top of page

Diário do Profº Percival – Vol. 2

Meu pai deixaria seu charuto cair ao chão se soubesse de tudo isso...


Os primeiros meses de aula passaram rápido — e foram, surpreendentemente, divertidos. Fazia tempo que eu não me sentia tão vivo e empolgado. Os três novos alunos — Enkar, Enalir e Kazur — criaram, dia após dia, uma conexão cada vez mais sólida entre si, seja no entusiasmo pelas minhas aulas, seja no planejamento conjunto de como sobreviver à próxima lição do mago louco.


Enkar foi, sem dúvida, o que mais sofreu. Em uma única semana, foi congelado, envenenado, petrificado e queimado. O garoto possui uma força de vontade admirável para suportar tudo isso. Sempre que posso, assisto às aulas do mago de perto, tentando garantir a segurança de todos — tarefa ingrata, considerando que ele coloca a si mesmo e aos alunos em risco com frequência alarmante.


É complicado lidar com alguém cuja mente se perdeu na própria loucura. Ele é, no fundo, um bom homem… mas seus métodos de ensino são, no mínimo, questionáveis. Suspeito que, se eu não estivesse aqui para “segurar as rédeas”, algo significativamente pior já teria ocorrido. O problema é que ninguém é de ferro, e vigiá-lo ininterruptamente é exaustivo. Basta uma breve brecha — um momento de descanso — para que o caos volte a reinar na torre.


Esse tipo de situação tem se tornado comum demais nos últimos anos. Às vezes me pergunto quando, ou se, vou me acostumar. Sinto falta da minha pacata vila natal, Verde-Verão… Talvez, se ainda estivesse lá, tivesse me casado, constituído família e levado uma vida tranquila. Mas então me recordo da responsabilidade que carrego aqui. Não posso deixar os alunos sozinhos — eles precisam de mim. E, de certa forma, devo admitir: eu também preciso deles.


Não reclamo de barriga cheia. Tenho um teto sobre a cabeça, comida à mesa e, graças à reputação do lugar, poucos bandidos ou monstros ousam se aproximar… exceto, é claro, as criaturas que o próprio mago insiste em invocar por meio de suas fissuras. Aliás, falando nelas, essas fendas me intrigam profundamente. Há anos tento estudá-las — compreender o fenômeno que fraturou o tecido da realidade e fez da torre um ponto de interseção entre dimensões —, mas sem grande sucesso. Talvez nelas esteja a chave para entender o que aconteceu com o mago… e com sua mente. Por ora, contudo, falta-me o conhecimento necessário para avançar.


Agora, quanto aos últimos dias, acredito ter um relato digno de registro.


Há três noites, acordei no meio da madrugada com o ronco da raposa interdimensional que decidiu, por conta própria, residir em meu quarto. Até então, apenas mais uma noite comum. Levantei-me e caminhei pela torre. Passei pela ala dos estudantes e ouvi risadas vindas de dentro. Os três pareciam beber e contar histórias. Não me incomoda — embora eu já antecipe o esforço de mantê-los acordados na aula seguinte.


Subi mais alguns lances de escada até alcançar os aposentos do mago. Ele também estava acordado, ocupado na montagem de algum tipo de aparato metálico utilizando nossa antiga réplica do sistema solar. Percebeu minha presença imediatamente e me convidou a entrar. Disse, com entusiasmo, que aquilo seria seu “presente de formatura”. Observei o objeto: confuso, como era de se esperar. Ainda assim, não detectei nenhuma armadilha mágica evidente, então decidi não insistir.


Foi então que algo chamou minha atenção.


Um ruído suspeito vinha debaixo de um tecido no canto do quarto — algo pequeno, mas agitado. Perguntei ao mago o que era, e ele respondeu casualmente:

“Ah, encontrei isso na minha última caminhada noturna e resolvi trazer comigo. Achei fofinho. Dê uma olhada!”


Aproximei-me, intrigado. Ao puxar o tecido, um feixe elétrico quase atingiu minhas pernas — evitei por pouco, graças a um salto instintivo.


Dentro de uma pequena gaiola, encontrava-se um feroz dragão azul das tempestades. E não, não parecia um filhote.


Voltei-me lentamente para o mago, que comentou, como se fosse óbvio:

“Ele era muito grande para trazer, então eu o encolhi, oras.”


Fiquei em silêncio por alguns instantes, processando o que acabara de ouvir. Capturar uma criatura mágica já é, por si só, um feito notável. Agora, encontrar um dragão, miniaturizá-lo e aprisioná-lo… pode ser a coisa mais impressionante — ou mais estupidamente irresponsável — que já testemunhei.


Perguntei o que ele pretendia fazer com a criatura. Ele respondeu, pensativo:

“Ainda não sei… talvez eu o torne meu assistente.”


Fui, naturalmente, contrário à ideia. Passei o restante da noite tentando convencê-lo a devolver o dragão ao seu local de origem — com a tênue esperança de que, se libertado rapidamente, talvez não decidisse nos caçar por vingança. Ele prometeu que o faria no dia seguinte.


Era obviamente uma mentira.


Dois dias depois, ao descer para o almoço, deparei-me com o dragão solto no refeitório. Instalado, confortável — como se fosse o legítimo dono do lugar —, banqueteava-se com nossa comida. E ai de quem ousasse se aproximar. O refeitório havia se tornado seu território.


Pobre Kazur… encontra-se agora na enfermaria, com o braço completamente remendado, após uma tentativa heroica — e tola — de recuperar nosso almoço.


Consegui conjurar um feitiço de contenção e capturar a criatura. Levei-a de volta ao mago, que, para minha absoluta frustração, alegou não se lembrar de onde havia encontrado o dragão.


Sem hesitar, ele tomou o animal adormecido de meus braços e o arremessou dentro de uma das fissuras dimensionais da torre.


Sinceramente…


Espero que ele não encontre o caminho de volta.

Comentários


Odisseia Card Game - Logo

CNPJ: 61.536.185/0001-48

Nome do dono/sócio administrativo:

Vinicius R. Botelho Drummond

Contato:

  • Whatsapp
  • Youtube
  • Instagram
bottom of page