangue, isso não negarei jamais! Afinal, tudo o que conseguimos foi através da guerra. Mas sempre tivemos um propósito! Não fuja de minha pergunta: Qual o propósito de atacar Reuhtor?" Vor-thak bufava com seus olhos ardendo em ódio. Ter citado Voghr claramente havia sido um erro por Grumar.

Com seus dentes cerrando, Grumar encarou o filho de Voghr, mas sem conseguir retrucar. Respeitava Voghr e prometera a seu líder que guardaria seu trono até o seu retorno. Uma missão que a cada dia se tornava mais impossível do que nunca.

O silêncio demonstrou o que todos ali já sabiam. Até mesmo Grumar, braço direito de Voghr, não conseguia justificar as atitudes de seu líder.

Dando às costas ao líder interino, Vor-thak aumentou ainda mais o tom de voz dirigindo-se a todos os demais na tenda: "Voghr foi um grande conquistador, eu não nego isso. Éramos nômades. Assaltantes de terras. Não tínhamos um local para chamar de nosso. Mas não se enganem, não foi Voghr que deu essa terra para nós! Não foi Voghr que ergueu Ernbark. Foram os Hourks!” — bradou Vor-thak, abrindo os braços como quem abraça toda a tenda.

“Foram nossos machados que derrubaram as árvores! Foram nossos ossos que fertilizaram essa terra! Foi o sangue Hourk que correu pelos rios até que eles nos aceitassem como donos!”

Ele avançou alguns passos, girando o corpo para encarar cada rosto que o observava.

“Voghr nos ensinou que força sem propósito é só selvageria. Que a guerra não é um fim… é um meio. Cada batalha travada sob o estandarte Hourk tinha um objetivo: sobreviver, conquistar, permanecer!”

Vor-thak bateu o punho fechado contra o próprio peito, produzindo um som seco.

“Eu cresci ouvindo esses ensinamentos. Eu lutei por eles. Eu sangrei por eles! Matei a Serpe Venenosa do vale quando ela ceifava nossos caçadores! Defendi essas terras sem hesitar! Marcho à frente, não atrás!”

Os murmúrios cresceram, agora mais graves, mais densos.

“E ainda assim… enquanto nossos guerreiros morrem em Reuhtor sem saber por quê, eu lhes pergunto: isso é liderança Hourk? Isso honra os mortos? Isso fortalece nosso povo?”

Ele fez uma pausa curta, o suficiente para o silêncio pesar. Voltando-se novamente para Grumar, ele falou: “Não falo de traição, General.” — sua voz baixou, firme. “Falo de dever. Saiba que o trono Hourk não pertence a um nome. Pertence àquele que prova, dia após dia, que é digno de ocupá-lo.”

Vor-thak ergueu o queixo, os olhos ardendo como brasas. “Se Voghr retornar com propósito, eu me ajoelharei. Mas enquanto ele guerreia por vaidade… alguém precisa guerrear por nós.”

Erguendo seu punho pode-se ouvir o grito gutural ecoando por toda Grande Tenda, espalhando-se como fogo em palha seca por todos ali presentes. Vor-thak permaneceu imóvel, encarando Grumar. Entretanto, o rugido que se formava na Grande Tenda foi abruptamente rasgado por um som longo e grave, vindo de fora.

Uma trombeta. O som ecoava tal como o grito de uma fera, fazendo toda a Tenda estremecer e um silêncio se suceder. Todos sabiam o que isso significava. Trombetas que ficavam nos muros norte e sul de Ernbark e servia para alertar a todos quando algo era visto ao longo do vale. Um sopro para mensagens de alerta. Dois para inimigos, Três para aliados.

Um segundo sopro ecoou. Mais longo dessa vez. Porém antes que qualquer ogro pudesse tomar qualquer iniciativa uma terceira vez a trombeta era tocada. Ao fundo, tambores começaram a soar ao longe. Lentos, pesados e ritmados. Não eram tambores de guerra, tão pouco de alerta. O exército de Voghr enfim retornava.

Grumar desceu um degrau do trono, respirando fundo, como se o peso de dias — talvez anos — tivesse finalmente encontrado seu destino. — Ele voltou… — disse, a voz carregada de algo entre alívio e temor.

Vor-thak virou lentamente a cabeça em direção à entrada da tenda. Seu semblante não demonstrava surpresa. Apenas determinação.— Então que ele entre. — disse, alto o suficiente para que todos ouvissem.

— Que veja o que Ernbark se tornou enquanto ele guerreava por nada.


Texto original escrito por: Matheus "Zao" Eler.

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