Faenel, A Fiel
- Vinski Oficial
- 1 de fev.
- 5 min de leitura
A comitiva, com estandarte de Reuhtor hasteado, avançava em silêncio pelas antigas trilhas élficas. Caminhos de pedra clara que serpenteavam entre árvores colossais, cujos troncos eram enegrecidos e largos como torres humanas, e cujas copas se entrelaçavam tão alto que filtravam a luz do sol em véus dourados. Faenel cavalgava à frente com sua capa lisas de Reuhtor contrastando de forma quase agressiva com o verde eterno de Liin.
Era impossível não sentir nostalgia.
Aquelas trilhas haviam sido seu lar um dia. Cada curva trazia lembranças de treinamentos, de lições rígidas, de olhares que sempre pareceram avaliá-la — nunca acolhê-la. Ainda assim, seu coração apertava ao reconhecer o canto distante das aves, o perfume doce das flores, que desejava não ter esquecido. Uma harmonia que infelizmente notara que sentia falta.
Quando as torres curvas de Liin finalmente surgiram, erguidas como esculturas vivas de mármore e madeira branca entrelaçada, Faenel sorriu. Seus cabelos loiros, longos e soltos, caíam sobre as vestes escuras de corte humano. Nas costas uma espada intrincada. O chapéu pontiagudo, típico dos magos de Reuhtor, completava a figura destoante. Por um momento, ali restou, observando os portões de Liin se abrirem sem resistência. Dali, uma dúzia de guerreiros bem armados, montados em cervos foram ao encontro da comitiva de Reuhtor. Faenel já era esperada, mas isso não significava que seria bem recebida. Os guerreiros élficos ao se aproximarem se dividiram ficando seis deles dispostos na dianteira e os demais no final.
"Escolta particular?" ironizou Faenel "Que seja... adiante", ordenou, retomando o passo lentamente. E em marcha quase letárgica, a comitiva de Reuhtor adentrava Liin, sob diversos olhares curiosos de seus moradores.
Por três dias Faenel e os demais guerreiros de Reuhtor ficaram hospedados na cidade. Em que pese a família de Faenel fosse de Liin, a Maga guerreira não sentia vontade de visitar sua casa. Afinal, não sabia como iria ser recebida. Sua família era da alta nobreza e jamais esconderam o desagrado de ter sua primogênita submissa a um Reino dos homens. "Que decadência", diria sua mãe se a visse vestindo as vestes que a acompanhavam diariamente.
Finalmente, no sol nascente do quarto dia, ela poderia cumprir o destino de sua viagem. Conseguira uma audiência com a Matriarca. O local ficava ao centro de Liin. O caminho até o complexo central conduzia a um platô elevado, acessível por uma longa alameda ladeada por um vasto campo, onde ao centro encontravam-se três estátuas que representavam os três primeiros deuses. Seus rostos serenos observavam cada visitante como juízes silenciosos. À medida que Faenel se aproximava, o murmúrio da cidade diminuía. O ar tornava-se mais denso, carregado de magia antiga. Dois grandes portais de madeira branca e ouro vivo se abriram lentamente, sem que mãos os tocassem, revelando a entrada do complexo central. Faenel respirou fundo, ajustou a bandoleira da espada e avançou sozinha, deixando sua comitiva para trás.
O interior do complexo era de uma exuberância quase irreal. Colunas entalhadas em formas orgânicas sustentavam um teto alto como o céu aberto, de onde pendiam cristais translúcidos que emanavam luz própria. As paredes eram vivas, cobertas por relevos que narravam a história dos povos élficos. Fontes de água cristalina corriam silenciosas, refletindo o dourado solar e o verde da natureza em padrões quase hipnóticos.
No centro da plataforma, sentada em um assento que não parecia um trono, mas uma extensão orgânica da própria estrutura, estava a Matriarca. Ela aparentava pouco mais de vinte invernos — pele perfeita, traços harmoniosos como os de uma deusa esculpida pelos próprios deuses. Seus cabelos claros caíam como seda sobre vestes simples, porém impecáveis. A amortalidade a congelara naquele instante exato de beleza absoluta.
Quando Faenel se ajoelhou, a Matriarca sorriu.
— Levante-se, minha criança — disse ela, com uma voz calma, quase maternal. — Não precisa se curvar a mim como se fosse estranha.
Faenel obedeceu, sentindo algo que raramente sentira em sua própria casa: acolhimento.
— Diga-me — continuou a Matriarca —, como estão as coisas em Reuhtor?
Faenel relatou os fatos com precisão: a estabilidade da corte, o adoecimento repentino do rei, a submissão da rainha. Em nenhum momento citou Dainora diretamente, mas seus olhos vacilaram por um breve segundo.
A Matriarca percebeu.
— Você está inquieta — disse, suavemente. — Mais do que deveria estar.
Faenel respirou fundo.
— Há… forças em jogo que não domino completamente.
A Matriarca inclinou levemente a cabeça, como quem observa linhas invisíveis no ar.
— Vejo aço e devoção — murmurou. — Vejo uma lâmina que brilha aos olhos dos mortais… e uma maga que carrega o peso do mundo sem ser vista.
Faenel sentiu o peito apertar.
— Dainora recebe honras que… — começou, mas se calou.
— Que você não recebeu — completou a Matriarca, sem julgamento. — Eu sei.
Ela se levantou e aproximou-se, pousando delicadamente a mão sobre o rosto de Faenel.
— Você não é menos por não ser vista. Lembre-se: Você é necessária... e fiel.
A Matriarca então se afastou, o olhar distante por um instante. Seu plano era infiltrar elfos nos reinos mais poderosos do mundo. Não como conquistadores, mas como conselheiros, cônjuges, guardiões. Presenças sutis, porém decisivas. Vozes suaves que, no momento certo, guiariam impérios inteiros na direção desejada.
Faenel fazia parte desse plano.
Não como símbolo — mas como contingência.
Em Reuhtor, a peça principal era a rainha. Uma elfa de sangue nobre antigo, descendente direta de uma das casas mais respeitadas de Liin, escolhida a dedo para selar o matrimônio com o rei humano. A união fora celebrada como um triunfo político. Um elo entre povos. Um gesto de paz.
Mas havia um problema.
A rainha amava o rei.
Faenel testemunhara isso em gestos que não deixavam espaço para dúvida: no sorriso que a rainha reservava apenas ao rei, jamais exibido diante da corte; na forma como sua postura rígida se dissolvia assim que ele se aproximava; no cuidado excessivo com cada palavra dita em sua presença, como se temesse feri-lo mais do que temia errar politicamente. Havia afeto, desejo e escolha ali. Amor genuíno — e, justamente por isso, uma vulnerabilidade imperdoável aos olhos da Matriarca.
Era por isso que Faenel permanecia ali.
Como sombra.
Como observadora.
Se a rainha se mostrasse incapaz de priorizar Liin acima de Reuhtor, Faenel assumiria. Não o trono — ainda não — mas a influência. A condução silenciosa dos eventos. A correção de rota.
— Sua próxima missão será de suma importância, Faenel. — A voz da Matriarca permaneceu doce, mas havia firmeza absoluta nela. — Você não deve falhar.
— Qual missão, minha senhora? — perguntou Faenel.
A Matriarca sorriu, enigmática.
— Você entenderá quando chegar a hora. Mas saiba que seus dias na sombra estão chegando ao fim. Cuidado para não voar perto demais do sol, minha criança.
Faenel inclinou a cabeça, aceitando. Não porque compreendia — mas porque confiava. Sabia que o entendimento da Mãe dos Elfos superava qualquer percepção mortal. Assim, reverenciou uma vez mais a mãe dos elfos e deixou sua presença.
Em seu retorno para Reuhtor descobriu que durante sua ausência, Voghr atacara a cidade humana. A notícia chegara fragmentada, carregada por mensageiros apressados. As muralhas resistiram. O povo sobreviveu. E Dainora lutara.
Lutara com bravura.
A Lâmina do Rei defendera Reuhtor como se fosse sua própria carne, e os relatos já começavam a ganhar contornos exagerados — feitos heroicos, golpes impossíveis, lealdade inquebrantável. Faenel apertou os dedos ao redor das rédeas.
O prestígio que ela conquistara em Reuhtor era algo que Faenel jamais aceitara engolir por completo. Não por inveja simples — mas por princípio. Faenel era alta nobreza. Educada para governar, não para brandir lâminas em nome de reis humanos. Ainda assim, era Dainora quem recebia olhares de admiração. Era Dainora quem simbolizava honra.
Contudo, Faenel sentiu algo diferente. As palavras da Matriarca uma vez mais ressoaram dentro de si. "Eu não posso falhar...", disse a si mesma. E sem entender, uma certeza incômoda lhe atravessou o espírito: algo começava a se mover sob o véu do tempo, e a sombra que sempre a envolvera já não seria suficiente para ocultar o que estava destinado a emergir.
Texto original escrito por: Matheus "Zao" Eler.



Comentários