Histórias do Mestre Bibliotecário – Vol. 1
- Odisseia card game
- 3 de mai.
- 6 min de leitura
As portas de abriram na estrutura decorada de pedra e painéis de madeira polida para revelar o aroma de papel envelhecido no ar. Os raios da luz entraram pela porta deixando as partículas flutuantes de poeira visíveis, o ambiente era aconchegante, não tinha luzes fortes, eram lampiões estratégicos para leitura, afinal, era uma biblioteca. O “Acervo Empírico de Reuhtor”.
— Olá! Seja bem-vindo à Biblioteca de Reuhtor! Não se assuste com minha aparência. Embora a manifestação da corrupção em mim pareça avançada, ela está totalmente sob controle, acredite. — A figura que recebia o visitante era um Diabus, uma pessoa tomada pela corrupção, porém tinha só a aparência corrompida, parecia pleno de suas faculdades mentais. Era um senhor de idade, talvez antes fora um elfo, agora com pele vermelha e chifres arredondados em uma testa longa, como um bode, parecia mais um demônio, porém isso era cortado por um par de oculos de leitura repousados em seu nariz como um vovô. — Vejo que busca respostas sobre os elementos que regem o nosso mundo. Estou certo?
— Sim… — Curioso e com um sorriso de canto, até um pouco nervoso, o visitante entrava, empolgado com tamanho cálice de conhecimento.
— Então veio ao lugar certo. Algum assunto em mente, meu jovem? — Disse, ajustando os óculos.
— Me interesso pelos saberes do passado antigo referentes… Desculpe a indelicadeza, mas, à condição do senhor. A corrupção.
— Ora, meu caro, não é nada indelicado, não. Nenhuma busca por conhecimento é problemática, na verdade é algo louvável… — Ele começou a buscar por um livro que parecia abrir com frequência, já que repousava em sua escrivaninha, bem surrado. — A corrupção teve sua origem durante a Grande Queda, quando anjos despencaram dos céus através de fissuras na própria realidade. Buscaram refúgio em nosso mundo, pois seu reino estava sob ataque dos demônios.
— Isso! — Puxou um caderno e um carvão enfaixado e começou a anotar. — Desde o começo, por favor…
— Embora os anjos sejam extremamente reservados quanto a compartilhar informações, conseguimos descobrir que nem eles próprios compreendem como os demônios invadiram seus domínios.
— Os demônios invadiram o reino dos Anjo, como um exército inimigo invade uma cidade? Ou seria uma fissura de outro plano?
— Não está claro se ambos coexistem na mesma dimensão ou se habitam planos distintos. O que sabemos, com inquietante certeza, é que a essência demoníaca age como um vírus letal sobre os anjos, corrompendo suas almas e moldando-os em novas criaturas das trevas.
— E foi dessa transformação que surgiu o nome da condição: corrupção. — Um sorriso estranho veio ao perceber que sabia a resposta.
— Exato. - Respondeu o mestre.
— Mas como tal aflição chegou ao nosso mundo?
— Infelizmente, demônios estão longe de serem civilizados. São como bestas famintas, guiadas por instinto. Perseguem, destroem… e seguem suas presas através de qualquer fenda disponível. Foi assim que alcançaram nosso plano: pelas mesmas rupturas que trouxeram os anjos. — Mostrou imagens terríveis, bizarras, monstruosas de representações dos demônios. Eram material para pesadelos.
— Fascinante… — Pareceu rabiscar uma cópia.
— A invasão começou de forma gradual. Um ou outro surgia através de fissuras mal seladas, devastando vilarejos e alterando o ambiente ao redor. Muitos se levantaram contra eles — e, por sorte, logo descobrimos que armas imbuídas com mana eram capazes de feri-los e até destruir sua essência… Mas isso não foi suficiente para nos salvar.
— Pois corrompem tudo, não é?
— A simples presença dessas criaturas é capaz de distorcer tudo ao redor. A grama se torna espinhosa, o ar adquire propriedades tóxicas, e os seres vivos se deformam em versões irracionais de si mesmos. Não demorou para que essa influência nos alcançasse.
— O Senhor claramente não é irracional.
— Logo chego nessa parte. Não precisa se preocupar, não vou devorar sua alma nem nada, meu caro. O maior perigo que eu posso oferecer eu guardo para as moscas que insistem em atrapalhar minhas sessões de leitura ao ar livre… Continuando: Nenhuma espécie estava a salvo: humanos, anões, elfos, umbrais, tritões… todos corriam risco. Mesmo uma breve exposição podia ser suficiente. A velocidade da transformação variava conforme o tempo de contato e a intensidade da essência demoníaca. Naquele período, sem os tratamentos e conhecimentos que possuímos hoje, restava apenas uma decisão cruel: sacrificar os afetados antes que se tornassem algo pior.
— Devem ter sido trágico…
— Foram anos difíceis. E tudo ainda pioraria. Os corrompidos passaram a ser chamados de Diaburus, termo da antiga língua humana que significa “Filhos do Inferno”. Com o tempo, o nome foi abreviado para Diabus, consolidando uma nova “espécie” nascida da corrupção.
— Mas vocês não são uma espécie, isso é óbvio.
— Diga isso para toda uma sociedade depois de anos e anos de terror, meu jovem. Haha. Aprecio a intenção, mas não há muito a ser feito. Eventualmente, após muito estudo, os antigos deuses élficos descobriram uma forma de conter a transformação. Ainda assim, mesmo com os métodos modernos, o processo não é eficaz em todos os casos, o que alimenta o medo… e o preconceito.
O visitante fez uma expressão triste, simpatizando com o bibliotecário.
— Certo dia, nas proximidades das terras gélidas de Magnar, uma enorme fenda rasgou os picos que protegiam a região, e algo emergiu. O Devorador, como passou a ser conhecido, era um demônio colossal, comparável a um dragão ancião de Soren.
— Eu já ouvi a lenda, era “Aquele que consome”, sim?
— Como os demais de sua espécie, era formado pela própria essência das trevas. No entanto, havia algo diferente. Supõe-se que tenha absorvido alguma criatura ancestral soterrada nas montanhas, pois possuía um corpo físico, uma massa disforme de carne. Algo entre um dragão terrestre e… outra coisa impossível de definir. Não tinha cabeça. Em seu lugar, uma boca gigantesca abria-se no que deveria ser seu torso. E ele tinha fome. Apesar de lento, devido ao seu tamanho descomunal, era devastador. Cidades inteiras foram destruídas enquanto avançava, alimentando-se de tudo que encontrava. Milhares morreram. Esse evento marcou o início de uma guerra.
— Guerra?
— Forças de diversas regiões se uniram para enfrentá-lo. Com exceção dos anjos, que àquela altura haviam se isolado nas ilhas flutuantes do polo sul, após perderem seu reino e quase toda sua espécie. Restavam apenas algumas centenas, e escolheram o isolamento.
— Mesmo depois de tudo isso, deixaram que o mesmo acontecesse com o próximo?
— Nosso principal instinto é o de preservação, eu não os julgo depois dos horrores que passaram. Estavam à beira da extinção.
— Bom ponto, mas… ainda acho que pessoas boas de verdade nunca fariam isso. Eu com certeza teria empatia pelas outras espécies. — O sorriso amigável em seu rosto era inquietante, como que querendo provar algo. Mostrar virtude.
— Bem, a guerra perdurou por anos. O Devorador demonstrava uma consciência incomum entre os demônios. Agia como um líder, ocultando-se enquanto comandava legiões infernais contra nosso mundo… Até que foi traído.
— Sim! O demônio desleal! Aquele que traiu a própria raça! — Ele conhecia esse também.
— Não se sabe ao certo quem foi esse traidor. Alguns acreditam tratar-se de um demônio original. Outros sugerem que seria um Diabus que conseguiu preservar parte de sua humanidade. O que se sabe é que ele se apresentou ao Rei Anão Dari IV, ajoelhando-se e oferecendo seus serviços à vossa causa.
— Realmente fascinante e incompreensível. Uma criatura tão irracional e misteriosa traindo o próprio povo para benefício dos mortais…
— Muitos registros detalhados desse período foram perdidos. Suspeito que intencionalmente. Talvez para proteger a identidade desse ser… ou para ocultar o paradeiro do Devorador, que, segundo relatos, não foi destruído, mas selado.
— Selado, você diz? — Anotava mais, curioso. Uma expressão exagerada de medo e desdém mostrava que ele não gostava da ideia de ter essa criatura surgindo em seu quintal se um dia fosse liberto.
— Há quem diga que ele permanece sob as Montanhas Cinzentas do sul, uma região onde nenhuma forma de vida prospera e cujo acesso é extremamente difícil.
— Seria ele o motivo? Ou talvez a história apenas tenha associado a seca e o solo arenoso a uma superstição?
— Talvez um pouco dos dois… Falando em dois, outros dois grandes demônios surgiram na mesma época, em regiões distintas. Dizem que também foram selados.
— Mais desses, é? Parece que ninguém consegue resolver por definitivo seus problemas.
— Quanto ao nosso “aliado”… acredita-se que tenha desaparecido em alguma ilha remota. Nunca mais foi visto… Mas pode ficar tranquilo! Demônios não são avistados há séculos. Ocasionalmente, pequenas fissuras ainda são descobertas, liberando resquícios de sua essência; o suficiente para gerar novos Diabus ou criaturas menores. Felizmente, hoje contamos com ordens mágicas e religiosas altamente treinadas para localizar e erradicar essas ameaças.
— E quanto a vós, Diabus…
— Pode ficar à vontade. A Ordem do Sol, em conjunto com a Ordem dos Alquimistas, desenvolveu métodos eficazes para conter a corrupção. Graças a eles, muitos de nós podem viver de forma estável em sociedade. Eu mesmo sou prova disso. — Um sorriso amável e carinhoso, como um vovô que olha para um netinho. — Apesar das mudanças em meu corpo, minha mente permanece intacta e lúcida, sob controle, livre dos impulsos sombrios. Posso, portanto, cumprir meu papel aqui.
— Fico feliz de saber. Foi muito útil ter um vislumbre sobre o assunto de minha pesquisa, um resumo para refrescar a mente.
— Então… seja bem-vindo à nossa biblioteca! Sinta-se à vontade para explorar suas seções e descobrir as mais extraordinárias histórias do nosso mundo. Há livros dos tempos antigos, dos demônios, anjos, da corrupção e dos corrompidos, da ciência e do divino, seja qual for o tópico que queira se aprofundar, o Acervo Empírico de Reuhtor está aberto para você!
Sinto que vamos nos dar muito bem!



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