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DAINORA, a Lâmina do Rei


Dainora nasceu nas terras de Liin, a capital élfica de Enndír, situada no leste do continente. Desde a infância, foi criada para servir. Na sociedade élfica, a população é frequentemente comparada a uma grande árvore: os galhos representam as famílias nobres, responsáveis por florescer, nutrir e expandir a sociedade; o tronco simboliza a Matriarca, figura central que governa todo o povo élfico; e as raízes correspondem às famílias que sustentam essa estrutura — aquelas que servem, seja por meio de trabalhos domésticos ou como força militar a serviço das casas nobres.


Foi entre as raízes que Dainora nasceu e cresceu.


Sua família servia à Casa Cedrus há gerações, atuando como guardiões pessoais. Desde muito jovem, seus pais a prepararam para assumir esse papel — ser o escudo da família-galho, alguém disposto a sacrificar a própria vida, se necessário, para garantir a segurança de seus senhores.


Ainda na infância, porém, sua rotina era frequentemente interrompida por Darel, a filha mais nova da família Cedrus, que tinha idade próxima à sua. A jovem nobre “sequestrava” Dainora de seus deveres para tê-la como companhia — para brincar, rir e viver, por alguns instantes, como duas crianças comuns.


Essas escapadas frequentemente resultavam em punições para Dainora. Ainda assim, nada foi capaz de abalar a amizade que floresceu entre as duas. Com o passar dos anos, seus papéis dentro da sociedade tornaram-se mais exigentes, mas, sempre que possível, encontravam tempo para escapar das obrigações e fingir ser, como gostavam de dizer, apenas “garotas normais”.


Certo dia, Dainora foi afastada de suas funções e enviada para um treinamento especial — um processo rigoroso, destinado à formação de líderes militares dentro da estrutura da Casa Cedrus. Permaneceu ausente por cerca de cinco anos.


Ao retornar, muita coisa parecia inalterada… mas Darel não era mais a mesma.


Havia nela uma leveza diferente — um ar distraído, um sorriso constante, quase bobo. Em um momento a sós, revelou o motivo: havia se apaixonado por um príncipe humano.


Dainora reagiu com risos e incentivo. Sua lealdade à amiga era genuína, e acima de tudo desejava vê-la feliz. Ainda que alianças entre espécies fossem vistas como sinais de tempos de mudança na sociedade élfica, ela não se opôs.


Em uma manhã de outono, Darel pediu que Dainora a acompanhasse até um local afastado da cidade — uma antiga clareira mística, de grande importância espiritual para os elfos. Alegou não poder ir sozinha, já que sua família jamais permitiria tal deslocamento sem escolta. E, claro, ninguém melhor do que alguém que não faria perguntas… nem espalharia respostas.


Essas visitas tornaram-se frequentes.


Logo ficou claro que a clareira era apenas um pretexto.


Era ali que Darel encontrava o príncipe.


Dainora não apreciava o papel de acompanhante involuntária daquele romance, mas compreendia os riscos de encontros secretos em locais isolados — e, acima de tudo, conhecia seus deveres. Por lealdade, manteve silêncio.


Com o tempo, passou a observar melhor o homem que conquistara o coração de sua amiga.


O príncipe Bryan III era carismático — sempre sorridente, brincalhão e intensamente romântico. Mas também era imprudente, infantil e distraído. Tinha o hábito irritante de assustar ambas sem aviso, contar piadas de gosto duvidoso e, com frequência impressionante, se ferir sozinho.


Ainda assim… seus sentimentos eram verdadeiros.


E isso bastava.


Mais tarde, naquele mesmo ano, Bryan ajoelhou-se diante de Darel e pediu sua mão. Dainora já suspeitava que aquilo aconteceria, embora, sob a perspectiva élfica — onde o tempo corre de forma mais longa e paciente —, tudo parecesse precipitado.

Darel aceitou sem hesitar.


Gritou de alegria, lançou-se sobre Bryan e rolou com ele pela grama, entre risos e beijos, antes de correr até Dainora para exibir o anel, radiante de felicidade.


A notícia do noivado espalhou-se rapidamente — e, com ela, vieram as consequências. Dainora foi duramente repreendida por ocultar o relacionamento de ambas as famílias.


Apesar disso, o casamento foi realizado.


Os meses seguintes foram tomados por preparativos, e a cerimônia ocorreu com grande pompa. A própria Matriarca fez-se presente, dada a relevância da Casa Cedrus dentro da estrutura élfica.


Após o casamento, Bryan e Darel partiram para Reuhtor, terra natal do príncipe, onde futuramente assumiriam o trono e governariam juntos.


Antes da partida, a Matriarca reuniu-se em particular com a família Cedrus. Dainora nunca soube o teor da conversa — mas percebeu que Darel deixou o encontro menos entusiasmada do que nos dias anteriores.


Uma comitiva élfica foi organizada para acompanhar o casal até Reuhtor. Muitos desses elfos estabeleceram-se na cidade, integrando-se à sua estrutura — oficialmente como residentes, mas, na prática, como extensão da vontade da Matriarca.


Pouco tempo depois, Dainora assumiu o posto de general das tropas de Reuhtor. Sua ascensão ocorreu após a aposentadoria de Entar, o antigo general, que passou a atuar apenas como conselheiro da corte e mentor dos magos do reino.


Os anos passaram, Bryan e Darel assumiram o trono e tiveram filhos. O reino prosperou, até que, subitamente, uma doença misteriosa acometeu o rei. Até hoje, ninguém soube definir sua natureza, Bryan simplesmente adormeceu.


E nunca mais despertou.

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