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Devocionário de Zin - Solstício

Zin viveu toda a sua vida no pequeno arquipélago de Ikoa. Para ele, aquelas ilhas cercadas por mares inquietos eram o mundo inteiro.

Muito antes de seu nascimento, a região atravessou um período conhecido como Afótico, uma era de trevas e conflitos que quase levou seu povo à extinção. As histórias contam que foi então que surgiu Kotar, o patrono de Ikoa, descrito nas lendas como um majestoso dragão de bronze. Abençoados por sua presença, os primeiros draconianos floresceram e deram início a uma nova era.

Mas essa paz não duraria para sempre.

Um ano antes do início desta história, uma escuridão impossível tomou os céus. O sol desapareceu atrás de um véu negro e a noite nunca mais chegou ao fim. Desde então, Ikoa vive mergulhada em sombras permanentes.

Para os moradores, o próprio sol tinha se extinguido, sem saber que no resto de Enndír o ciclo seguia normalmente e o evento era estritamente direcionado para a região, como se o sol escolhesse não mais brilhar para eles.


O Grande Festival do Solstício se aproxima. É o que todos os comerciantes de Ikoa anunciam aos quatro ventos enquanto vendem ingressos, comidas e pequenas lembranças do vencedor da última competição: o campeão invicto de seis Solstícios consecutivos, Gerhard, a Fúria Vermelha.

O evento ocorre duas vezes por ano, na transição entre as estações de inverno e verão, para celebrar o início de um novo ciclo das bênçãos de Kotar e coroar um novo Campeão do Solstício.

A cada chegada da festividade, todos assumem suas funções com celeridade. Os guerreiros aguardam nas áreas de treinamento o chamado para a próxima luta na arena. Os artistas ocupam as ruas, tentando garantir o sustento com seus mais diversos talentos. Apostadores reúnem moedas e promessas, enquanto os clérigos da Luz cuidam de enfermarias lotadas dos mais variados ferimentos.

Entre os curandeiros estava Zin, herdeiro da Igreja de Kotar. O jovem draconiano possuía cabelos loiros e ondulados, além de quatro chifres de bronze que adornavam sua cabeça como uma coroa. Escondido de sua família, infiltrava-se entre os devotos para auxiliar aqueles que necessitavam.

Parte daquela rebeldia vinha do desejo de fazer algo útil com as dádivas que sua família havia recebido, em vez de passar os dias aprendendo discursos elegantes e diplomacia com outros reinos além do mar. Mas havia também outro motivo: seu desejo de permanecer próximo da arena para cuidar de seu amigo de infância, Adrian. Ele era um jovem de traços afiados e pele marcada por escamas avermelhadas, com chifres longos cor de cobre, cabelos negros desalinhados, olhos dourados incandescentes e um manto escuro adornado por uma gola de pele clara que contrastava com sua aparência feroz dracônica.

Desde pequenos, os dois haviam estudado juntos, explorado ruínas esquecidas e fugido das obrigações sempre que podiam para um penhasco onde o podiam deixar tudo à distância e ser apenas os dois. Com o passar dos anos, porém, Adrian começou a se afastar da fé e tudo piorou quando ele se revoltou ainda mais com a inércia do clero após o Anoitecer.

— Você vai acabar se matando desse jeito — disse Zin, canalizando seus poderes para curar os ferimentos causados pela contusão na cabeça do amigo.

— É a única forma de me ouvirem. Não vão poder me ignorar quando eu for o Campeão do Solstício.

Adrian se contorceu ao sentir os ferimentos se fecharem rapidamente. A cura trazia uma estranha mistura de dor, calor e alívio.

— Eu concordo que eles precisam ouvir, mas deve existir outro jeito.

Zin fechou os olhos e segurou as mãos do amigo, concentrando a magia agora nos braços machucados.

— Não existe. Você mesmo já tentou. Se eles não vão ouvir o herdeiro de…

— Shhh!

Rapidamente, Zin cobriu a boca de Adrian antes que ele terminasse a frase.

— Está ficando cada vez mais difícil te ajudar aqui. Seria bom se você parasse de tentar estragar meu disfarce.

— Desculpa, desculpa.

Adrian permaneceu em silêncio, observando os hematomas desaparecerem e a pele recuperar sua coloração natural.

— Estamos no primeiro Festival do Solstício de Inverno desde o Anoitecer — murmurou Zin, mais para si mesmo do que para o amigo. — Faz um ano que o Sol não aparece.

Um ano antes, em um dia aparentemente comum, o Sol havia nascido envolto por um eclipse que nunca terminou.

Os mais incrédulos e desesperados afirmavam que Kotar havia abandonado o mundo e que o fim dos tempos se aproximava. Já os fiéis acreditavam tratar-se de uma provação, um teste para determinar quem ainda era digno de suas bênçãos.

— Você acha mesmo que vai ser diferente no próximo Solstício? — perguntou Adrian. — Os seguidores do Amanhecer continuam sumindo com qualquer um que questione essa fé cega de que Kotar vai voltar. E se ele não voltar? Vamos esperar até morrer? Do nosso penhasco já dá para ver a Noite avançando pelo horizonte, não que você tenha ido muito lá.

Ele apertou as mãos de Zin com força enquanto fixava os olhos dele, como quem exige uma resposta.

— É… pronto. Seus ferimentos já foram tratados. Siga na Luz.

Zin soltou suas mãos e ajeitou as vestes. O capuz escondia os chifres e parte do rosto, mas não a vergonha que sentia por sua própria hesitação. Sem dizer mais nada, dirigiu-se ao próximo enfermo.

— Siga na Luz… — repetiu Adrian entre os dentes, com evidente desdém, antes de seguir para a luta que acabava de ser anunciada.


Depois de atender mais algumas pessoas, as horas passaram e as trombetas cerimoniais anunciaram a última disputa.

Zin ergueu a cabeça imediatamente, seus olhos percorrendo os feridos de maneira apressada à procura de um rosto familiar.

Não o encontrou.

O coração disparou.

Sem pensar duas vezes, correu em direção à arena principal. Ao chegar às arquibancadas, sentiu o sangue gelar, o rosto conhecido que buscava estava diante dele, porém, no centro da arena.

E diante dele encontrava-se Gerhard, uma figura alta e robusta envolta por uma armadura negra e retorcida, coroado por chifres monstruosos e uma crina de plumas escarlates que pareciam chamas vivas, segurando uma lança longa, o rosto sombrio oculto por fuligem para proteger os olhos, uma tradição comum na arena para se proteger do sol, mas inútil hoje.

Todas as lutas do Solstício terminavam com a desistência de um dos combatentes, um sibilo de clemência, exceto a última.

Para escolher o vencedor, a batalha era travada até a morte. Aquele que tombava representava a derrota da escuridão diante da Luz de Kotar durante o Período Afótico, a era anterior às suas bênçãos.

Desesperado, Zin procurou um lugar o mais próximo possível da arena. Não demorou muito encontrar alguém disposto a ceder espaço a um membro do clero.

Logo estava junto ao parapeito circular, abaixo das esculturas que retratavam os raios do Sol ao redor do ático da arena e projetavam leves sombras sobre a arena como se formassem uma mandíbula prestes a devorar aqueles no centro. 

— Sem mais delongas, sejam todos bem-vindos à batalha final do sexcentésimo vigésimo oitavo Festival do Solstício!

A multidão explodiu em gritos e aplausos.

Os dois gladiadores encaravam-se no centro da arena.

— Que nossos guerreiros honrem o legado de Kotar e sigam em sua Luz!

Uma trombeta estridente anunciou o início da luta.

O sorriso do Campeão surgiu imediatamente, como se o resultado já estivesse decidido.

Para ele, Adrian era apenas mais um cadáver.

Mais um entre os seis competidores que já havia derrotado naquela arena do Solstício.

Após um breve instante saboreando a expectativa da multidão, ele avançou.

Rápido.

Rápido demais.

Adrian mal conseguiu erguer o escudo a tempo de bloquear o primeiro golpe.

O impacto da lança quase o derrubou, precisando fixar os pés no solo para se estabilizar.

Antes que pudesse reagir, recebeu um soco da mão livre do adversário e foi lançado ao chão.

A arena mergulhou em silêncio.

Todos compreendiam a diferença de força entre os dois.

Todos.

Inclusive Zin.

Seu coração parecia ter subido até a garganta.

Cada passo da Fúria Vermelha em direção a Adrian apertava seu peito como uma mão invisível.

O tempo pareceu desacelerar.

Em poucos segundos, o gigante já estava sobre o adversário caído.

Ainda atordoado, Adrian ergueu a espada na direção do inimigo.

O Campeão sorriu novamente.

Desta vez com ainda mais desprezo, a tentativa de defesa parecia patética aos seus olhos.

Instintivamente, Zin fechou os olhos.

Uniu as mãos.

E rezou.

Um último resquício de fé dirigido ao deus que não se manifestava havia um ano.

— Eu suplico… Kotar, abençoe-o e salve sua vida.

A voz saiu quase como um sussurro.

Antes mesmo de concluir a oração, a arena explodiu.

Gritos.

Palmas.

Choro.

O silêncio de espanto havia sido substituído pelo caos da celebração.

— Temos um novo campeão!

Lentamente, Zin abriu os olhos.

A visão diante dele mudaria sua vida para sempre.

— Todos saúdam o Campeão do Solstício! Adrian, o Protegido de Kotar!

Seu coração ainda lutava para desacelerar enquanto tentava compreender o que estava vendo.

Um pilar de luz dourada descia dos céus escurecidos.

O equipamento de Adrian brilhava como ouro fundido.

Sua espada estava cravada no peito do homem que, apenas segundos antes, ameaçava tirar sua vida.

O alívio durou apenas um instante.

Então a compreensão chegou.

Sua oração para salvar alguém que amava havia acabado de coroar justamente aquele que poderia destruir toda a fé de seu povo.


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