top of page

PRÓLOGO - Parte 2

Atualizado: 17 de ago.

ATO 1 - Cinzas no horizonte

Capítulo 2: A Lâmina do Rei

Texto original por Matheus "Zao" Eler

Argumentos por Vinicius Botelho e Vitor Ripinski



O último toque do sino do meio-dia ainda reverberava pelas torres quando Dainora alcançou a ala dos aposentos reais. O ruído metálico misturava-se ao som discreto das botas dos guardas e ao movimento dos criados, que transitavam pelos corredores carregando roupas de cama, jarras de água e pequenas pilhas de documentos. Naquela parte do castelo, até a pressa parecia organizada.


Dois soldados protegiam o início do corredor, enquanto outros permaneciam diante das portas que levavam aos aposentos da família real. As placas de aço rubro de suas armaduras haviam sido polidas naquela manhã e refletiam a luz das janelas. O piso claro não guardava marcas de lama, as tapeçarias estavam perfeitamente alinhadas e as flores que ornamentavam os nichos das paredes eram substituídas antes mesmo que começassem a murchar.


Darel nem sempre fora assim. Durante a infância em Liin, era exatamente o oposto: uma garota levada, inquieta e sempre disposta a transformar qualquer momento de distração dos adultos em oportunidade para uma nova travessura. A organização meticulosa pertencia à sua mãe, que mantinha cada objeto da Casa Cedrus no lugar correto e parecia capaz de perceber até mesmo quando um livro havia sido deslocado poucos dedos para o lado.


Foi somente após um longo período de amadurecimento que Darel começou a herdar aquela característica. Agora, com a administração de todo o reino sobre os ombros, o hábito pendia para algo próximo de um desequilíbrio organizacional. Papéis, flores, móveis e criados precisavam estar sempre em seus devidos lugares. Organizar aquilo que estava ao alcance de suas mãos era uma maneira de acalmar o que não conseguia ordenar dentro da própria mente. Dainora compreendia aquele comportamento melhor do que qualquer criada.


A general atravessou o corredor sob os cumprimentos dos guardas. Era uma elfa de corpo firme, moldado por anos de treinamento, com cabelos avermelhados na altura dos ombros e orelhas pontiagudas parcialmente visíveis entre as mechas. Vestia uma armadura sobreposta por um tecido rubro, com ombreiras e braçadeiras douradas à amostra. Às costas, uma capa arroxeada acompanhava seus passos. A espada descansava à cintura, mesmo dentro do castelo. Não por desconfiança, mas porque a Lâmina do Rei nunca era vista separada de seu aço.


Dainora Thymus era a general do exército, uma das melhores esgrimistas de Reuhtor e, para muitos, a personificação da lealdade à Coroa. Naquele momento, porém, carregava nos olhos uma preocupação que nenhuma postura militar conseguia ocultar.


Galian Dorivã esperava diante da última porta. O jovem guardião do salão real mantinha-se ereto dentro da armadura vermelha, com as duas mãos apoiadas no punho da espada embainhada. Tinha traços tranquilos, cabelos castanhos bem cuidados e a expressão respeitosa de quem levava o próprio dever mais a sério do que precisava.


Ao vê-la se aproximar, Galian inclinou a cabeça e abriu espaço diante da porta.


“Minha senhora Dainora, Sua Majestade a aguarda”, anunciou, mantendo o tom cerimonioso mesmo diante de alguém que encontrava quase todos os dias.


“Obrigada, Sir Dorivã.” Dainora respondeu ao cumprimento com um breve aceno, e Galian abriu a porta para lhe dar passagem.



Havia outros dois guardas no interior, um de cada lado, ambos imóveis como parte da decoração. Dainora atravessou uma pequena sala de recepção e, quando chegou à porta seguinte, ouviu a voz grave de Alfyn.


“Existem outros tratamentos, Majestade”, assegurava o alquimista mestre. “Métodos ainda não testados, é verdade, mas não estamos sem alternativas. O problema são os ingredientes. Alguns deles simplesmente não podem ser encontrados em Reuhtor.”


Dainora diminuiu o passo. Não pretendia escutar às escondidas, mas a porta estava entreaberta e a conversa chegou até ela antes que pudesse anunciar sua presença.


“Quanto tempo levaria para consegui-los?”, perguntou Darel. A impaciência contida em sua voz permitia imaginar que aquela não era a primeira vez que fazia a mesma pergunta.


“Mais do que eu gostaria”, admitiu Alfyn após uma curta hesitação. “Contudo, meu braço direito já está a caminho. É um dos alquimistas mais renomados de nossa Ordem e dispõe de recursos que não possuímos aqui. Já o vi realizar tratamentos que beiravam o milagre. Se existe alguém em quem confio para prosseguir comigo, é ele.”


Dainora bateu com os nós dos dedos antes de empurrar a porta. Alfyn e a rainha voltaram-se ao mesmo tempo, e a conversa morreu tão depressa que o silêncio pareceu tomar seu lugar.


O mestre da Ordem dos Alquimistas era um anão com a aparência de um humano de sessenta anos (embora tivesse praticamente o dobro), vestido com roupas largas que faziam seu corpo parecer ainda menor. As mangas cobriam parte de suas mãos, e várias camadas de tecido em tons terrosos se sobrepunham ao redor de seu tronco. Suas feições cansadas e a maneira como apertava os lábios contrastavam com a segurança que procurara demonstrar segundos antes. Mas a característica que não poderia passar desapercebida é com relação à prótese metálica que substituia seu nariz. Para uns, um contraste extravagante, para não dizer grotesco, que sempre lhe dificultara em apresentações e boas primeiras impressões em sua juventude. Para Alfyn, um lembrete constante de sempre se assegurar que cada frasco está não só vazio mas devidamente limpo e higienizado antes de utilizar para novos experimentos.


Darel permanecia ao lado de uma mesa coberta por documentos. Os papéis formavam pilhas ordenadas, separadas por selos, cores de fita e urgência. Atrás dela, uma passagem levava ao quarto onde o Rei Bryan dormia. Dainora podia distinguir apenas parte do leito e a silhueta imóvel do rei sob as cobertas.


Alfyn ajeitou as mangas antes de cumprimentá-la. - “General.”




“Mestre Alfyn. Perdoem-me pela interrupção”, respondeu Dainora, alternando o olhar entre ele e a amiga. “Galian disse que eu era esperada.”



“E era”, confirmou Darel prontamente. “Nós já havíamos terminado.”




A rainha sustentou o olhar de Dainora por alguns instantes. O cansaço sob seus olhos e a tensão em sua postura diziam o contrário, mas a general não a confrontou diante do alquimista.


“Acredito que sim”, concordou Alfyn, recolhendo dois frascos sobre a mesa. “Tenho preparativos a fazer antes da chegada de meu assistente.”



O anão curvou-se diante da rainha e passou por Dainora. Antes de sair, ofereceu-lhe um breve aceno, que ela correspondeu em silêncio. Somente depois que a porta se fechou, Dainora voltou sua atenção inteiramente para a amiga.


“Eu ouvi que ainda existem tratamentos”, comentou, procurando algum sinal de esperança no rosto de Darel. “Mas e o Rei Bryan? Houve alguma melhora?”


Darel abaixou o olhar e reuniu alguns documentos sobre a mesa. Acertou as extremidades das folhas umas contra as outras, reorganizou as fitas que separavam os assuntos e tornou a alinhar uma pilha que já estava perfeitamente ordenada.


“O mestre Alfyn está confiante. É tudo o que você precisa saber por enquanto.”



“Não me pareceu ser tudo o que o mestre Alfyn tinha a dizer.” Dainora observou a inquietação das mãos da amiga, que já procuravam outra pilha para organizar.


“Alfyn sempre tem mais a dizer. É um dos motivos pelos quais Bryan gosta tanto dele”, respondeu Darel, tentando aliviar o assunto. O sorriso que acompanhou suas palavras, porém, desapareceu antes mesmo de se completar.


Dainora olhou novamente para a passagem que levava ao quarto. O Rei Bryan permanecia adormecido, alheio aos sinos, ao conselho e ao reino que aguardava por seu despertar. A visão daquele corpo imóvel sempre lhe causava estranheza. O Rei Bryan fora um homem incapaz de permanecer quieto durante uma refeição; agora, nem mesmo as vozes de seus amigos pareciam alcançá-lo.


“E você?”, perguntou Dainora, retornando o olhar para Darel. “Como está?”




“Administrando um reino”, respondeu a rainha, voltando-se para os documentos.



“Não foi isso que perguntei.”




“Eu sei.”




Por um momento, Darel não pareceu rainha. Era apenas a garota que costumava arrancá-la de seus deveres em Liin para correr entre as árvores e retornar com folhas presas nos cabelos. A fragilidade durou pouco. Ela inspirou lentamente, endireitou os ombros e recuperou a compostura que adotava diante da corte.


“Temos uma reunião importante hoje”, informou. “Preciso que esteja comigo.”



“Eu sempre estou”, garantiu Dainora, embora a seriedade da amiga já indicasse que aquilo não seria suficiente.



“Hoje preciso que todos vejam.”




Dainora franziu a testa e se aproximou da mesa.


“Você recebeu alguma ameaça?”




“Não com palavras.” Darel caminhou em direção à janela, mas parou antes de alcançá-la. O movimento pareceu mais uma tentativa de se afastar do quarto do Rei Bryan do que de observar a cidade.


“Então como pode ter certeza?”, insistiu a general, sentindo a mão se aproximar instintivamente do punho da espada.



“Depois de tantos anos lidando com política e administração, as palavras deixam de ser necessárias. Uma pausa antes de obedecer. Uma pergunta feita diante das pessoas erradas. Conselheiros que passam a chamar decisões de propostas.” Darel voltou-se para a amiga, deixando transparecer parte da indignação que escondia durante as reuniões. “Os perversos de primeira viagem são os mais fáceis de reconhecer. Ainda não aprenderam a esconder a satisfação quando acreditam ter encontrado uma fraqueza.”


“Quem são eles?”




“Se eu soubesse, teria nomes. Por enquanto, tenho apenas gestos, conversas interrompidas e homens que começaram a ocupar espaço demais à mesa.”


Dainora apoiou a mão no punho da espada. Lidar com uma ameaça sem rosto a incomodava mais do que enfrentar um inimigo armado. No campo de batalha, ao menos, sabia para onde apontar a lâmina.


“Diga-me o que posso fazer”, pediu.




“Aparência importa nesses momentos.” Darel aproximou-se e pousou a mão sobre o braço protegido pela armadura. “Enquanto o Rei Bryan dorme, sou uma elfa governando um reino cuja maior parte do povo é humana. Não sei por quanto tempo os reuhtorianos aceitarão que uma rainha de Liin continue dando as cartas.”


“Eles são seu povo”, retrucou Dainora, incomodada com a simples possibilidade de alguém pensar o contrário.



“Eu sei. Mas preciso que eles também se lembrem disso.” A rainha apertou de leve o braço da amiga. “Ter a general do exército ao meu lado será suficiente para afastar algumas ideias. Você é a Lâmina do Rei, uma das melhores esgrimistas deste reino e o rosto em quem os soldados confiam. Seu apoio mostra que o exército permanece ao lado da Coroa.”


“Meus votos de lealdade jamais serão abandonados”, assegurou Dainora. “A promessa que fiz na Clareira de Liin continua valendo.”



“Eu não duvido.”




“Mas governar não é o meu forte, Darel.” A general afastou a mão da espada e deixou os braços penderem junto ao corpo, como se admitisse uma fraqueza difícil de confessar. “Organizar tropas, defender muralhas, escolher onde posicionar arqueiros... isso eu sei fazer. Nobres dizem uma coisa querendo dizer outra. Sorriem quando desejam atacar e agradecem quando pretendem cobrar. Nunca tive aptidão para essas artimanhas.”


Um sorriso pequeno surgiu no rosto da rainha.


“Quando éramos crianças, você também dizia que não tinha aptidão para mentir.”



“E não tenho”, respondeu Dainora, deixando escapar um riso discreto ao recordar quantas vezes fora castigada por não conseguir inventar uma desculpa convincente para as escapadas das duas.


“Exatamente por isso confio em você.” Darel permitiu que aquela lembrança aliviasse seu semblante por alguns segundos. “Quero que entenda uma coisa: antes de sua habilidade com armas, antes do comando e antes de qualquer título, você é meu braço direito. A única pessoa que sei que jamais me trairia. É disso que preciso ao meu lado.”


Dainora abaixou a cabeça por um instante, tocada pela sinceridade da amiga. Quando tornou a encará-la, havia determinação em seus olhos.


“Estarei na reunião. Antes, porém, preciso ir ao calabouço. Ludvig me aguarda para verificar o que descobriram sobre a invasão.”



“Então não demore”, pediu Darel, lançando um breve olhar para o quarto do Rei Bryan. “Hoje, mais do que nunca, quero você por perto.”



Dainora despediu-se com um gesto e deixou os aposentos. Galian fechou a porta atrás dela, devolvendo ao corredor o silêncio limpo e organizado que Darel tanto se esforçava para preservar.


Ludvig a esperava ao final da escadaria.


Mesmo entre os nobres da corte, ele era uma figura difícil de ignorar. Alto e magro, possuía feições angulosas e uma postura rígida que fazia cada movimento parecer calculado. Os cabelos escuros estavam penteados para trás, e as roupas, embora discretas, eram confeccionadas com tecidos caros. Não usava joias além do anel de sua família e de um pequeno fecho prateado sobre o manto negro.


A fortuna dos Ludvig vinha do comércio. Sua casa negociava metais, tecidos, cavalos e mercadorias estrangeiras havia gerações, muito antes de Darel chegar a Reuhtor. Toda a família, entretanto, fora consumida pelo Incêndio de 38. Ludvig sobrevivera sozinho e, com o passar dos anos, reconstruíra os negócios, recuperando cada contato e cada rota perdida.


Quando os primeiros elfos chegaram com a comitiva da rainha, fora ele quem auxiliara na abertura dos mercados e convencera comerciantes humanos a aceitarem os recém-chegados. Dainora nunca esquecera isso. Em uma cidade ainda marcada por diferenças entre povos, Ludvig havia sido um dos primeiros reuhtorianos a tratá-la como aliada.


A severidade de seu olhar diminuiu ao vê-la descer.


“General”, cumprimentou, afastando-se da parede.




“Ludvig. Espero não tê-lo feito esperar.” Dainora acelerou os últimos passos, ainda pensando na conversa interrompida entre Darel e Alfyn.



“Já aguardei por reuniões muito menos agradáveis”, respondeu ele, acompanhando-a assim que ela iniciou a descida para os níveis inferiores do castelo.


À medida que deixavam os aposentos reais, a arquitetura se tornava mais austera. As tapeçarias desapareceram, substituídas por paredes de pedra e suportes de ferro para tochas. Dainora esperou que dois criados cruzassem o corredor antes de abordar o motivo daquela visita.


“Disseram-me que esta foi a segunda tentativa de invasão neste mês.”




“Foi.” Ludvig manteve os olhos voltados para a escadaria, e a tensão em sua mandíbula revelava o quanto a situação o incomodava.



“Isso não é normal.”




“Não. Uma tentativa já seria incomum. Duas, no intervalo de poucas semanas, são algo bastante atípico.”



Dainora observou dois guardas passarem por eles e tornou a baixar a voz.


“Tem alguma suspeita?”




“Suspeitas são fáceis de conseguir. Provas, nem tanto.” Ludvig diminuiu o passo, aguardando que os soldados se afastassem. “Direi apenas que considero conveniente demais que duas invasões ocorram justamente quando as coisas se encontram... levemente fragilizadas.”


“Levemente?”, repetiu Dainora, lançando-lhe um olhar atravessado.




“Não pretendo ofender a capacidade da rainha.”




“Então escolha melhor suas palavras.”




“Foi o que fiz”, respondeu Ludvig com absoluta seriedade, embora algo próximo de humor surgisse no canto de sua boca.



Dainora sustentou o olhar por mais um instante e depois voltou a caminhar. Conhecia-o havia tempo suficiente para saber quando aquele semblante rígido escondia uma provocação.


“Não estou dizendo que os ataques tenham sido executados pelas mesmas pessoas”, esclareceu ele. “Ainda não sabemos o bastante para isso. Apenas não gosto do momento escolhido.”


“Nem eu”, concordou Dainora. A conversa com Darel ainda pesava em sua mente, tornando qualquer coincidência mais difícil de aceitar.



Eles desceram mais dois lances de escada até uma antessala situada antes das celas. Havia uma mesa, três cadeiras, um armário de registros e um banco encostado à parede. Sobre o tampo, armas apreendidas tinham sido separadas e identificadas com pequenas tiras de pergaminho.


Dhalila Ulmus examinava uma espada curta quando os dois entraram.


A elfa era mais baixa que Dainora, mas possuía ombros largos e braços musculosos. Os cabelos claros, semelhantes a uma juba de palha, caíam em mechas desalinhadas e pequenas tranças. Era conhecida como a Dama das Armas, ferreira-chefe do exército e uma das poucas pessoas em Reuhtor capazes de transformar praticamente qualquer objeto em uma ferramenta de combate.


Ao notar a presença deles, Dhalila ergueu os olhos da lâmina e a girou uma última vez entre os dedos.


“Finalmente. Começava a achar que teria de interrogar o sobrevivente sozinha.”



“Não seria a primeira vez que você se excederia em suas funções”, comentou Dainora, aproximando-se da mesa.



“Também não seria a primeira vez que meu excesso resolveria o problema”, rebateu Dhalila. Em seguida, depositou a espada junto às demais armas e apoiou as duas mãos na mesa. “Foram quatro invasores. Uma mulher e três homens. A mulher trabalhava na cozinha real havia mais de um ano. Serviçal, discreta, sem punições ou reclamações registradas.”


“Mais de um ano?”, perguntou Dainora, sentindo o desconforto crescer. Aquela mulher estivera próxima da família real por tempo suficiente para conhecer cada rotina do castelo.


“Tempo bastante para aprender os horários, as entradas e quem costuma vigiar cada corredor”, confirmou Dhalila, acompanhando a linha de raciocínio da general.


Ludvig se aproximou da mesa e analisou as armas apreendidas.


“E os homens?”




“Um deles era conhecido nas feiras das quartas. Mercador de queijo. Alguns vendedores confirmaram que negociavam com ele havia meses.” Dhalila apontou para duas lâminas separadas no canto da mesa. “Dos outros dois, não encontramos nada. Nenhum registro de entrada, hospedagem ou trabalho.”


“Eram mesmo mercadores?”, questionou Dainora.




Dhalila soltou uma risada sem humor e cruzou os braços.


“Eram combatentes. Os quatro. A cozinheira, inclusive. Não sei onde aprenderam, mas nenhum deles segurava uma arma como alguém que treinou por passatempo. Só conseguimos contê-los porque os guardas reagiram rápido e eu estava perto o bastante para ajudar.”


“Quantos sobreviveram?”, perguntou Ludvig, embora seu olhar permanecesse sobre as armas.



“Apenas um. Os outros três morreram durante o confronto.” A ferreira inclinou a cabeça na direção do corredor das celas. “O sobrevivente ficou bastante ferido e não parece disposto a cooperar. Até agora, não disse uma palavra que servisse para alguma coisa.”


Dainora voltou-se imediatamente para a saída.


“Onde ele está?”




“Terceira cela do corredor inferior”, informou Dhalila. Depois apanhou novamente a espada curta, incapaz de abandonar a análise por muito tempo. “Boa sorte. Se conseguirem fazê-lo falar, perguntem onde comprou isto. O equilíbrio é excelente.”


“Concentre-se no relatório, Dhalila”, repreendeu Dainora, embora conhecesse a ferreira o bastante para saber que a advertência teria pouco efeito.


“Estou concentrada. A espada faz parte do relatório.”




Dainora balançou a cabeça e deixou a antessala. Ludvig a seguiu pelo corredor inferior, onde o ar era mais frio e úmido. Dois guardas protegiam a terceira cela.


Ao vê-los, os soldados corrigiram imediatamente a postura.


“Alguma mudança?”, perguntou Ludvig.




“Não, senhor”, respondeu um deles. “Nenhum ruído desde o início de nossa vigília.”


O guarda destrancou a porta e a puxou. Dainora entrou primeiro, já preparando as perguntas que faria ao prisioneiro, mas parou depois de dois passos.


O homem estava caído junto à parede, com a cabeça inclinada sobre o peito. Um dos braços repousava no chão, enquanto o outro permanecia dobrado sobre o ventre. Os ferimentos do confronto haviam sido limpos e enfaixados, mas manchas escuras atravessavam parte do tecido.


Ludvig passou por Dainora e se agachou diante do corpo. Tocou o pescoço do prisioneiro, aguardou alguns segundos e depois abriu uma de suas pálpebras.


“Está morto”, constatou.




“Como?” Dainora aproximou-se, tentando encontrar algum ferimento recente entre as faixas.



Ludvig examinou as bandagens e pressionou os dedos contra o peito do homem.


“Não sei. Ainda.”




Dainora retornou à porta com passos duros.


“Quem entrou aqui?”




“Ninguém, general”, respondeu o guarda, visivelmente alarmado.


“Ele recebeu comida? Água? Algum curandeiro veio examiná-lo?” A voz de Dainora se elevou a cada pergunta, e o soldado pareceu encolher dentro da armadura.


“O médico deixou a cela antes de assumirmos o posto. Desde então, ninguém passou por esta porta.”


“E vocês não ouviram nada?”




“Não, senhora.”


A frustração subiu pelo braço de Dainora antes que pudesse contê-la. Ela golpeou a parede com o punho, fazendo o som ecoar pela cela. Os guardas se enrijeceram, mas nenhum deles ousou acrescentar qualquer explicação.


Ludvig deixou o corpo e examinou a pequena janela. Testou as barras, passou os dedos pelas junções de ferro e observou o espaço estreito que dava para uma abertura externa do castelo. Não havia marcas, rachaduras ou qualquer sinal de violação.


Enquanto ele verificava a janela, Dainora se ajoelhou diante do cadáver. O rosto e o peito apresentavam hematomas do confronto, além de cortes nos braços e nas pernas. Ela afastou com cuidado uma das faixas e acompanhou as lesões até o antebraço, onde pequenas perfurações curvas estavam dispostas como dentes sobre a pele.


Dainora permaneceu imóvel por um instante. A lembrança dos corpos encontrados no início do mês retornou com clareza suficiente para fazê-la sentir um arrepio.


Ela esperou Ludvig se aproximar e falou quase num sussurro:


“Essas marcas não estavam presentes nos cadáveres do primeiro ataque?”



Ludvig acompanhou o olhar dela até o antebraço. Por um breve momento, sua expressão se tornou ainda mais rígida. Em seguida, aproximou o indicador dos próprios lábios, pedindo silêncio, e confirmou com os olhos.


Ele se levantou e voltou-se para os guardas, recuperando a autoridade habitual.


“Sigam o procedimento. Quero uma autópsia minuciosa. Registrem cada ferimento, mesmo os que pareçam antigos, e deem atenção especial à causa da morte. Ninguém toca neste corpo sem autorização.”


“Sim, senhor”, responderam os dois soldados quase ao mesmo tempo.


Dainora deixou a cela com passos largos. O silêncio permaneceu apenas até alcançarem a escadaria.


“São as mesmas marcas”, afirmou, sem diminuir a velocidade. “Os ataques podem estar ligados.”



“Dainora...” Ludvig tentou interrompê-la, mas ela continuou avançando.




“Quatro pessoas entram no castelo, duas delas vivendo entre nós há meses, e o único sobrevivente morre dentro de uma cela vigiada. Agora encontramos no corpo dele a mesma mordida deixada nos cadáveres do outro ataque.”


Ludvig precisou alongar o passo para acompanhá-la. Dainora falava cada vez mais depressa, movida por uma inquietação que não encontrava onde descarregar.


“Pode ser um grupo, um culto, uma seita ou sabe-se lá o quê. Se essas pessoas estavam infiltradas...”



Antes que concluísse, Ludvig segurou seu braço e a conduziu para dentro de um cômodo vazio. Depois de verificar o corredor, fechou a porta e permaneceu diante dela.


“Fale mais baixo”, alertou com veemência.




Dainora puxou o braço de volta, incomodada com a interrupção.


“Não temos tempo para cautela.”




“É justamente por não sabermos com o que estamos lidando que precisamos dela”, respondeu Ludvig, mantendo a voz controlada. A serenidade dele contrastava com a agitação da general.


“Há pessoas dentro de Reuhtor arquitetando esses ataques?”




“Não posso afirmar isso.”




“A cozinheira trabalhava no castelo. O mercador frequentava nossas feiras.”



“E essa possibilidade me preocupa tanto quanto preocupa você.” Ludvig fez uma breve pausa, escolhendo as palavras antes de prosseguir. “Mas levar essas suspeitas ao conselho sem uma prova concreta seria jogar mais brasas no fogo que nossa rainha tenta apagar.”


Dainora afastou-se alguns passos, tentando organizar as próprias ideias.


“Então devemos fingir que nada aconteceu?”




“Devemos investigar sem anunciar que estamos investigando.” Ludvig aproximou-se apenas o suficiente para diminuir ainda mais a voz. “Escolherei homens de absoluta confiança. Se realmente houver infiltrados entre nós e eles descobrirem que estamos seguindo seus passos, desaparecerão. Trocarão de nomes, deixarão suas funções e se esconderão ainda mais. Até termos algo concreto, isso precisa permanecer entre nós.”


Dainora respirou fundo. O plano era sensato, embora cada parte dela desejasse reunir os guardas e revistar o castelo inteiro.


“Dhalila viu as marcas?”




“Não sabemos. Ela não mencionou.”




“Mantenha-me informada”, exigiu Dainora, tornando a encará-lo. “Qualquer detalhe, por menor que pareça.”



“Você será a primeira a saber.”




“Prometa.”




Ludvig sustentou o olhar da general. A rigidez de suas feições se desfez por um instante, dando lugar à consideração que reservava apenas a poucas pessoas.


“Eu prometo.”




Ele abriu a porta, mas não saiu imediatamente.


“Enquanto isso, permaneça próxima da rainha. E, principalmente, do rei.”




Dainora estreitou os olhos.


“Você acha que o Rei é o alvo?”




“Espero estar errado.” Ludvig olhou para o corredor antes de concluir. “Contudo, duas invasões ao castelo durante a indisposição de Sua Majestade não permitem que eu ignore essa possibilidade.”


Os dois retomaram o caminho para o conselho.


A sala onde as principais decisões de Reuhtor eram discutidas ficava no andar superior da ala central. Uma mesa comprida de madeira escura ocupava quase todo o espaço, cercada por cadeiras reservadas aos nobres, comandantes e representantes das ordens. Mapas das estradas e das regiões do reino cobriam parte das paredes. Janelas altas voltadas para o sul permitiam observar os telhados da capital e, além das muralhas, as planícies que se estendiam entre as cordilheiras.


Desde que o Rei Bryan adoecera, grande parte das obrigações do rei recaíra sobre Darel. No princípio, o conselho existia para orientá-la, apresentar informações e auxiliar na execução de suas ordens. Com o passar das semanas, contudo, alguns conselheiros começaram a agir como se a autoridade da rainha dependesse da aprovação deles. Pediam votações, exigiam justificativas e transformavam ordens simples em longos debates.


Darel já ocupava a cadeira na cabeceira quando Dainora entrou. A general posicionou-se ao lado direito da rainha, permanecendo de pé, enquanto Ludvig seguiu até uma das cadeiras próximas ao canto da mesa. Não se sentava entre os primeiros conselheiros, mas perto o bastante da cabeceira para que sua opinião fosse ouvida sem que precisasse elevar a voz.


Entre os nobres que integravam o conselho, dois se destacavam.


Avelar Voss ocupava uma cadeira reforçada do outro lado da mesa. Era um homem gordo, de pescoço curto e rosto sempre úmido, mesmo quando o salão estava fresco. Um de seus olhos era de vidro, claro e imóvel, enquanto o outro percorria os presentes com atenção. Dono de vastas terras cultiváveis próximas ao Caldo da Colheita e às margens do Rio Estras, controlava uma parte considerável dos grãos que abasteciam a capital.


Ao seu lado estava Roderic Vaul. Magro, de traços finos e bigode estreito cuidadosamente aparado, usava pequenos óculos de meia-lua que costumava empurrar pela ponte do nariz antes de contradizer alguém. Havia nele uma arrogância discreta, presente na inclinação do queixo e na maneira como parecia corrigir mentalmente as palavras dos demais.


Além dos membros da corte, aquela sessão contava com convidados extraordinários. Em destaque, três representantes da Ordem do Sol haviam recebido lugares próximos à extremidade oposta da mesa. Suas armas tinham sido deixadas sob a guarda dos soldados na entrada.


A Ordem do Sol tivera origem na antiga Ordem da Chama Solar, uma das grandes forças que haviam integrado os Legionários durante o Expurgo. Com o passar dos anos, tornara-se uma irmandade de guerreiros, clérigos e magos que cruzavam os reinos protegendo refugiados, tratando feridos e combatendo ameaças que exércitos comuns nem sempre estavam preparados para enfrentar.


À mesa, havia três de seus representantes atuais: Azar vestia roupas verdes e marrons sob um manto escuro, além do largo chapéu que identificava sua condição de mago. A barba espessa cercava o rosto, e o símbolo dourado do Sol repousava sobre o peito. Orítia era uma gigante de pele escura, alta o bastante para fazer as cadeiras parecerem mobília infantil. Sem sua lança e seu grande escudo, mantinha as mãos vazias junto ao corpo e observava a reunião com serenidade.


Ulisses sentava-se entre ambos. Diferentemente de seus companheiros, mantivera a armadura branca adornada por detalhes dourados e o elmo fechado, embora estivesse sem o escudo e o mangual. A abertura vertical do visor ocultava quase todo o seu rosto.


Darel passou os olhos pelos documentos diante de si e começou pelo assunto que parecia exigir resposta mais imediata.


“Lorde Avelar, o relatório recebido esta manhã menciona atraso no plantio e perda em parte das terras mais afastadas do rio.”



Avelar passou um lenço pelo rosto antes de responder. O movimento fez sua respiração se tornar mais pesada.


“O período de seca durou um pouco mais do que esperávamos, Majestade. Algumas lavouras sentiram os efeitos, mas ainda não existe motivo para grande alarde.”


“Esse atraso afetará o abastecimento?”, perguntou Darel, mantendo os olhos sobre o nobre.



“Não de imediato.”




“E os preços?”




O olho verdadeiro de Avelar desviou-se por um breve instante. O de vidro permaneceu voltado para a rainha.


“É possível que haja algum impacto no custo final dos grãos. Os produtores precisarão recuperar parte das perdas, e os estoques exigirão maior cuidado.”


Um burburinho atravessou a mesa. Darel permitiu que os conselheiros cochichassem por alguns segundos antes de erguer a mão e recuperar o silêncio.


“Quanto?”




“Ainda é cedo para apresentar um número seguro”, respondeu Avelar, apertando o lenço entre os dedos.



“Mas não cedo demais para preparar um aumento”, observou Darel.




O nobre ajeitou-se na cadeira, claramente desconfortável com a acusação.


“Não estou defendendo qualquer aumento, Majestade. Apenas esclarecendo que manter os preços atuais pode exigir algum auxílio da Coroa.”


“Subsídios extras fornecidos pela coroa desagradarão alguns dos nobres desta mesa. Permitir que os alimentos fiquem mais caros desagradará todo o restante do reino.” Darel percorreu os presentes com o olhar, deixando claro que sua preocupação não se limitava à colheita. “A Coroa nunca deu as costas à sua casa, Lorde Avelar. Nem quando o Rio Estras transbordou, nem quando parte dos armazéns do Caldo da Colheita foi perdida. Estou inclinada a auxiliar novamente, desde que isso mantenha o preço dos grãos estável.”


“É claro, Majestade.” Avelar inclinou a cabeça, mas o suor que se acumulava em sua testa revelava que a resposta não o tranquilizara.



“Conto com sua lealdade neste momento. Espero que não meça esforços para impedir que o povo pague pela seca antes mesmo que ela se torne uma crise.”


“Farei tudo o que estiver ao meu alcance.”




“E espero um pouco mais do que isso.”




Alguns conselheiros trocaram olhares. Avelar limpou novamente o rosto e, quando voltou a falar, sua atenção se dirigiu para a passagem vazia ao lado da rainha.


“Já que tratamos das dificuldades do reino, talvez Vossa Majestade possa esclarecer a situação do rei. O mestre alquimista apresentou algum parecer?”


Os cochichos cessaram. Dainora percebeu a tensão percorrer os ombros da amiga, embora sua expressão permanecesse serena.


“O tratamento do Rei Bryan tem apresentado respostas”, afirmou Darel. “Sua condição exige paciência, e o mestre Alfyn acredita que um processo mais longo e cuidadoso garantirá melhores resultados.”


Dainora notou que a rainha voltara a alinhar os documentos diante de si, apesar de nenhum deles estar fora do lugar. Antes que algum dos nobres formulasse outra pergunta, a voz de Ulisses surgiu abafada pelo elmo.


“Se Vossa Majestade permitir, a Ordem do Sol coloca seus conhecimentos à disposição da Coroa.”



Todos os olhares se voltaram para os três visitantes.


Ulisses, o clérigo da Ordem do Sol que se assentava no meio das três figuras, manteve as mãos sobre a mesa enquanto prosseguia:


“Temos curandeiros experientes e mantemos colaboração antiga com a Ordem dos Alquimistas. Azar, Orítia e eu viemos oferecer auxílio não apenas ao reino, mas também ao tratamento de Sua Majestade, caso seja necessário.”


Darel lhe concedeu um sorriso respeitoso, mas não deixou espaço para que o assunto se aprofundasse.


“Reuhtor agradece a oferta. Por enquanto, o mestre Alfyn possui tudo de que necessita. Caso isso mude, a Ordem do Sol será procurada.”



“Como desejar”, respondeu Ulisses, inclinando o elmo.




Darel separou outro documento e mudou de assunto antes que Avelar ou qualquer outro conselheiro retomasse as perguntas sobre o Rei Bryan.


“Passemos à segurança das estradas.”




Roderic Vaul empurrou os óculos de meia-lua pelo nariz. O gesto foi acompanhado por uma leve inclinação do queixo.


“Recebemos outras três denúncias de assaltos nas rotas mais afastadas da capital. Duas caravanas de tecidos e uma de ferramentas foram atacadas.”


“E o que foi feito para localizar os responsáveis?”, perguntou Darel.




“Enviei homens para averiguar, mas a ausência de Faenel deixou minhas forças sobrecarregadas. Não possuo contingente para patrulhar todas as estradas e proteger cada mercador que decida viajar sem escolta adequada.”


“As estradas de sua região estão sob sua responsabilidade”, recordou Darel, sem se deixar impressionar pelo tom do nobre.



“Responsabilidade administrativa, Majestade. Não posso criar soldados onde não existem.”



“Pode contratar patrulheiros. Pode solicitar apoio às vilas. Pode organizar escoltas conjuntas entre os comerciantes.”



Roderic uniu as mãos sobre a mesa e lançou um olhar rápido aos demais conselheiros, buscando apoio antes de responder.


“Nenhuma dessas medidas recuperará os bens já roubados. A meu ver, a Coroa deverá indenizar os mercadores prejudicados.”



“A Coroa?” Darel repetiu a palavra com uma tranquilidade que continha mais ameaça do que um grito.



“Os impostos sobre aquelas rotas são recolhidos em nome do reino. Se o reino não consegue garantir segurança, deve compensar as perdas.”



“Não autorizarei qualquer indenizações antes de uma investigação.”




Roderic tornou a realizar seu tique nervoso de empurrar os óculos.


“Talvez o conselho deva deliberar sobre isso.”




O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Darel apoiou as duas mãos sobre a mesa, e até Avelar desviou o olho verdadeiro na direção de Roderic.


“O conselho existe para me auxiliar, Lorde Roderic”, declarou a rainha. “Não para conceder eficácia às ordens da Coroa.”



“Naturalmente.” O nobre exibiu um sorriso pequeno e pouco convincente enquanto empurrava os óculos pela ponte do nariz. “Contudo, enquanto Sua Majestade permanece impossibilitado, certas decisões talvez devam ser examinadas com maior participação daqueles que conhecem as necessidades do reino.”


“Escolha com cuidado suas próximas palavras”, advertiu Darel. Seu tom permaneceu baixo, mas a sala inteira pareceu se enrijecer. “A indisposição do Rei não transformou o trono em uma cadeira vazia. Tampouco converteu minha autoridade em uma proposta sujeita à aprovação dos senhores.”


O sorriso de Roderic desapareceu. Seus traços finos se contraíram numa expressão desagradável, e o bigode estreito acompanhou a curvatura de seus lábios. Ele percorreu os demais integrantes do conselho com o olhar, procurando respaldo antes de tornar a se dirigir à rainha.


“Não tenho qualquer intenção de esvaziar o poder de Vossa Majestade. Peço apenas que os membros deste conselho possam votar sobre matérias que atingem diretamente o povo. Não deveria haver ofensa em permitir que homens experientes auxiliem a Coroa na tomada de decisões tão importantes.”


“Apresentar informações é auxiliar. Condicionar minhas ordens à aprovação desta mesa é outra coisa.”



Roderic abriu as mãos como se oferecesse à rainha um gesto de conciliação.


“Majestade, todos reconhecemos o duro peso que recaiu sobre seus ombros. Administrar o reino, cuidar da corte e acompanhar o tratamento do Rei certamente exigem mais do que uma única pessoa deveria suportar. Nós apenas nos dispomos a aliviar parte desse fardo. Confesso que não compreendo por que Vossa Majestade recebe como ofensa aquilo que eu e os demais nobres estamos dispostos a conceder como um favor.”


O veneno quase vazava de cada palavra dita. Roderic se apresentava como um servidor preocupado enquanto, diante de todos, descrevia a rainha como alguém incapaz de governar sem a tutela do conselho.


Darel sustentou o olhar dele sem alterar a postura.


“Um favor que precisa ser imposto raramente merece esse nome, Lorde Roderic. E um homem verdadeiramente preocupado em aliviar meu fardo começaria cumprindo as obrigações que já lhe pertencem.”


Roderic cerrou a mandíbula e se recostou na cadeira, lançando aos demais conselheiros um olhar contrariado. Alguns evitaram encará-lo; outros permaneceram imóveis, cautelosos demais para tomar partido antes de saber quem venceria aquela disputa.


A discussão ainda prosseguia quando o nome de Faenel, mencionado pouco antes, tornou a ocupar os pensamentos de Dainora.


Faenel também viera de Liin, embora de uma família muito diferente da sua. Enquanto Dainora nascera entre as raízes da sociedade élfica, criada para servir à Casa Cedrus, Faenel pertencera aos galhos mais elevados. Fora educada para comandar, estudar magia e servir diretamente aos interesses da Matriarca.


Em Reuhtor, tornara-se a Mestra das Lâminas e líder da força de magos. Era habilidosa, disciplinada e eficiente. Também parecia interpretar cada conquista de Dainora como uma afronta pessoal.


A rivalidade nunca havia sido declarada. Manifestava-se em objeções cuidadosas, ordens cumpridas com atrasos pequenos demais para justificar punições e olhares que duravam mais do que deveriam. Dainora não compreendia inteiramente o ressentimento. Talvez Faenel jamais aceitasse que uma elfa de origem inferior tivesse se tornado general de um reino humano enquanto ela permanecia à margem do poder que julgava merecer.


Naquele momento, Faenel estava em Liin, distante de Reuhtor e das obrigações que normalmente desempenhava. Sua ausência deixara uma lacuna considerável na organização das forças mágicas, embora Dainora desconfiasse que Roderic apenas a utilizava como justificativa para as próprias falhas.


A voz do nobre perdeu nitidez ao fundo. Dainora voltou o rosto para as janelas, tentando afastar a lembrança das constantes disputas silenciosas com Faenel.


Os telhados de Reuhtor se espalhavam abaixo do castelo, cercados pelas muralhas e pelas vastas planícies do reino. Mais além, as montanhas delimitavam o horizonte. A Cordilheira do Mediterrâneo se estendia pelo oeste, enquanto as elevações de Karthmïr contornavam as terras ao leste.


Algo destoava na paisagem ao sul.


Dainora apertou os olhos e se aproximou da janela. Uma coluna escura subia ao longe, estreita demais para ser uma nuvem. Por um momento, a luz refletida no vidro dificultou a visão, obrigando-a a proteger os olhos com uma das mãos.


Era fumaça.


O peito da general se contraiu. Mesmo tantos anos depois, nenhuma fumaça distante era apenas fumaça para um reuhtoriano. O Incêndio de 38 ainda vivia nas armaduras resistentes ao calor, nos telhados reforçados e na atenção imediata que qualquer chama despertava.


Dainora tentou identificar a origem. A coluna vinha do sul, na direção do Vale Dourado. Antes que pudesse interromper a discussão, as portas do salão se abriram.


Galian entrou com a respiração acelerada. Trazia nas mãos uma pequena mensagem enrolada, ainda presa ao suporte de couro usado por aves mensageiras.


“Majestade, perdoe a interrupção.” O guardião avançou até a cabeceira, ignorando os olhares contrariados de alguns conselheiros. “Uma ave acaba de chegar da Fortaleza de Estras.”


Darel se levantou tão depressa que a cadeira recuou sobre o piso.


“O que aconteceu?”




Galian entregou-lhe a mensagem. A rainha rompeu o selo e leu as poucas linhas em silêncio. Dainora observou a cor desaparecer do rosto da amiga e desviou os olhos do papel para a fumaça no horizonte.


“Estras está sob ataque”, anunciou Darel, apertando a mensagem entre os dedos. “Eles pedem socorro imediato.”



Uma hora depois, a sala de estratégia anexa ao quartel-general, praticamente a segunda casa de Dainora, estava ocupada pelos principais responsáveis pela defesa de Reuhtor. Luthien, Dhalila, Trevor e Galian aguardavam ao redor de uma mesa coberta por mapas.


A eles se juntavam Venolás Meia-Face, capitão da guarda de patrulhamento e detentor do título de Veterano Imortal, um elfo intimidador cuja alcunha vinha da horrenda cicatriz que lhe cobria metade do rosto, lembrança de um antigo combate contra mercenários; a tenente Camilla Petrova, natural de Wyndon, Reino a sudoeste da capital, conhecida tanto pela estranheza de sua costumeira pintura facial de guerra quanto pela perícia com armas de duas mãos; e Sir Anton-Garb, exímio cavaleiro que avançava contra os inimigos com um sorriso estampado no rosto e gargalhadas pouco naturais.


Embora não integrassem formalmente o exército, Zanael, Entär e Ludvig também haviam sido chamados: o herói permanecia junto aos oficiais, Entär observava a movimentação próximo à janela e Ludvig ocupava uma posição mais afastada, atento a tudo o que era discutido.


O grupo era reduzido, mas cuidadosamente selecionado. A comitiva enviada às terras de Liin, acompanhada por Faenel, retirara de Reuhtor parte das figuras mais importantes de seu exército. Ainda assim, mensageiros entravam e saíam da sala a todo instante, trazendo estimativas atualizadas sobre os homens, cavalos e mantimentos disponíveis.


Dainora mantinha as duas mãos sobre o mapa do sul. A estrada de Estras atravessava aproximadamente noventa quilômetros até alcançar a fortaleza no Vale Dourado.


“A mensagem fala em tropas Hourks”, explicou, acompanhando com o dedo a linha que representava a estrada. “Não sabemos quantos são, mas, se Thelgrun pediu auxílio, não estamos diante de um simples grupo de saqueadores.”


Luthien se inclinou sobre o mapa e analisou a distância entre a capital e a fortaleza.


“Podemos alcançar o vale durante a noite se mantivermos um ritmo acelerado.”



“Os cavalos chegarão exaustos”, ponderou Trevor, apoiando as duas mãos na borda da mesa.



“Chegarão vivos, o que já será uma vantagem sobre quem ficou esperando atrás das muralhas”, retrucou Dhalila. A ferreira cruzou os braços e fitou Trevor, desafiando-o a encontrar alternativa melhor.


Galian apontou para a estrada principal.


“Podemos reunir os primeiros batalhões antes das três. O restante levará mais tempo.”



“Os primeiros serão suficientes”, decidiu Dainora. Ela percorreu os presentes com o olhar antes de concluir: “Partiremos assim que estiverem prontos. Eu comandarei os reforços.”


Ninguém contestou imediatamente. Dainora avaliou as rotas no mapa, mas sua atenção se desviou até Ludvig. A presença dele trouxe de volta a imagem do cadáver na cela, as marcas de dentes e a possibilidade de que o rei fosse o verdadeiro alvo das invasões.


Se partisse, Darel permaneceria no castelo com uma guarda reduzida. O Rei Bryan continuaria adormecido, incapaz de se proteger. E Dainora já não sabia quais criados, mercadores ou soldados eram realmente dignos de confiança.


“Quantos homens permanecerão na capital?”, perguntou, procurando esconder a inquietação sob a objetividade de uma comandante.



Galian apresentou uma estimativa. O número fez Dainora apertar os dedos contra o mapa.


“Podemos retirar menos soldados da muralha leste”, sugeriu Luthien ao perceber sua insatisfação.



Trevor negou com a cabeça.


“Isso enfraquecerá a saída para Karthmïr.”




“A Guarda Pretoriana permanecerá com a família real”, acrescentou Ludvig. “Mas concordo que o castelo precisará de reforço.”



Dainora continuou encarando o mapa sem responder. Entär a observava havia tempo suficiente para compreender que sua hesitação não estava em Estras.


“Você não irá”, falou o antigo general, irrompendo o silêncio que se formara na sala.



Dainora ergueu o rosto. A autoridade com que Entär se pronunciara despertou nela uma reação imediata.


“Não pedi sua autorização”, retrucou.




“Não. Pediu homens, cavalos e um comandante. Reuhtor tem os três.” Entär se afastou da janela e avançou até a mesa, mantendo a voz calma.



“Eu sou a general.”




“E está procurando motivos para não deixar a capital desde que entrou nesta sala”, interrompeu prontamente o antigo guerreiro. Não havia provocação em seu tom, apenas a certeza de alguém que a observara por tempo suficiente para reconhecer quando algo perturbava seu julgamento.


O silêncio se espalhou pelo grupo. Dainora olhou rapidamente para Ludvig, e o movimento não passou despercebido por Entär.


“Há algo mais acontecendo?”, perguntou ele, agora com menos dureza.




“Existem questões de segurança que ainda estão sendo investigadas.” Dainora evitou revelar os detalhes diante dos demais, mas a resposta foi suficiente para confirmar as suspeitas de seu antigo mentor.


“Então fique e investigue.”




“Estras precisa de um comandante.”




“E terá um.” Dainora entreabriu os lábios para contestá-lo, mas Entär apoiou a mão sobre o mapa antes que ela pudesse responder. “Eu irei.”



A general permaneceu em silêncio. Entär estava aposentado e deixara o comando do exército por escolha própria. Desde então, atuava como conselheiro da corte e mentor dos magos de Reuhtor. Em nenhum momento demonstrara desejo de recuperar o posto que um dia lhe pertencera.


“Você não quer voltar ao comando”, lembrou Dainora, procurando entender se aquela decisão vinha de dever ou de um orgulho antigo.



“Não quero”, admitiu Entär. A mão apoiada no mapa se fechou lentamente, revelando que a proposta também lhe custava mais do que pretendia mostrar.


“Então por que está se oferecendo?”




“Porque querer pouco importa quando existe um dever a cumprir.” O antigo general respirou fundo e lançou um breve olhar para a posição de Estras. “Você conhece este exército e sabe que ele foi bem treinado. Eu conheço os soldados, conheço o caminho e ainda me lembro de como dar uma ordem. Além disso, terei Zanael ao meu lado.”


Zanael levou a mão ao peito e inclinou-se com a elegância de quem acabara de receber uma homenagem pública.


“Seria uma desfeita deixar dois grandes generais discutirem por minha companhia.”



Trevor soltou o ar pelo nariz e cruzou os braços.


“Continua sem patente e já fala como se comandasse metade do reino.”




“Não preciso de patente para inspirar os homens...” Zanael iniciou com a confiança habitual, mas demorou um instante para perceber o olhar de Dhalila. “E as mulheres”, completou tardiamente, oferecendo-lhe um sorriso satisfeito.


“É justamente isso que me preocupa”, resmungou Trevor, virando o rosto para dar um cuspe no chão.



A tensão do momento permaneceu sobre o grupo. Ninguém prolongou a provocação, e Entär logo voltou sua atenção para Dainora.


“A rainha precisa de você aqui. Se existe algo dentro destas muralhas que a deixa insegura, não deveria ignorar esse pressentimento.” Entär aproximou-se um pouco mais e baixou a voz, dirigindo-se a ela não como um antigo general, mas como o mentor que a ajudara a assumir aquele posto. “Eu não desejo voltar ao comando, Dainora, mas também não permitirei que abandone uma ameaça apenas para provar que consegue enfrentar outra.”


Dhalila inclinou-se na direção de Luthien, embora falasse alto o bastante para todos ouvirem.


“Mal conseguimos fazê-lo abandonar a aposentadoria para comparecer às reuniões.”



“E pretendo retornar a ela assim que isso terminar”, reforçou Entär. A resposta veio acompanhada de um olhar cansado para a ferreira, que ergueu as mãos em rendição.


Luthien analisou Dainora por alguns instantes. Como patrulheira, aprendera a desconfiar de qualquer sensação de perigo, mesmo quando ainda não conseguia identificar sua origem.


“Ele é a melhor escolha”, concluiu.




Dainora fechou os olhos por um instante. Não havia conforto naquela decisão, apenas duas ameaças e homens insuficientes para enfrentá-las ao mesmo tempo. Quando tornou a abri-los, sua voz recuperara a firmeza.


“Entär assumirá o comando interino dos reforços. Partam assim que os batalhões estiverem prontos e não esperem pelo restante.” Ela olhou para cada um dos presentes enquanto distribuía as funções. “Luthien fará o reconhecimento da rota, te nomeio como comandante interina sob a patente temporária de capitã. Trevor organizará a linha defensiva durante as paradas. Dhalila cuidará das armas e dos reparos. Galian coordenará a saída pelos portões.”


Zanael aguardou alguns segundos, até perceber que seu nome não seria mencionado.


“E eu?”




“Faça o que sempre faz”, respondeu a general, acompanhando a ordem com um breve aceno amistoso de cabeça.



O herói abriu um sorriso satisfeito.


“Finalmente uma ordem adequada às minhas habilidades.”




Dainora voltou-se para Ludvig, e o peso que havia diminuído com a decisão de Entär retornou ao recordar as marcas encontradas no cadáver.


“Reforce a Guarda Pretoriana nas proximidades do castelo. Quero os salões reais protegidos durante todo o tempo em que o exército estiver fora.”


“Cuidarei disso”, garantiu Ludvig, inclinando a cabeça.




A reunião começou a se dispersar. Entär e os demais se reuniram em torno de Galian para discutir a organização dos batalhões, enquanto mensageiros recebiam as novas ordens e deixavam a sala às pressas.


Dainora segurou Ludvig pelo braço antes que ele saísse e o conduziu para um canto afastado. O gesto foi firme o bastante para fazê-lo perceber que ela não pretendia repetir aquela conversa.


“Nada disso é um acaso”, afirmou, mantendo a voz baixa. “Temo que algo esteja acontecendo e eu não esteja conseguindo enxergar a verdade.”



“Encontraremos respostas”, sussurrou Ludvig. Seu olhar permaneceu firme nos olhos de Dainora, transmitindo a segurança que ela precisava encontrar em alguém naquele momento.


“Ludvig, eu conto contigo.” Os dedos da general continuaram presos ao braço dele. “Não falhe comigo.”



Ele sustentou seu olhar. Por um instante, a rigidez habitual de suas feições cedeu lugar a algo mais próximo de afeto.


“Eu nunca falhei com você”, respondeu. “E não começarei agora. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para resguardar você.”



Pouco antes das três, Enkar encontrou Zanael nos estábulos do quartel.


O herói apertava a sela de Perseu, seu Corcel castanho-avermelhado o qual sempre o acompanhara, enquanto soldados corriam de um lado para outro, carregando escudos, lanças, sacos de mantimentos e peças de armadura. O pátio estava tomado pelo relinchar dos animais e pelas ordens dos oficiais. Embora a movimentação fosse intensa, cada soldado parecia saber exatamente onde deveria estar.


Enkar se aproximou e observou Zanael testar a correia da sela pela segunda vez.


“Vai sair?”, perguntou, embora a armadura, o cavalo e a pressa dos soldados já oferecessem uma resposta bastante clara.


Zanael ergueu o rosto e sorriu ao reconhecê-lo.


“Não. Pretendia apenas levar o cavalo para um passeio tranquilo com algumas centenas de soldados.”


Enkar soltou uma risada e apoiou a mão sobre a divisória do estábulo.


“Então escolheu um péssimo horário.”




“Perseu insistiu.” Zanael afagou o pescoço do animal antes de sua expressão se tornar mais séria. “A Fortaleza de Estras está sob ataque. Tropas Hourks.”


“Estras?” A leveza desapareceu do rosto de Enkar. Ele se afastou da divisória e olhou para o portão do quartel, como se pudesse enxergar a fumaça a noventa quilômetros de distância.


“Os reforços partirão em poucos minutos”, explicou Zanael, voltando a ajustar a bagagem presa à sela.



Enkar procurou pelos comandantes entre os soldados. Reconheceu Luthien conferindo os arqueiros, Trevor gritando com dois recrutas e Dhalila distribuindo equipamentos, mas não encontrou Dainora.


“Quem vai liderar?”




“Seu pai”, respondeu Zanael sem interromper o que fazia.


A resposta fez o entusiasmo de Enkar vacilar.


“Entär?”




Zanael parou e o encarou com uma sobrancelha erguida.


“E você tem outro pai?”




Enkar não conseguiu segurar o riso. Durante um breve instante, a provocação afastou o desconforto que o nome de Entär despertara. Zanael também sorriu, satisfeito por ter conseguido aliviar a tensão.


Em seguida, Enkar voltou a observar o movimento no pátio. Seu pai estava em algum lugar entre aqueles homens, preparando-se para assumir novamente o comando que abandonara havia anos. Enkar retornara a Reuhtor havia apenas algumas horas, e a cidade não lhe dera um único momento de tranquilidade desde que atravessara seus portões. A manhã fora realmente ocupada, tomada por reencontros, lembranças e acontecimentos inesperados. Ainda não tivera uma oportunidade verdadeira de procurar o pai, muito menos de iniciar a conversa que há tanto tempo imaginava.


Zanael percebeu a mudança em sua expressão.


“Você ainda não falou com ele?”




“Não tivemos tempo”, respondeu Enkar depressa demais.




“Você chegou esta manhã.”




“Exatamente. Foi uma manhã muito ocupada.”




“Imagino. Reuhtor quase não sobreviveu à sua caminhada pelas ruas.”




Enkar lançou-lhe um olhar ofendido, mas o sorriso que surgiu em seguida denunciou que não levara a provocação a sério.


“Eu quero ir”, afirmou depois de alguns segundos.




Zanael interrompeu o ajuste da sela. O humor desapareceu de seu rosto quando percebeu que Enkar falava com sinceridade.


“Tem certeza?”




“Eu posso ajudar.”




“Estras não é um treinamento”, alertou Zanael. Ele conhecia a fama do jovem mago e sabia que controlar uma chama em um campo aberto era muito diferente de fazê-lo cercado por aliados.


“Eu sei.”




“Não, você não sabe.” A resposta veio firme, mas sem desprezo. Zanael colocou uma das mãos sobre o ombro de Enkar. “Ninguém sabe antes da primeira batalha. Mas descobrirá depressa se vier.”


Enkar olhou para a mão do herói e depois para os soldados que se preparavam ao redor deles. Havia medo em algum lugar sob sua empolgação, mas também uma sensação que não reconhecia com facilidade. Pela primeira vez, não estava interessado em testar a própria magia, desafiar uma ordem ou provar que era mais habilidoso do que diziam. Queria ser útil.


“Você permite que eu acompanhe o exército?”, perguntou, procurando manter a voz segura.



Zanael arqueou uma sobrancelha e retirou a mão de seu ombro.


“Não precisa da minha permissão.”




“Achei que...”




“Eu não faço parte do exército, Enkar. Isso nunca me impediu de auxiliar Reuhtor.” Zanael apontou para os estábulos, onde alguns cavalos ainda aguardavam por cavaleiros. “Se realmente deseja ajudar, encontre uma montaria e prepare-se.”


Um sorriso surgiu no rosto do jovem mago, mas Zanael ainda o observava com atenção.


“Não precisa ir apenas por causa de Entär”, acrescentou o herói. “Se pretende correr até Estras para impressionar seu pai, talvez seja melhor conversar com ele aqui.”


“Não é apenas por ele”, assegurou Enkar. A resposta saiu mais depressa do que esperava, mas, ao ouvi-la, percebeu que era verdadeira. “Estras faz parte de Reuhtor. Se estão pedindo ajuda e eu posso fazer alguma coisa, quero estar lá.”


Zanael analisou o jovem por alguns instantes e então assentiu, satisfeito.


“Essa foi uma resposta melhor.”




“Havia uma resposta errada?”




“Sempre há. Eu apenas não conto antes, para não facilitar.”




Enkar sorriu novamente e tornou a olhar para o pátio. Durante boa parte da vida, fora um problema que Reuhtor precisava resolver. A criança que incendiara um quarto, o adolescente que ferira uma colega, o filho do general que parecia determinado a decepcionar todas as expectativas. Pela primeira vez, a cidade precisava de auxílio e ele estava se oferecendo antes que alguém precisasse pedir.


Havia também seu pai. Nos campos de Estras, Enkar poderia finalmente mostrar quanto havia mudado. Não por meio de desculpas, promessas ou explicações. Entär sempre acreditara mais em atitudes do que em palavras, e nada provaria melhor uma mudança do que o agir.


Talvez, durante a viagem, finalmente encontrasse coragem para conversar com ele. Poderia explicar por que partira, o que aprendera e por que demorara tanto para voltar. Se as palavras falhassem, suas ações falariam primeiro.


“Espero que tenham guardado um cavalo rápido para mim”, disse Enkar, já se afastando em direção aos estábulos.



Zanael colocou o pé no estribo e montou com um único movimento.


“Em Reuhtor, até os cavalos lentos são mais rápidos que os de outros reinos.”



Enkar parou e olhou para ele por cima do ombro.


“Isso não faz sentido.”




“É o orgulho falando”, respondeu Zanael, acomodando-se na sela. “Não precisa fazer sentido.”



Os sinos marcaram as três horas, e o som foi engolido pelo movimento dos batalhões.


Os portões se abriram, permitindo que os primeiros cavaleiros deixassem a capital sob o impacto de centenas de cascos contra a estrada. Soldados de armadura rubra avançaram levando o estandarte de Reuhtor acima das lanças. Entär seguia à frente, novamente reconhecido como comandante pelos homens que um dia haviam servido sob suas ordens.


Enkar encontrou um cavalo, ajustou a própria bagagem como pôde e se juntou à coluna ao lado de Zanael. Avistou o pai mais adiante, mas Entär estava cercado por oficiais, recebendo informações e organizando o ritmo da marcha.


O exército atravessou as planícies em ritmo acelerado. Seguiram parte do curso do Rio Estras e passaram pelas terras do Caldo da Colheita, onde os campos castigados pela seca se estendiam em manchas amareladas. Trabalhadores interrompiam suas atividades para observar a passagem dos soldados, enquanto crianças corriam até as cercas e erguiam os braços em saudação.


À medida que o sol descia, as sombras das cordilheiras avançaram sobre a estrada. Os cavaleiros alternavam trote e marcha para preservar os animais, retomando a velocidade sempre que o terreno permitia. Ninguém se afastava da formação por muito tempo, nem mesmo para comer.


Quando a noite caiu, o frio desceu das montanhas. A luz da lua refletia no Rio Estras e nas placas de aço rubro, transformando a coluna em uma serpente escura de reflexos avermelhados.


A comitiva não deu trégua durante todo o trajeto. Mesmo nos trechos em que os cavalos diminuíam para recuperar o fôlego, oficiais transitavam entre as fileiras, mensageiros levavam informações até a dianteira e os soldados conferiam armas e equipamentos sem desmontar. A tensão era nítida entre os reuhtorianos a cada quilômetro superado. Ninguém sabia por quanto tempo as muralhas de Estras resistiriam ou o que encontrariam ao alcançar o Vale Dourado.


Enkar não conseguiu encontrar um momento propício para se aproximar do pai. Entär seguia cercado por Luthien, Trevor e outros oficiais, discutindo a rota, a formação dos batalhões e as alternativas caso a estrada principal estivesse bloqueada. O jovem também não desejava atrapalhá-lo. Seu pai não comandava uma simples viagem, mas uma corrida contra o tempo para alcançar Estras antes que o pior acontecesse.


Assim, Enkar permaneceu próximo de Zanael e decidiu esperar por uma oportunidade melhor. Quando parassem para descansar, Entär deixaria de ser, ainda que por poucos minutos, o comandante dos reforços e voltaria a ser apenas seu pai.


Próximo da meia-noite, chegaram às elevações que antecediam a Fortaleza de Estras. Os cavalos estavam exaustos, cobertos de suor e poeira. Entär ordenou uma parada curta antes da subida. O plano era descansar algumas horas e avançar ao amanhecer.


Poucas fogueiras foram acesas. Os soldados se deitaram sobre mantas ou permaneceram encostados nas selas, ainda usando parte das armaduras. Enkar encontrou um lugar próximo de Zanael e fechou os olhos. A conversa com o pai ficaria para quando acordassem.


O ataque veio antes do amanhecer.


Um virote atravessou a escuridão e se enterrou na garganta de um dos soldados. O impacto lançou-lhe a cabeça para trás, e a haste permaneceu cravada no pescoço enquanto ele levava as duas mãos ao ferimento. O sangue começou a escapar entre seus dedos, primeiro em fios escuros, depois em jorros quentes e pulsantes que lhe cobriram o peito e respingaram no homem adormecido ao seu lado.


O soldado tentou gritar, mas de sua boca saiu apenas um ruído engasgado. Caiu de joelhos, os olhos arregalados, enquanto o sangue borbulhava ao redor do virote. O companheiro despertou atordoado com o rosto molhado e, ao compreender que não era água, recuou aos berros, tropeçando na própria manta.


“Batedores! Estamos sob ataque!”, gritou Luthien, levantando-se com o arco em mãos.



Outros virotes cortaram o acampamento antes que os homens conseguissem compreender de onde vinham. Um se enterrou no chão entre dois soldados que ainda procuravam suas armas; outro passou zunindo sobre suas cabeças e atingiu a sela de um cavalo. Os animais relincharam e puxaram as rédeas, espalhando ainda mais confusão entre guerreiros que despertavam cercados por gritos, sangue e sombras em movimento.


Um novo disparo ricocheteou contra um escudo, produzindo um estrondo metálico que despertou Enkar. Antes que o jovem conseguisse compreender o que estava acontecendo, Zanael o agarrou pelo ombro e o obrigou a se abaixar, no exato instante em que outro virote passou sobre sua cabeça.


“Levante!”, ordenou o herói, desembainhando a espada.




Sombras avançavam entre as pedras. Os Hourks haviam se aproximado enquanto o acampamento dormia, usando a vegetação e o terreno irregular para ocultar os movimentos.


Luthien disparou antes mesmo de ficar completamente de pé. A flecha desapareceu na escuridão, e uma das sombras caiu. Trevor reuniu os soldados atrás dos escudos, enquanto Dhalila distribuía armas para aqueles que haviam se afastado de seus equipamentos.


Entär surgiu no centro da confusão. Não havia hesitação em sua voz ou em seus movimentos. O comandante aposentado desapareceu, dando lugar ao general que muitos daqueles homens ainda recordavam.


“Fechem a linha!”, bradou, tomado por uma coragem ávida que se espalhou entre os soldados. “Protejam os cavalos e não persigam ninguém além das pedras!”


A ordem atravessou o acampamento como se Entär jamais tivesse deixado o comando. Os soldados se reorganizaram atrás dos escudos de Trevor, enquanto Luthien indicava aos arqueiros as posições inimigas ocultas na escuridão.


Enkar ergueu as mãos e permitiu que as chamas envolvessem seus antebraços. A luz revelou mais do que os batedores escondidos entre os arbustos. Lobos ferozes avançavam ao lado dos Hourks, treinados para atacar os cavalos e desorganizar as fileiras antes que seus mestres disparassem as bestas.


Um dos animais saltou sobre um soldado caído. Enkar lançou uma rajada de fogo contra o terreno entre ambos, obrigando o lobo a recuar com um ganido. Outro veio pela lateral, rápido demais para que ele preparasse um novo disparo. Zanael surgiu em seu caminho e o atingiu com a lateral da espada, desviando a criatura antes que suas presas alcançassem o jovem mago.


“Separe-os!”, ordenou Zanael, apontando para os batedores que avançavam em conjunto.



Enkar uniu as mãos diante do peito, concentrou o calor ao redor dos braços e então golpeou o solo com as duas palmas abertas. Uma barreira de fogo irrompeu entre as pedras, levantando uma coluna incandescente que cortou o grupo Hourk ao meio. As chamas cresceram mais do que ele pretendia e iluminaram toda a encosta. Por um instante, Enkar sentiu o fogo tentar escapar de seu controle, mas cerrou os punhos e conteve a expansão antes que alcançasse as fileiras reuhtorianas.


Parte dos batedores e dois dos lobos ficaram isolados do lado externo da barreira. Os que permaneceram presos entre as chamas e a linha de escudos perceberam tarde demais que haviam perdido a possibilidade de recuar.


Zanael avançou sobre eles.


O primeiro Hourk tentou golpeá-lo com um machado curto, mas o herói desviou o corpo e abriu um corte profundo abaixo do braço do adversário. Girou sobre os próprios pés, aparou a lâmina de outro inimigo e respondeu com um golpe ascendente que o lançou contra as pedras.


Um terceiro batedor investiu por trás. Zanael virou-se no último instante e desferiu um impacto destrutível com o pomo e a guarda da espada. O golpe atingiu o centro do peito do Hourk, quebrando sua postura e arremessando-o ao chão. Antes que pudesse recuperar o ar, o herói terminou o movimento com um corte preciso.


Do outro lado da barreira, Enkar manteve uma das mãos voltada para as chamas enquanto usava a outra para conjurar pequenas rajadas. Um disparo atingiu a besta de um inimigo, incendiando a corda e obrigando-o a abandonar a arma. Outro fogo correu rente ao solo e cercou um dos lobos, impedindo que avançasse contra os cavalos.


Os batedores sobreviventes perceberam que o ataque havia fracassado. Recuaram para a colina, chamando os lobos com assobios curtos, enquanto Luthien e seus arqueiros disparavam contra as silhuetas que tentavam desaparecer entre as pedras.


Enkar desfez a barreira. As chamas diminuíram até restarem apenas marcas negras e brasas espalhadas pelo terreno. O esforço fez seus braços tremerem, mas ele continuou de pé, procurando novos inimigos na escuridão.


Quando tornou a olhar para o centro da formação, encontrou Entär comandando os soldados e avaliando os feridos. Por um breve momento, desejou que o pai tivesse visto o que acabara de fazer. A barreira erguida entre as pedras, os Hourks separados, as chamas contidas antes que alcançassem os reuhtorianos. A vergonha veio logo depois.


Com o fogo extinto e os inimigos em retirada, já não havia uma conjuração para ocupar seus pensamentos. A urgência que guiara seus movimentos começou a recuar, e Enkar enfim enxergou o que o combate deixara ao redor.


O soldado atingido na garganta permanecia caído junto às mantas, com as mãos imóveis sobre o virote e o peito coberto de sangue. Poucos passos adiante, dois homens tentavam conter o ferimento aberto na barriga de um companheiro, pressionando contra ele um pedaço de tecido que se tornava mais vermelho a cada instante. O ferido gemia entre os dentes cerrados, agarrado ao braço de um deles como se pudesse impedir a própria vida de escapar pela força dos dedos.


Havia corpos Hourks espalhados entre as pedras, alguns atravessados por flechas, outros retorcidos onde Zanael e os soldados os haviam derrubado. Próximo às marcas deixadas pela barreira, um lobo queimado ainda se debatia sobre o solo, soltando ganidos fracos enquanto o cheiro de pelo e carne chamuscados se misturava ao odor metálico do sangue.


Enkar sentiu o estômago se contrair. Até aquele instante, observara o combate como uma sucessão de ameaças: um inimigo que precisava ser afastado, uma chama que deveria crescer, um limite que não podia permitir que o fogo ultrapassasse. Agora, cada alvo possuía um rosto. Cada golpe deixara algo para trás.


Aquilo não era um campo de testes, onde uma falha poderia ser corrigida e a magia repetida até alcançar o resultado desejado. Não havia uma segunda tentativa para os homens estendidos ao redor. Tampouco existia vitória capaz de fazer um morto tornar a respirar.


Enkar permaneceu imóvel em meio àquilo, com os braços ainda trêmulos e o calor da magia preso à pele, agora, sem conseguir sentir qualquer orgulho pelo fogo que acabara de controlar.


Entär observou o céu, onde uma linha clara começava a surgir atrás das montanhas.


“Eles sabem que estamos aqui”, advertiu o comandante, caminhando entre os soldados para avaliar as perdas. “Não haverá mais descanso. Preparem-se para subir.”


Os homens reorganizaram a formação e iniciaram a marcha pela colina. Alguns avançavam a pé, conduzindo os cavalos cansados pelas rédeas. Outros montavam para preservar as próprias forças. O chão estava úmido, e as pedras soltas tornavam cada passo mais difícil.


Enkar permaneceu próximo de Zanael. Entär seguia adiante, conduzindo os primeiros homens até o topo. A conversa que o jovem adiara durante todo o dia precisaria esperar mais uma vez.


Quando finalmente alcançaram a parte mais alta, o sol surgiu sobre o horizonte. A luz atingiu os olhos de Enkar com força, obrigando-o a erguer o braço diante do rosto. Por alguns instantes, não viu o vale, a fortaleza ou o exército que os aguardava do outro lado. Enxergou apenas o branco dourado da manhã e as silhuetas dos cavaleiros avançando diante dele.


Lá embaixo, do alto das muralhas de Estras, uma voz rompeu o campo:


“Os reforços chegaram.”



Continua no próximo capítulo...













Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Odisseia Card Game - Logo

CNPJ: 61.536.185/0001-48

Nome do dono/sócio administrativo:

Vinicius R. Botelho Drummond

Contato:

  • Whatsapp
  • Youtube
  • Instagram
bottom of page