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Gilborn, o Sobrevivente

O entardecer pintava o céu de Reuhtor em tons de rosa, laranja e amarelo, pondo em sombra a metade da cidade que ficava obscurecida pela pequena montanha solitária na qual a cidade tinha sido construída. O cheiro de ferro e fuligem ainda não havia deixado a capital em paz desde o ataque Hourk. Cabanas ainda manchadas de sangue, telhados de sapê chamuscados pelo incêndio criminoso. Casas inteiras derrubadas. Era com um clima de lamúrias que o funeral de um herói do reino se encerrava antes do pôr do sol. Um mago, um veterano, um pai.

No meio da estrada principal, uma taverna robusta abrigava os enlutados do velório, se reencontrando ou conhecendo uns aos outros pela primeira vez, muitos tendo o falecido como único elo.

A taverna era grande o bastante para abrigar todos que compareceram à cerimônia e mais uma dúzia, mas nem todos desses permaneceram após os ritos finais. O próprio padre que fez os ritos estava já se indo rumo a saída.

— Ethis ajuda quem cedo Madruga! — Dizia, recusando a cerveja e tomando seu rumo com um sinal de bênção com os dedos.

Muitos presentes eram antigos alunos que treinaram com velho mago em seus tempos de glória. Magos da corte, magos militares. Outros não eram usuários das artes arcanas, mas pessoas que foram salvas pelo herói quando mais novos. Alguns se tornaram militares, como alguns jovens recrutas bebendo juntos, ou mesmo antigos companheiros de aventura, como o treinador Trevor, que consolava alguns jovens que já sentiam o peso na falta do falecido.

A taberneira anã, com seus cachos de tons sortidos entre castanho, ruivo e loiro, servia as mesas com mãozadas de canecas, cheias de cerveja local, orgulho da cidade. Tinha um sorriso respeitoso, pois também conhecia o falecido. Atrás do bar subia em degraus de madeira para alcançar o balcão claramente feito para a altura humana. Sentado ao bar, em um banco simples, estava Gilborn.

Gilborn Guston era um homem humano de grande porte na casa dos quarenta ou cinquenta anos, pela aparência, ou pelo menos aparentava ser humano na maior parte, porém, como todo corrompido, era considerado um Diabus. Seu braço direito inteiro tinha se transformado em algo demoníaco, e pequenos traços dessa mesma corrupção se espalhavam vindo do ombro para o pescoço e o lado do rosto, com veias escuras visíveis sob a pele. A idade era aparente tanto pelas rugas e linhas de expressão, o cabeço curto e a barba robusta salpicados com fios brancos e a voz rouca e áspera, mas também pelo olhar cansado, pela expressão de quem já tinha passado por muito, cansado, cansado, cansado… Suspirava.

Gilborn vestia uma armadura não muito robusta, escondida por uma capa de viagem em maior parte. Ao seu lado repousava contra a parece uma arma. Era grande demais para ser chamada de espada. Uma montante maciça, grossa e pesada demais, era mais como uma barra de ferro bruto.

Do outro lado do veterano, no banco seguinte do bar, estava um umbral. Um elfo de pele bronzeada, vestindo roupas destoantes do resto da cidade, exóticas até. Camadas de trapos que os viajantes do deserto vestiam para se cobrir do sol e se proteger das tempestades de areia. Carregava na cintura uma kilij, uma espada curva umbral, assim como uma adaga jambiya no cinto. Ele ficava enrolando no dedo o bigode bem cuidado enquanto encarava as prateleiras de garrafas diversas.

— Você tem falado com a Misericórdia? — O umbral pousou o copo de chifre com cerveja até a o topo sobre o balcão, circundando a borda molhada com o dedo.

— Ela tem um nome, e definitivamente não é esse título estupido… — O veterano debruçado sobre o próprio copo parecia cansado e sem fôlego mesmo para responder. Se apoiava no braço de pele vermelha, envolto em cintos de couro com pregos de ferro embutidos na própria carne. Quando notou olhares, escondeu o braço sob a capa.

— Você não respondeu a pergunta, Gilborn. — Disse enquanto ajeitava o turbante na cabeça, dando espaço para as orelhas pontudas.

— Achei que era óbvio. Eu não a vejo há anos… A mais tempo do que eu e você nos conhecemos.

— Ela está na cidade. Parece que subiu na vida desde a última vez que eu tive que ir por você fazer o papel de pai ausente que aparece uma vez por ano.

— Eu não sou pai dela… — Ele tentou segurar a curiosidade, coçando o queixo barbado, mas virou a cabeça para o umbral, o encarando com o único olho bom, enquanto o outro era oculto pelo tapa-olho. — Como ela está?

— Como sempre em alguma missão importante para a Ordem. Agora é uma capitã, e uma muito respeitada. Sobre a corrupção… Ela parece bem, por mais que nela o efeito tenha sido tão agressivo. Parece que ela teve acesso ao melhor tratamento que a ordem pode pagar. — Ele olhou para o amigo com pena. — Diferente de você, grandalhão.

— Eu fiz uma escolha rápida e não me arrependo. Uma pena ela não ter tido a mesma rapidez, teria poupado as feições dela. Seria uma garota linda nessa idade. — Soou arrependido.

— Falou como um verdadeiro paizão que está se fazendo de lobo solitário. Mas não se preocupe, com ou sem chifres ela cresceu uma moça forte e radiante. — Ele fez uma pausa, abrindo a boca sem encontrar palavras para abordar o assunto. — E seu irmão? Ele apareceu procurando por você. De novo.

A armadura tilintou com o corpo surpreso com a menção. Com o pescoço tenso, respondeu.

— Não quero falar sobre ele. — Seco.

— Se eu recebesse uma moeda sempre que você abandona alguém querido por “ser a coisa certa”, eu teria cinco moedas. Não é muito, mas é estranho que tenha se repetido três vezes! — Fez menção de uma risada, mas sem humor, irônico.

— Não quero falar do grupo também. Somos todos homens de idade agora. O que passou, passou. Deixe o passado ser. — Disse de forma ríspida. — Parece que você só aparece para trazer fantasmas para me assombrar, Vincen! — Bateu o copo, respingando no balcão.

— É meio difícil de evitar esse tipo de assunto quando a única vez que a gente se encontra é quando algum amigo mútuo morre!... — Encarou o copo, acalmando o corpo. — Descanse em paz, Entär. — Disse fechando os olhos.

Eles ficaram em silêncio por um instante.

— O filho do Ébano era mago também, né? Ele ainda não voltou pra casa desde aquela viagem dele? — Gilborn perguntou sincero.

— Enkar, sim… Na verdade ele lutou por Reuhtor na batalha. Saiu mais feio que você. Metade do rosto carcomido por magia negra. Ele estava no velório. Você não deve ter reconhecido ele com o dobro da altura de antes. Além de você ter se enfurnado no fundo do canto mais escuro que você encontrou na capela, né? Seu anti-social de merda. — Brincou, mas com um fundo de verdade e crítica.

— Pobre garoto, mal retornou e já teve que enterrar o pai.

— Sim, é trágico, mas é a ordem das coisas. Os velhos morrem e os jovens os enterram… — Disse em tom mórbido e dramático, mas mudou a expressão para um sorriso bobo com uma notícia. — E falando em gente muito velha, adivinha quem foi o tutor do garoto na magia?

Gilborn quase engasgou com o gole de cerveja.

— Não diga que o Velhote ainda tá com a ideia absurda de ensinar a nova geração, mesmo com… Você sabe. — Resmungou surpreso, mas uma tristeza tomou sua voz. Desviou o olhar triste de volta para o copo. — Ele não é mais ele mesmo.

— Eu sei, velho amigo. — Repousou a mão fina no ombro cansado do companheiro. — Mas devemos aceitar ele como ele é agora. O Velhote de antigamente não vai voltar… — Encarou a janela para a rua, vendo o céu entardecer, com um sorriso triste. — Então só nos resta nos adaptarmos a quem ele é agora, sendo um velho gagá ou não.

— Eu sei que você é um ancião mais velho até que ele em idade, seu orelha de faca abestalhado, mas não precisa ficar soltando uma “pérola de conhecimento” a cada frase. — Questiona, brigando de forma brincalhona, antes de ficar sério e o encarar no fundo dos olhos com o olho bom. — Você pode largar essa fachada de “sabe tudo maduro” comigo. Eu só vim aqui beber junto com você em nome da memória do Ébano, então enche a cara e para de me importunar com sermão. — Com a ânfora de cerâmica, encheu a própria caneca e a do Umbral também, até espuma derramar.

— Muito bem então. — Perdeu aquela expressão de superioridade moral, e revelou um bom e velho bêbado na taverna com um velho amigo. — Um brinde então!

— A Entär, Fogo Selvagem! Que o maldito faça os próprios demônios passarem calor no lado de lá da morte! Haha!

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