top of page

Misericórdia e a Sommelier de Sangue: Parte 1


Um Conto por: Vitor "Vinski" Ripinski.

O vento soprava cansado ao surgir da alvorada, parecendo que nem mesmo ele queria estar naquele fim de mundo. O frio era mais intenso perto do chão, regado pela névoa constante que deixava tudo que estivesse a mais de dez passos de distância em tons de cinza. A silhueta de uma pequena vila se desenhava ao longe no meio dessa névoa.

O cavalo levantava terra úmida no galopar constante.

Misericórdia insistia em ajustar a manopla na mão esquerda, que já estava no lugar desde a primeira vez que mexeu, dez movimentos antes, porém o incômodo continuava. O problema não era o metal da armadura ou o couro da luva, mas a pele que vestia sobre sua carne. Aquela não era a mesma pele ébano com a qual nasceu, era algo corrompido, disforme, inatural… Os talismãs de selos de papel colados por todo o corpo roçavam incessantemente, as protuberâncias demoníacas pareciam pulsar como um coração por baixo da carne.

Ela rangeu os dentes, desacostumada até com isso, quando apenas o par esquerdo de caninos que eram afiados travou no lugar. Ignorando o incômodo, ela bateu as rédeas.

Recém levantada de seu acampamento, torceu para o sol do amanhecer que pouco iluminava seu caminho também lhe concedesse um pouco de calor. Bateu o cabelo no ar frio e sentiu o peso do chifre com o qual precisava se concentrar para ignorar. Se encolheu no jaquetão de linho e ajustou o tabardo vermelho da ordem do sol, sem notar o pergaminho de velino de seu uniforme fora de lugar pelo galope do cavalo.

Misericórdia era um apelido, talvez até um título, mas poucos sabiam seu nome verdadeiro e menos ainda lembravam dele. Poucos restaram dos que eram conhecidos próximos da jovem. Foram amigos que a chamaram assim, com uma brincadeira em tom de orgulho pela vez que ela deixou um bruxo sair com vida de um conflito, um bruxo que implorou por piedade, que disse que tudo que fez foi para trazer sua mulher de volta. Ele ainda não tinha se perdido, ainda não era sem salvação. Se fosse preso seria executado… Misericórdia fez a escolha, e seus aliados concordaram.

— “A Misericórdia em pessoa! Haha”— Clamou um companheiro. — “Que se danem as ordens, a gente fez o certo.”

Mas hoje, essa origem se perdeu. Poucos sabem da história, e os que sabem dizem o apelido com desdém.

— “Misericórdia, é? Pois vez o que isso nos custou”.

Misericórdia acelerou o passo do cavalo. Garantiria que seu título fosse dito com ironia dali para frente. Nenhum inimigo mais conheceria sua misericórdia. Não havia mais espaço para piedade. Ela nunca deixaria aquilo se repetir…

Dunkonor era um reino sem rei, sem religião e quase sem lei. “O Nevoeiro” era mais do que motivo para que nenhuma norma se instaurasse por definitivo na região. A região no centro do reino era uma anomalia do véu da realidade. Um outro plano, sombrio e perigoso, mas que ofertava tamanhos tesouros que povos de todos os lados quiserem um pedaço. Aventureiros vinham de longe para jogar suas vidas fora nas incursões… Mas não era para isso que uma Clériga da ordem do sol tinha sido mandada aqui, não. O problema não era ir em uma incursão, o problema é que às vezes algo sai.

A vila de Brejo-Musgo não podia ser chamada de charmosa, tão pouco aconchegante. Não passava de um aglomerado de cabanas carcomidas pela umidade cercadas por uma paliçada com frestas grandes o bastante para um cachorro velho entrar e sair sem alarde. O nove vinha do musgo pendurado nos telhados de sapê, como as barbas de um bote velho. No cruzamento do poço central, fumaça saía pela chaminé da única construção de pedra: o prédio que servia de estalagem, consultório médico e necrotério.

Misericórdia desmontou. A armadura da Ordem do Sol estalou pesadamente com o impacto das botas no lamaçal. Ela tocou a empunhadura da maça presa à cintura, um gesto mecânico, um hábito de sobrevivência. Em sua mente, a voz de Mãe Eshé ecoava com a clareza do sino do convento que ouvia ao acordar desde a infância: “O mundo é um lugar torto, minha filha. Para os desesperados, ofereça a mão. Para os ímpios, ofereça a lâmina. Mas nunca confunda uma pessoa ruim com uma pessoa de escolhas ruins.”

Ela pisou no tablado de madeira da estalagem enquanto a porta rangia como uma velha ao ser empurrada. O silêncio que se fez lá dentro foi imediato.

Os camponeses amontoados ao redor das mesas de carvalho encostaram-se contra as paredes, os olhos arregalados divididos entre o emblema do Sol Sagrado em seu peito e a aberração em seu rosto. Misericórdia já esperava esse olhar, ela sabia que não veriam mais a luz de esperança de uma Clériga da Ordem do Sol, veriam apenas um chifre singular em sua testa, veriam a pele retorcida como queimadura, vermelha como o pôr do sol, veriam as bandagens como se escondesse quem era. Ela sabia… Mas não sabia que doeria tanto.

— Quem responde por este lugar? — a voz de Misericórdia saiu baixa, firme, sem qualquer espaço para cortesia desnecessária.

Um homem calvo, de barriga proeminente e avental encardido de gordura, deu um passo à frente, tremendo as mãos com nervosismo.

— Eu... sou o Magistrado, senhora cavaleira. Vanclev. Esperávamos um batalhão da Ordem. Os outros aguardam lá fora ou… vieste apenas a senhora?

— Clériga- — Enfatizou ela. — Misericórdia, Magistrado. A Ordem está ocupada com guerras de verdade no sul — disse, caminhando até a mesa central. O peso da armadura fazia o assoalho ranger. — A Ordem cuida dos seus. E a mim foi dada a tarefa de limpar a sua floresta. Conte-me o que aconteceu. Sem rodeios. Fatos.

Vanclev engoliu em seco, olhando para o chifre na testa da clériga antes de conseguir fixar os olhos no chão.

— A besta... a Diaba Selvagem, Senhora. Veio da serra há três noites. Uma vampira, dizem os caçadores que conseguiram correr. Alta como um salgueiro, olhos de brasa. Ela pegou a patrulha da mata. Chacinou quatro homens. Bebeu o sangue deles até secar e largou os restos para as moscas.

Misericórdia sentou-se na ponta do banco, apoiando os antebraços sobre a mesa. Ignorou o desconforto do braço rubro. Inclinou a cabeça levemente.

— Quatro homens armados?

— Sim, senhora. — Acenou com a cabeça positivamente, nervoso. — Os melhores caçadores da vila!

Ela mediu a força da criatura, algo capaz de sobrepujar quatro homens armados.

— Quanto sangue havia no local onde os corpos foram achados?

— O quanto? Muito, eu presumo...

— O sangue de uma vítima de vampiro é escasso no local do ataque, porque a fera o consome. Se havia poças, o ataque foi mutilação, não alimentação. E a profundidade das mordidas? Havia marcas de dentes em outras partes ou apenas no pescoço? — Misericórdia sabia que estava pressionando, exigindo conhecimento de um leigo, mas não poderia se dar ao luxo de falhar, não dessa vez.

— Eu... eu não sei, senhora — o magistrado deu um passo para trás, visivelmente desconfortável com a precisão cirúrgica da clériga. — Os corpos estão no galpão dos fundos. Esperando a bênção para o enterro. Um padre vem da capela vizinha.

— Mostre-me.

Ela seguiu Vanclev até o anexo frio no fundo da estalagem, onde o cheiro de mofo se misturava ao odor adocicado e inconfundível das ervas que acompanhavam o embalsamamento. Sobre quatro tábuas de madeira crua, cobertos por lençóis de linho grosseiro, jaziam os mortos.

— Os sobreviventes nos avisaram no mesmo dia do ocorrido, fazem quatro luas. Mandamos guardas para investigar e eles encontraram os corpos assim…

Misericórdia puxou o primeiro lençol: A cena era grotesca. O cadáver do caçador estava com o tórax aberto, a carne rasgada em tiras irregulares. A pele ao redor dos ferimentos estava necrosada e corroída.

— E onde foi isso? — Ela aproximou o rosto, ignorando o fedor, e cutucou a borda de uma das feridas com a luva de couro.

— Na clareira da árvore torta, seguindo o rio a norte por duas horas, rumo do nevoeiro… Estamos todos rezando para que não seja uma besta do outro lado…

—“Garras necróticas…” — ela pensou em silêncio, enquanto analisava. — “Bagre, abutre, espectro ou carniçal… Ou um necromante com aparatos bem sádicos.”

Ela passou para o segundo e para o terceiro corpo. O mesmo padrão: ossos quebrados por impacto bruto, carne mastigada e necrose. Os camponeses haviam sido atacados por uma besta irracional.

—”Mastigação, partes arrancadas por mortidas, consumo. Podemos riscar o espectro.”

Então, ela puxou o quarto lençol. Misericórdia parou e estreitou os olhos.

O quarto homem não tinha o peito dilacerado. Não havia necrose em sua pele. Em vez disso, no lado esquerdo do seu pescoço, havia um corte único, limpo e milimétrico, feito por uma lâmina curvada. Próximo ao corte, dois furos minúsculos e precisos, sem qualquer indício de esmagamento ao redor. O homem havia sido drenado, sim, mas de forma cirúrgica, quase graciosa… Quase. Parece até que foi mirado para acertar onde doi mais.

Misericórdia levou os dedos ao pescoço do cadáver. Não havia marcas de enforcamento. Não havia resquícios de pele em suas unhas, mas havia cortes na manga da camisa, um na axila e outro perto do cotovelo, assim como uma irritação na pele do pulso.

— Este homem — disse Misericórdia, apontando para o cadáver limpo. — Quem era ele?

— Aquele é o Jaren — respondeu Vanclev, espreitando pela porta. — Era o Jaren… Um dos caçadores mais velhos. Homem bruto, mas bom com o arco.

As peças não se encaixavam na narrativa simplista dos aldeões. Os sobreviventes viram a vampira, mas as mortes foram diferentes. Talvez fosse uma necromante… Ou uma transformação selvagem?

— Os três primeiros foram dilacerados. Este aqui foi executado. Alguém cortou a artéria dele com uma lâmina de precisão e bebeu o sangue enquanto ele morria.

Vanclev empalideceu.

— Então... então são dois monstros?

Misericórdia não respondeu, não sabia dizer. Ela se aproximou da janela do galpão, olhando para a borda da mata densa que contornava a vila. Ela ajustou a manga do jaquetão sobre o braço corrompido, sentindo o calor dos selos contra a pele ferida. A culpa de ter falhado no passado, a lembrança dos companheiros mortos sob o comando do bruxo que ela poupara, subiu-lhe pela garganta um revertério. Ela não cometeria o mesmo erro. Se havia um monstro e um assassino naquela floresta, ela eliminaria ambos.

— Deixe os corpos cobertos — ordenou Misericórdia, caminhando em direção à saída. — Darei as bênçãos no lugar de seu padre quando tudo estiver terminado.

— Muito obrigado, Senhora Clériga! Que Hroddin abençoe suas armas! — Mesmo no meio do elogio, o magistrado não conseguia esconder a incerteza de como agir ao lidar com a meio-demônio.

Ela cruzou o pátio de lama e adentrou a vegetação fechada. O cheiro de pinho e carvalho úmido engoliu o cheiro da vila. Misericórdia sacou a maça de ferro com uma mão e sentiu o peso do escudo rotello com a outra, forçando o braço endemoniado a obedecer.

A caçada havia começado.

A névoa do Brejo-Musgo não apenas cegava; ela abafava o som. Cada passo das botas pesadas de Misericórdia na terra encharcada soava húmido e melequento, quase um pantano por si só. A umidade da mata impregnava o tecido da armadura de linho, deixando-a pesada, enquanto os talismãs de papel colados ao seu braço e rosto pinicavam com o suor. A corrupção demoníaca detestava o frio, reagindo com fisgadas ardentes sob a pele rubra.

Sozinha com seus pensamentos, apenas dor vinha à tona. Tentava inutilmente focar em chegar rápido à cena do ataque, mas podia ouvir as vozes de seus companheiros em sua cabeça.

—”Protejam a Pequena! Não se deixem corromper pela bruxaria desse maldito!” — gritava a voz rouca e paternal que antes trazia conforto, e agora apenas saudade.

Outro ecoava em sua mente:

—”Fique atrás de mim, eles não vão passar pelo meu escudo, Menina-Misericórdia!”— Mas… passaram, passaram e o tornaram um deles.

Escuro, ela não queria lembrar o que se sucedeu.

—”Vamos, Pequena!” — O corpo do ex-aliado, agora endiabrado, jazia no chão, decapitado. — “Eles vão dar um jeito em você, vão te tratar e te deixar nova em folha!”— O mesmo homem de antes carregou-a no ombro quando ela nem conseguia manter os olhos abertos, com o braço ferido, corrompido.

Escuro.

—”Você também precisa de tratamento, Gilborn!”— Disse uma voz feminina, que tentava segurar o guerreiro.

—”Não há tempo, eles estão vindo!”— O homem rosnou e gritou de dor com o cinto entre os dentes, apertando a circulação do braço infectado enquanto pregava ferro frio na própria carne, antes de se levantar cambaleante arrastando a imensa espada.

—”Gilborn!”

Então silêncio, silêncio enquanto Misericórdia se recuperava, enquanto os curandeiros tratavam suas feridas e os milagreiros selavam a corrupção com talismãs… Até que estava silêncio demais.

Uma garganta familiar gorgolejou como um monstro. Quando acordou, viu todos que estavam cuidando dela já transformados. Quando um investiu contra ela, Misericórdia só pode encarar em seus olhos, vendo o companheiro que conhecia desde a infância, e se recusou a desistir dele, se recusou a aceitar que nada poderia ser feito!... Mas naquele momento, ela não podia resolver tudo, só podia fugir, ter piedade de seus companheiros. Esperar que eles fossem curados eventualmente! Então ela correu…

A vila foi assolada pelo conflito entre os clérigos e os diabus até o bruxo ser derrotado. Quando o clima se acalmou, Gilborn abriu a porta do curral onde ela tinha se escondido. Estava coberto de sangue da cabeça até os pés, e em maior parte, não era o dele. Tinha um olhar triste, como alguém segurando as lágrimas. Isso do olho que lhe restou, o outro estava coberto por bandagens. Protuberâncias vermelhas por todo o braço… Mas ainda era ele mesmo.

—”Nós vencemos?”— Perguntou ingenuamente a jovem clériga. O rosto do veterano se fechou quase que com raiva, antes de desviar o olhar.

—”Somos só eu e você, Pequena.”

Ela sentiu um frio na barriga como se perdesse o chão abaixo dela. Uma pontada no coração que doía mais forte a cada segundo que o choque se tornava real…

Já fazia quase três anos desde o Massacre de Ponta-Nova. Três anos do mais doloroso e insistente tratamento contra corrupção já feito. Três anos de experimentação alquímica, herbal e religiosa. Três anos de reabilitação para voltar a forma. Três anos não eram o bastante para esquecer nem um segundo daquele trauma.

A clériga caminhou por quase duas horas ao longo do leito do rio, mantendo a maça de ferro em punho e o escudo rotello preso ao braço esquerdo. O metal frio ardia levemente contra a carne contaminada, um lembrete constante da fronteira tênue que ela cruzava a cada segundo entre a santidade de sua ordem e o monstro que lutava para não se tornar.

O sol já estava plenamente desperto quando ela finalmente alcançou o que supôs ser o local indicado pelo Magistrado: a clareira da árvore torta.

Misericórdia parou na borda da vegetação, o olho bom e o ensanguentado varrendo a cena. Não havia sinais de pegadas ou rastros de movimentação, a chuva garantiu em deixar a lama lisa e bem espaçada. Mas ali ainda havia registros de violência, mementos do fim de quatro vidas, memórias de algo abissal que não deveria existir, e Misericórdia iria garantir que não durasse por muito tempo.

Ela se aproximou do tronco retorcido da antiga árvore. O cheiro de ferro oxidado e podridão ainda impregnava a casca.

A Clériga baixou o corpo, apoiando o joelho blindado no solo para analisar as marcas. A grama estava severamente esmagada em três pontos distintos, formando um triângulo de defesa. Os caçadores se juntaram aqui, ela deduziu, passando a luva sobre a terra úmida.

— Estavam de costas uns para os outros, acuados. — Pensou alto.

A leste havia marcas de garras em uma pedra coberta de musgo, sutis, mas visíveis. Notando com cuidado se percebia onde a coisa pisou pelos galhos quebrados e as folhas amassadas. Ela avançou contra os caçadores dali.

Tendo essa rota clara que se revelou logicamente as marcas atrás da árvore caída. Os galhos devem ter cedido no último temporal, atrás das folhas estava o sangue seco espalhado por todo um rochedo. Pingos distantes indicavam um conflito visceral, e marcas o bastante para indicar o que antes foi uma poça era algo que dizia que a coisa pousou um dos corpos ali. Talvez para devorá-lo. Do mesmo ponto, eram claros agora os rastros de como outros dois foram arrastados até onde foram deixados para sangrar… Sangue demais, sangue que um vampiro não desperdiçaria.

E os corpos não estavam longe de onde foi o conflito. Certamente não era nenhum covil. Por que a criatura deixaria sua presa para trás para ser achada pelos aldeões?

Mas então, Misericórdia moveu-se alguns passos para a esquerda, afastando-se dos rastros dos corpos arrastados.

Diferente dos três primeiros, ali não havia terra revirada nem marcas de luta desesperada. Havia apenas uma única mancha redonda de sangue seco nada abundante sobre uma rocha coberta de musgo. Pouco desperdício. Próximo à rocha, o mato alto estava dobrado suavemente, como se alguém tivesse pousado ali sem fazer barulho.

Misericórdia reconstituiu a cena mentalmente: Três caçadores foram surpreendidos por um monstro de garras afiadas que os arrastou para longe. Mas o quarto homem... Jaren... ele não morreu junto dos outros. Será que foi deixado aqui de propósito?

Duas presenças distintas. Uma investida caótica e animalesca; um abate cirúrgico e silencioso. Duas criaturas, ou dois lados de uma mente perturbada?

— Não é um hábito muito elegante, sabia? Ficar bisbilhotando nas poças de sangue dos outros…

A voz veio de cima, melodiosa, carregada de sarcasmo e com o sotaque denso dos territórios do norte.

Misericórdia reagiu por instinto. Ergueu o escudo rotello cobrindo o peito e girou o corpo, levantando a maça em guarda.

Empoleirada sobre um galho alto da árvore torta, balançando uma das pernas longas com uma despreocupação irritante, estava a dona da voz.

Era alta, facilmente mais alta que a clériga, forte, de ombros largos que quase se igualavam aos de um ogro. Trajava couro leve, linho grosso crivado de espinhos curtos nos ombros e babados elegantes em um decote ousado que destoava com o ar bruto, assim como os colares e brincos de joias caras. O cabelo ruivo escuro, ondulado e solto, caía pelas costas até a cintura, preso apenas por uma tira de couro na testa. Mas o que travou o ar na garganta de Misericórdia foram os olhos: eram profundos, cobertos em maquiagem escura, cílios longos e íris vermelha como brasas sob a névoa, fixos nela com a curiosidade insolente de um predador que encontrou um brinquedo novo.

Misericórdia analisou clinicamente a figura. Olhos vermelhos brilhando no escudo, presas afiadas, pele empalidecida, orelhas pontudas, porém curtas: uma humana transformada em vampiro. Vampiros podem ser… sedutores. Atraem suas vítimas com seu charme, bruxaria vil. Talvez por isso, aqueles olhos penetrantes fossem tão atraentes.

— Não tenho tempo para joguinhos, monstro. Desça aqui e vamos acabar com isso.

— Hora, mas veja se ela não é imponente! — Desdenhou. — Você deve ser uma mercenária contratada pela vila… Mas se aquele fim de mundo consegue pagar seu preço, você deve estar muito desesperada, hein, meu bem? — A mulher saltou da árvore. O impacto dos pés na terra foi suave, quase inaudível, apesar do peso dos músculos, tinha a agilidade de um gato. Ela se ergueu, parando a pouco mais de três passos da clériga, ainda na sombra da árvore. Agora, perto o bastante para a cicatriz de garras que cortava levemente seu rosto angulado ficar visível. — Não que seja um bom negócio para seus contratantes, também, não é? Pagaram por alguém para lidar com a terrível vampira e receberam uma baixinha invocada com “síndrome de unicórnio”…

— Meu nome é Misericórdia. Clériga da Ordem do Sol. E pelo crime de assassinato dos caçadores da Vila de Brejo-Musgo, você foi sentenciada á morte. Renda-se e terá um fim limpo e sem dor. — A Clériga se esforçou para manter a compostura. Não podia duvidar dos crimes dos seres das trevas mais, muito menos se deixar distrair por seus encantos.

A vampira soltou uma gargalhada curta e anasalada, evidenciando as presas afiadas no canto dos lábios carnudos e o pino de metal prateado que atravessava sua língua.

— Misericórdia? Que nome ironicamente adorável para alguém armada da cabeça aos pés… Sem julgamento, claro. — O tom mudou, ao que ela mostrou que ela própria também estava bem armada. Evidenciou uma estranha faca em forma de gancho escondida na palma de uma mão, presa ao dedo por um anel, e um leque de facas de arremesso na outra. — Me chame de Iskra, querida.

— Chega de conversa. — O tom de Misericórdia baixou, gelado. Ela ajustou os pés na lama úmida, fechando o ângulo do escudo rotello.

Misericórdia não via uma pessoa ali, o nome não importava. Era uma vampira, uma coisa a ser abatida, nada mais… a figura à sua frente era apenas um risco a ser neutralizado. Para a clériga, a incoerência na cena do crime tinha uma explicação simples: Iskra era culpada, uma aberração vampírica afetada por alguma insanidade ou dupla personalidade que alternava entre a selvageria brutal e o abate cirúrgico. Talvez alguma daquelas facas exóticas fosse a arma que carregava o veneno necrótico. Misericórdia não podia se dar ao luxo de ser atingida, nem mesmo de leve.

Misericórdia avançou, a maça vindo de cima em um arco que fez um som forte ao cortar o vento, descendo no pescoço de Iskra! Mas a vampira não estava mais lá. Inclinando o corpo para trás com um olhar desafiador, ela sorriu com a língua entre as presas. A clériga não perdeu tempo e girou o corpo usando o peso da armadura a seu favor, brandindo a arma de baixo para cima.

A vampira, ainda inclinada para trás, seguiu o arco do próprio peso e se jogou para trás apoiando-se em um único braço e girando o corpo inteiro em uma cambalhota no ar. O movimento foi lento e preciso, apenas a tempo de tirar o rosto do caminho do golpe e tornar imprevisível quando seus pés subiram em um par de chutes verticais que passaram a milímetros do rosto da clériga. Quando completou o movimento, estava apoiada com uma mão no chão ainda, e com a outra, jogou rapidamente uma faca de arremesso.

Misericórdia sentiu um calafrio pensando na possibilidade do veneno na lâmina, mas o nervosismo não a tornou menos precisa. Ela levantou o escudo rapidamente e a arma foi defletida ao chão com um baque metálico.

—”Os deuses estão ao meu lado. Os deuses estão ao meu lado!”— Pensava forte, quase sussurrando para si mesma. Não teria mais que um instante para fechar os olhos e conjurar um milagre. Respirou fundo e consagrou o próprio equipamento. O milagre fez toda parcela corrompida de seu corpo arder, quase queimar. A magia sagrada agora era um peso difícil de controlar e doloroso de conduzir. Quando abriu os olhos suas armas e o metal da armadura tinham um leve brilho dourado, e outra faca de arremesso estava vindo tão rápido quanto a última. Um instante apenas para desviar o rosto, mas a lâmina passou de leve por sua bochecha abrindo um corte frio. — Merda, o veneno!

— Veneno? — Iskra arqueou uma sobrancelha, confusa, mas ignorou. Iskra deslizou dois metros para trás na lama com a facilidade de quem dançava em um salão de baile. Ela girou a faca de gancho no dedo indicador, fazendo o anel de metal do cabo tinir com deboche.

Misericórdia manteve-se concentrada na dor para sentir se o veneno tinha surtido algum efeito, mas até então apenas ardia como um corte comum.

—”Deve ser a faca curva então.”— Pensou.

Iskra inclinou a cabeça, os olhos vermelhos brilhando com puro divertimento sádico. — Você luta com tanta cautela... Está com medo do meu aço, querida? Ou tem medo de sujar essa sua armadura bonitinha com o sangue de uma "coisa"?

— Você é uma praga que precisa ser erradicada — Misericórdia bradou, a voz ecoando entre as árvores. Ela ergueu a maça, canalizando um lampejo de luz sagrada no metal frio, forçando o braço corrompido a aguentar a dor da dor que os talismãs causavam ao reagir com a magia. — Não deixarei que faça mais vítimas!

Misericórdia disparou em dois passos pesados e brandiu a maça duas vezes, deixando arcos dourados no rastro da arma. Estava mais rápida, precisa. Os deuses guiavam suas mãos.

Iskra apenas riu mais alto, um som rico e provocante que reverberou pela névoa. Se os aldeões colocavam nela toda culpa do que qualquer crime de qualquer monstro, que assim fosse. Ela não perderia tempo dando desculpas para uma clériga qualquer que achava que podia ser juiza, júri e executora. Ver a frustração e o esforço desesperado daquela meio-demônio de tabardo vermelho era divertido demais para estragar com explicações.

— Venha tentar a sorte, então, minha santinha unicórnio! — Iskra flexionou os joelhos das pernas torneadas, abrindo os braços em um convite escancarado que evidenciava suas unhas longas e bem pintadas de um vermelho escuro. — Mostre-me do que esse seu coração de pedra é capaz!

Misericórdia investiu novamente, desta vez com uma sequência rápida de golpes curtos de maça, intercalados por investidas com o escudo. Cada ataque era contido, movimentos praticados todos os dias arduamente de forma militar, tudo sob medida para evitar a suposta lâmina necrótica de Iskra. A vampira esquivava-se por milímetros, os babados elegantes de suas roupas roçando o ar cortado pelo metal sagrado, provocando com piscadelas e risadinhas a cada golpe perdido.

A vampira recuou mais uma vez e arremessou a última faca de arremesso como distração para que Misericórdia levantasse o escudo, mas a clériga mediu que ela estava longe demais para um ataque corpo a corpo, e a faca curva presa a seu dedo pelo anel não parecia que iria sair dali tão cedo. Porém, focada em Iskra, Misericórdia não teve tempo de reação quando ouviu o assovio do fio de metal sendo puxado e algo vindo de trás dela.

Um disco laminado veio voando de trás de sua guarda, grande como um prato de banquete, puxado por um fio quase invisível a olho nu no meio das sombras das árvores. Ele pegou por trás do braço da maça, puxado por Iskra, abrindo um corte fundo e sangrento.

A arma chegou à mão da vampira. Era um chakram. Uma lâmina circular com um cabo no meio, projetada para arremessos curvos e pesados. Ela logo girou desde o pé até a cintura e o ombro para propelir a arma com um arremesso forte vindo de trás do corpo. A lâmina era pesada e encontrou com o escudo antes de ricochetear de volta à dona. Ela tomou de volta a arma e dessa vez, no mesmo movimento que a pegou, girou o corpo e a lançou para o lado. A clériga ficou confusa entre prestar atenção na arma e na vampira que avançava correndo. Quando Iskra se aproximou com um golpe da faca, travou o escudo com o gancho da lâmina. De suas costas, Misericórdia só ouviu o metal do chakram cantar, terminando um arco no ar que a fez voltar por trás. A arma pegou na parte traseira das pernas da clériga, onde a armadura não cobria. Ela deu um grito rápido, antes de engasgar com a dor, sentindo a curva protuberante do disco laminado dentro da carne.

Uma dor lancinante, mas não era uma ferida mortal e nem a arma portadora do veneno. Porém, com certeza iria avariar sua capacidade de combate.

Iskra puxou o escudo de Misericórdia para o lado e chutou terra nos olhos da clériga, deixando-a desnorteada por tempo o bastante para aquela faca de gancho deixar o escudo, girar no eixo do anel no dedo e arquear na parte interna do cotovelo do lado corrompido da oponente. A vampira deu três passos de ajuste para o lado, arrancou o chakram da perna da clériga e levou-o de volta ao suporte nas costas de seu cinturão, usou a vantagem de tamanho e com um movimento preciso puxou a clériga pelo braço com a faca e empurrou sua cabeça para o lado, deixando o pescoço exposto.

— Tão perto... — Sussurrou Iskra, colando os lábios frios na curva do pescoço exposto, um rosnado guloso fazendo a pele de Misericórdia arrepiar. As presas de vampira roçaram a carne viva onde o pulso acelerado batia. — Posso ouvir a sua jugular implorando por mim, santinha.

Misericórdia sentiu a faca pressionar sua pele, a possibilidade de um mero corte envenenar a ferida. Sentiu o bafo gelado que apenas algo não vivo possuía, sentiu a proximidade das presas em seu pescoço... Largou a maça e levantou a mão em rendição.

— Isso mesmo, bem quietinha... — Provocou com uma risadinha abafada, estalando a língua contra o pino de metal no céu da boca enquanto aliviava um milímetro da pressão na lâmina para saborear a rendição. — Quem diria que a cadelinha da Ordem deitaria sem ganir?

Logo, Misericórdia usou da diferença de tamanho a seu favor. Abaixou seu centro de gravidade e o braço que estava sendo puxado pela faca arqueou em uma cotovelada nas costelas da vampira. Iskra arfou surpresa e logo sentiu o outro braço ser puxado por cima do ombro da mulher mais baixa. Antes que ele pudesse firmar a base, a rotação do quadril fez o trabalho. O mundo virou de cabeça para baixo em uma fração de segundo. O corpo de Iskra descreveu um arco no ar e desabou com um baque seco na frente da clériga.

— Porra... — Disse desafinada com surpresa, deitada de cabeça para baixo com as costas no solo encharcado, soltando o ar de uma vez num chiado dolorido. Ela cuspiu o pouco de terra que tinha sujado seu rosto, o olhar avermelhado arregalado de puro choque, espantada com a força brutal daquela baixinha. — Você é mais pesada do que parece, hein, tampinha!

Misericórdia pegou a maça do chão e a arrastou como um machado de carrasco. Levantou-a e desceu impiedosa em um arco bruto que poderia esmagar um crânio com facilidade, mas, em respingos de luz dourada, só encontrou lama e mechas do cabelo ruivo da vampira quando ela se desviou rolando para o lado, com uma expressão tão surpresa quanto indignada, só para o golpe se repetir mais duas vezes, ao que ela rolava para um lado e para o outro.

— Que porra é essa?! — Iskra gritou, a voz falhando em um tom esganiçado e indignado enquanto rolava desesperadamente para o lado, vendo a maça esmagar o chão a milímetros da sua orelha e espalhar lama em suas bochechas. Ela se apoiou nos cotovelos, o cabelo ruivo cobrindo metade do rosto enfurecido. — Ficou louca, sua cadela?! Isso podia ter afundado meu lindo rosto! Eu estou falando com você!

— Não temos nada para conversar — Sentenciou a clériga com o tom firme e oco de um carrasco na guilhotina, sem nem piscar o olho bom enquanto erguia a maça pesada novamente, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o cabo.

Iskra, ainda caída, rosnou, com uma expressão frustrada. Retraiu uma perna e deu um chute frontal no abdômen da clériga, sentindo o metal da couraça da armadura e deixando uma pegada de lama no tabardo da ordem. Misericórdia recuou sentindo o impacto, e sem tempo de resposta, Iskra golpeou do chão, lhe dando uma rasteira. Um chute com tamanha força em seus tornozelos que ela virou de lado no ar antes de cair ao chão com um som pesado.

Iskra se levantou com apoio de um braço e limpou os acúmulos de terra úmida de seu lado.

— Chega! — Berrou Iskra ao se erguer da lama com raiva, segurando o ombro dolorido. O peito subindo e descendo no decote com ímpeto violento. Ela limpou o sangue negro do lábio com o dorso da mão, o olhar sádico dando lugar a uma fúria fria. — A brincadeira acabou. Você passou da porra do limite, fedelha.

Deu um passo de ajuste para trás antes de voltar avançando com um chute na boca da clériga. A cabeça de cabelo volumoso arqueou para trás de forma inatual antes de voltar ao chão com uma cusparada de sangue e saliva.

— Uma pena estragar esse seu rostinho bonito... — Murmurou sem sorrir, encarando o pulso que esfregava com a outra mão, flexionando os joelhos para firmar a base enquanto se inclinava sobre a clériga atordoada. — Mas agora você vai ficar no chão como a cadela adestrada que é.

Misericórdia estava zonza, o impacto foi certeiro, sua visão estava turva. Sentiu o gosto de ferro na boca, o calor do sangue na língua. Um de seus olhos estava meio fechado com o inchaço, mas ela só pensou em revidar.

— Os deuses aliviam a dor de seus fieis. — Disse baixo com a boca pingando sangue. Quase não se podia ouvir direito os balbucios dos lábios inchados.

— O que você está resmungando aí embaixo? — debochou a vampira com uma gargalhada seca e áspera, inclinando a cabeça para o lado com a mão ao lado da orelha, como que para ouvir melhor, enquanto observava os lábios sangrentos de Misericórdia se moverem. — Reza mais alto, santinha. Vai precisar de um milagre e tanto para…

O movimento interrompeu sua fala. A maça se arrastou do chão para o calcanhar da vampira em um brilho dourado que a fez cair apoiada em um joelho com um grito agudo de dor. Ela encarou furiosa. Misericórdia, por outro lado, rezou em silêncio para que os divinos a curassem, que seu golpe ao mal fosse digno de uma benção… Então sentiu o corpo inteiro queimar dolorosamente. A corrupção não lidava bem com os deuses, mas apesar da dor, suas feridas se fecharam e sua mente nublada se focou.

— Desgraçada! — Praguejou Iskra em berro gutural, os dentes cravados no próprio lábio inferior enquanto a articulação do seu joelho estalava e a pele ao redor das feridas curadas da clériga começava a chiar. A expressão da vampira vacilou entre o ódio e a descrença. — O que o deuses estão pensando?! Alguém como você é abençoada? Não me faça rir! — Ela rosnou, furiosa.

A clériga analisou o terreno, se fosse alguns passos para trás estaria fora da sombra das árvores, e isso lhe concederia a vantagem contra a vampira. Ela levantou com um golpe do escudo no rosto de Iskra. O metal encontrou sua face por pouco, raspando nos espinhos de sua armadura de tecido. Ela rosnou frustrada, tempo o bastante para misericórdia circundar sua posição. Ela não recuou, avançou mais a fundo na escuridão nublada da floresta e levantou a arma em um brilho dourado que expulsou as trevas e cegou a criatura.

— Ah, sua maldita! Meus olhos! — gritou a vampira, cobrindo o rosto com o antebraço espinhoso em um gesto descontrolado, tropeçando para trás enquanto a fumaça tóxica subia de seu decote e braços expostos. A pele empalidecida estalava em queimaduras vermelhas instantâneas sob a luz abençoada. — Eu vou arrancar a sua pele e usar como ralador!

A luz divina era como um veneno para uma criatura das sombras.

Misericórdia era menor, e mesmo de armadura não era muito mais pesada. Ia precisar usar toda sua massa para empurrar o monstro para o sol. Ela correu o mais rápido que podia, as botas pesadas afundando na terra úmida, e saltou com os dois pés no peito da vampira, caindo ao chão com o próprio movimento. O empurrão enquanto Iskra ainda estava abalada foi o bastante para tirar o ar de seus pulmões mortos e a jogar de costas na lama, fora das sombras. O sol lambeu sua pele e essa começou a queimar como camadas de papel sendo acendidas por uma tocha. Iskra gritou alto de dor, sua boca com as presas arreganhadas e a língua perfurada esticada em agonia.

Gritando de dor, com a pele do peito e do rosto chiando e soltando brasas sob a luz do sol, Iskra reagiu pelo puro instinto de sobrevivência. Ela não tentou golpear; apenas projetou o corpo para trás em um salto desesperado e descoordenado, rastejando de volta para o abrigo sombrio da copa dos pinheiros.

Misericórdia arremessou a maça dourada para impedir que a vampira tornasse a se aproximar, mas ela desviou do impacto sagrado com um rolamento e retornou às sombras.

A fumaça tóxica que subia de seu decote e braços expostos começou a diminuir à medida que a penumbra da floresta de Brejo-Musgo a acolhia. A carne queimada estalava como papel, regenerando-se a uma velocidade visível, cobrindo o tecido vivo com uma camada de pele nova e rosácea.

Misericórdia não lhe deu trégua. Mesmo com a perna ferida fisgando e o corpo inteiro queimando em reação à dor dos talismãs sagrados, a clériga avançou. Ela levou a mão ao cabo da espada curva embainhada atrás de sua cintura e ergueu a arma que já era impregnada com a benção dourada no mesmo instante. Sem dar brecha para o inimigo, desferiu um golpe vertical com toda a massa do seu corpo, disposta a partir a vampira ao meio antes que ela se recompusesse.

O metal sagrado cortou o ar e desceu contra ela, mas Iskra, mesmo sem fôlego e com a visão ainda turva por causa da luz divina, usou a perna boa para dar um impulso brusco contra a raiz de um carvalho. Ela se esquivou por uma fração de segundo. A espada de Misericórdia atingiu a árvore, entranhando-se no tronco e partindo uma raiz grossa com um estalo estrondoso.

A clériga tentou puxar a arma para desferir um segundo golpe, mas Iskra correu tronco acima, se impulsionando para agarrar um galho alto.

Lá em cima, protegida pelas sombras densas das copas, a vampira caiu sentada sobre a madeira grossa. O peito largo subia e descia em arfadas violentas. Ela levou a mão ao peito queimado, alisando o colar decorado, cravejado de pedras preciosas, soltando um chiado entre os dentes cravados no lábio. O pino prateado em sua língua tinia levemente contra as presas enquanto ela tentava recuperar o ar.

— Que... inferno de mulher... — Iskra tossiu, limpando uma gota de sangue negro do queixo. Ela se apoiou no tronco da árvore, ajeitando o cabelo ruivo bagunçado e os babados chamuscados do decote com os dedos de unhas longas. — Não é só meio demônio não, Diabo, é por inteiro mesmo.

Misericórdia manteve a guarda erguida abaixo da árvore, o olho são e o ensanguentado fixos na figura nas alturas. O metal da espada ainda emitia uma fagulha fraca de luz sagrada, pronto para o próximo milagre.

— Desça, monstro! — exclamou a clériga, a voz falhada pelo esforço, mas irredutível. — Encontre o seu fim em meu julgamento! Cesse com seus atos vis de uma vez por todas de descance sobre a terra onde seu corpo morto deveria estar!

Iskra soltou uma risada curta, rouca e sem fôlego, que rapidamente se transformou em seu deboche habitual. Ela se inclinou no galho, apoiando o cotovelo no joelho e o queixo na palma da mão, encarando Misericórdia com as íris vermelhas brilhando na penumbra.

— Ah, santinha... admito que você quase me pegou. Há quanto tempo eu não precisava suar tanto para não virar cinza? — Iskra deu um sorriso torto, exibindo as presas afiadas. — Mas se tem uma coisa que eu odeio mais do que gente moralista... é acabar morta. É, morrer, não é meu forte. Já tentei e deu nisso aqui. — Ela apontou para si mesma com as longas unhas rubras.

A vampira ajustou o suporte do chakram nas costas e deu dois passos leves para trás ao longo do galho, mesclando-se gradualmente com a densa névoa que cobria a parte alta da floresta.

— Considere isso um intervalo, pequena unicórnio — Iskra piscou um dos olhos maquiados, a voz já a soar distante e ecoada entre as árvores. — Mas fique sabendo: na próxima vez que nos encontrarmos, certifique-se de trazer o sol no bolso. Porque no escuro... não vai ter luz divina no mundo que salve esse seu pescocinho moreno de virar meu jantar.

— Volte aqui! — bradou Misericórdia, dando um passo à frente. — Criatura covarde! Maldita seja!

Apenas a risada provocativa de Iskra respondeu, reverberando pelas copas dos pinheiros antes de desaparecer por completo na imensidão de Brejo-Musgo.

Misericórdia continuou em guarda por longos segundos, o peito subindo e descendo pesadamente. Lentamente, a luz dourada de sua espada se apagou, deixando apenas o vapor da cura divina surtindo efeito e atormentando ao lado demônio da jovem. O silêncio opressor da floresta retornou.

A clériga passou a mão sobre o corte na bochecha, sentindo o sangue morno. A vampira havia fugido, mas a certeza em sua mente permanecia inabalável: a criatura estava ferida e não iria longe. Misericórdia ajustou a empunhadura do escudo, firmou os pés na lama e avançou névoa adentro, pronta para levar a caçada até o fim.

Continua…

Comentários


Odisseia Card Game - Logo

CNPJ: 61.536.185/0001-48

Nome do dono/sócio administrativo:

Vinicius R. Botelho Drummond

Contato:

  • Whatsapp
  • Youtube
  • Instagram
bottom of page