PRÓLOGO - Parte 1
- Odisseia card game
- há 5 dias
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ATO 1 - Cinzas no horizonte
Capítulo 1: O Retorno do Mago
Texto original por Matheus "Zao" Eler
Argumentos por Vinicius Botelho e Vitor Ripinski

Reuhtor surgiu no horizonte como uma coroa de pedra sobre a colina. Àquela hora da manhã, quando o sol ainda não pesava sobre os telhados e as sombras das muralhas se alongavam pelos campos, a capital parecia menos uma cidade e mais um juramento antigo. Suas torres erguiam-se em tons de vermelho e dourado, as bandeiras ondulavam sobre as ameias, e ao redor da grande colina as casas se empilhavam como se buscassem abrigo junto ao palácio. Ao longe, o Rio Estras corria como uma lâmina clara entre as terras férteis, alimentando canais, plantações e vilas que sustentavam o reino. Mais ao norte, as formas distantes da Cordilheira de Karthmïr recortavam o céu, velhas e ameaçadoras, guardando lendas de dragões e pedras rubras. Ao oeste e ao sul, a Cordilheira do Mediterrâneo fechava o mundo em muralhas naturais, como se os próprios deuses tivessem erguido os ossos da terra para proteger aquele vale.
Enkar parou antes de cruzar a estrada principal e, por um instante, apenas admirou a vasta planície que o cercava. Envolto pelas cordilheiras, Reuhtor se assentava num vale próspero e geograficamente interessante, atravessado por rios, canais e estradas que pareciam convergir para a capital como veias para um coração. Para o sul, além das colinas e campos dourados, ficava o caminho de Estras, a fortaleza que guardava a entrada do reino no Vale Dourado. Para o oeste, as águas seguiam rumo ao Lago do Grifo e às vilas de pesca. Mais perto dali, entre planícies abertas e cercas de madeira clara, cavalos corriam livres sob a luz da manhã, brilhando de suor e poeira. Alguns puxavam carroças carregadas de trigo, outros marchavam em fileiras ao lado dos cavaleiros da guarda, e havia ainda os que apenas galopavam pela planície, como se a própria terra lhes pertencesse.
Havia passado anos fora, embora Reuhtor ainda lhe parecesse capaz de reconhecê-lo. A mesma pedra gasta sob as rodas, os mesmos sinos distantes, o mesmo cheiro de ferro, feno, pão quente e esterco de cavalo. A cidade não mudara tanto quanto ele esperava, talvez fosse isso que o incomodava; ou talvez fosse o fato de que ele havia mudado. Aos vinte anos, Enkar ainda era jovem demais para fingir que o passado pertencia a outra vida, mas velho o bastante para saber que certas marcas não desaparecem só porque se aprende a escondê-las melhor. Ajustou a bolsa no ombro, sentiu o atrito familiar do manto gasto pela viagem e seguiu em direção aos portões.
Usava roupas simples, já castigadas por poeira e estrada, presas por uma fivela de bronze escurecido. Sob as mangas, os dedos traziam pequenas marcas de queimadura, cicatrizes finas como linhas de escrita malfeita. Não eram ferimentos graves. Eram lembretes. Quando passou pelos primeiros estábulos, um cavalo castanho ergueu a cabeça e relinchou, inquieto. Enkar sorriu de canto, limpando com o dorso da mão o suor que começava a escorrer pela face. “Ainda me reconhecem, então?”
O tratador, um homem velho de barba branca e chapéu de palha, virou-se devagar. Apertou os olhos, encarando o viajante como quem busca um nome perdido no fundo de uma gaveta, e só depois a surpresa lhe abriu o rosto.
“Pelas botas de Hroddin… Enkar?”

“Vivo, inteiro e com todos os dedos”, respondeu o mago, erguendo uma das mãos em cumprimento. “O que já é mais do que alguns apostavam.”
O velho soltou uma risada rouca, mas logo a conteve, como se lembrasse tarde demais de quem tinha diante de si. Havia alegria em seu olhar, mas também aquele cuidado antigo, a cautela que Reuhtor aprendera a ter diante de certas chamas.
“Seu pai sabe que voltou?”
A pergunta veio simples. Mesmo assim, algo nela lhe acertou o peito. Enkar desviou os olhos para os animais no estábulo, observando o movimento das crinas escovadas, os arreios limpos, os cascos bem tratados e o cuidado quase cerimonial com que cada cavalo era alimentado. Em Reuhtor, cavalos não eram apenas montaria. Eram brasão vivo, orgulho de família, extensão do soldado e da estrada.

“Ainda não.”
“Entär vai querer ouvir isso de você, não dos fofoqueiros do mercado.”

“A cidade ainda tem fofoqueiros?”, perguntou Enkar, tentando fazer a voz soar leve.
“Tem mais do que cavalo.”
Enkar riu, e a risada lhe saiu mais fraca do que pretendia. Despediu-se com um gesto e entrou pelos portões, deixando para trás os campos abertos e o ar livre das estradas. Do lado de dentro, Reuhtor pulsava. Ferreiros batiam metal em ritmo constante, fazendo o ar vibrar com o som dos martelos. Barras de aço rubro descansavam sobre bancadas, refletindo a luz como brasas domesticadas. Crianças corriam entre carroças, vendedores gritavam ofertas, soldados atravessavam as ruas com couraças vermelhas sob mantos claros, e por toda parte havia sinais de uma cidade que se orgulhava de permanecer de pé.
Enkar lembrava de quando aquelas mesmas ruas se abriam para ele. Filho de Entär. Filho do antigo general. Filho do homem que comandara tropas, protegera fronteiras e depois deixara a espada para orientar magos do reino. Por muito tempo, esse nome bastara para que portas se abrissem, cabeças se inclinassem, vozes se tornassem gentis.
Até o fogo.
Ele ainda se lembrava do quarto, embora raramente admitisse. A brincadeira. Os risos. O próprio orgulho infantil, tolo e inflamável, quando dissera que podia fazer mais do que uma faísca. A chama viera como um animal solto. Subira até o teto, lambera as cortinas, mordeu a madeira, engoliu o ar. Um garoto gritara. Um braço queimara. E desde então todos passaram a olhar para Enkar como se sua pele escondesse um incêndio esperando motivo.
Por muitos anos, ele odiou aqueles olhares. Depois, com a brutalidade lenta do tempo, aprendeu que ódio também queima quem o carrega.
A caminhada pela capital o levou por ruas cada vez mais vivas. Havia cavalos em todo canto: presos a bebedouros de pedra, puxando carroças, sendo escovados diante das estalagens, descansando sob toldos largos ou marchando em duplas com cavaleiros que os tratavam quase como companheiros de armas. Uma menina passava óleo no couro de uma sela com a solenidade de quem polia uma relíquia. Dois jovens discutiam sobre linhagem e velocidade de corrida perto de uma baia. Um soldado mais velho, antes de beber da própria caneca, ofereceu água ao animal que montava, murmurando algo baixo junto à orelha dele. Enkar não pôde deixar de sorrir. Reuhtor podia mudar reis, generais e bandeiras; dificilmente mudaria a forma como amava seus cavalos.
Pouco depois, aproximou-se de uma taverna de fachada larga, construída em madeira escura e pedra clara, com as janelas abertas para a manhã e o cheiro de pão, cerveja e gordura quente escapando para a rua. Sobre a entrada, preso por correntes gastas, balançava um letreiro pintado com a imagem de um cavalo sem sela, crina solta ao vento, correndo para lugar nenhum. O nome, entalhado em letras firmes, dizia: Cavalo sem Dono. Enkar reconheceu o lugar antes mesmo de ler. Todo viajante que cruzava os portões principais de Reuhtor acabava ouvindo falar daquela taverna, não apenas pela proximidade da entrada da cidade, mas pelas boas bebidas, pelas camas quentes e por um preço justo o bastante para agradar mercadores, aventureiros e soldados sem soldo farto. Era o tipo de lugar onde histórias nasciam pequenas, exageravam no segundo copo e viravam lenda antes do amanhecer.
Diante da taverna, uma jovem criada tentava acender uma lareira externa com lenha úmida, resmungando contra o frio que ainda se agarrava à pedra mesmo sob a manhã clara. O fogo era mais para conforto dos fregueses do que necessidade, uma gentileza para quem chegava de viagem com as mãos duras de rédea e madrugada. Enkar passou ao lado, reduziu o passo e estalou os dedos. Uma chama pequena, dócil como vela de altar, nasceu entre os gravetos e se espalhou sem pressa, obedecendo ao limite da madeira. A mulher recuou primeiro. Depois viu o fogo quieto, baixo, útil, e a suspeita em seu rosto cedeu espaço a um alívio constrangido.
“Obrigada… senhor”, disse ela, segurando ainda as lascas de pederneira.
Senhor. Aquilo quase o fez rir.

“Só Enkar”, respondeu, seguindo antes que a gratidão se tornasse cerimônia.
Ao redor, porém, nem todos receberam a benfeitoria com igual devoção. Um homem sentado sobre um barril perto da parede, rosto vermelho de bebida e sol, ergueu os olhos estreitos na direção dele. Tinha a caneca apoiada sobre a barriga e a expressão de quem acordara disposto a reclamar até dos deuses.
“Ei, jovem”, resmungou, apontando para a lareira recém-acesa como se ela fosse uma ofensa pessoal. “Não percebe que esquentar ainda mais o lugar só vai deixar minha cerveja mais quente?”

Enkar parou e olhou para o homem, depois para a caneca, que muito antes do feitiço já deveria ter perdido qualquer frescor. “Imagino que a responsabilidade seja toda minha.”
O bêbado deu um gole dramático, estalou a língua e fez uma careta ofendida. “Está vendo? Você estragou minha bebida.”
Com um movimento mínimo dos dedos, Enkar fez uma névoa fria envolver a caneca. O metal suou de imediato, coberto por pequenas gotas geladas. O bêbado hesitou, desconfiado, então tomou outro gole. Seus olhos se arregalaram com uma pureza quase infantil, e ele bateu o pé no chão como se tivesse testemunhado a abertura dos céus.
“Por Ethis! Isso é um milagre!”

“É estudo”, corrigiu Enkar.
“Então estude mais perto da minha mesa.”
Enkar seguiu antes que o homem pedisse a segunda. Na rua seguinte, uma criança subiu em uma mureta para alcançar uma pipa enroscada numa lanterna. A mãe gritou tarde demais. O menino escorregou, os braços girando no vazio, e por um breve instante o mundo prendeu a respiração. Enkar moveu a mão sem pensar; uma lufada de vento ergueu poeira da rua e segurou o garoto pelo peito, empurrando-o de volta para os braços da mãe. A mulher caiu sentada, apertando a criança contra si, e quando levantou os olhos para agradecer encontrou apenas o mago já se afastando, fingindo interesse em uma banca de maçãs.
Não queria aplausos. Houve tempo em que teria querido.
Em tão pouco tempo, já havia usado magia para aquecer mãos, gelar bebida e impedir que uma criança se esbofetasse contra a pedra. Pequenos gestos. Coisas simples. A vida cotidiana de Reuhtor, com suas lareiras teimosas, bêbados ranzinzas e meninos imprudentes, parecia abrir diante dele possibilidades que antes jamais ousara imaginar. O poder que um dia fizera pessoas recuarem agora podia ajudá-las a seguir com o dia. Podia ser útil. Podia ser gentil.
E essa constatação doeu mais do que deveria.
Se tivesse aprendido aquilo antes, talvez menos portas tivessem se fechado. Talvez menos mães tivessem puxado seus filhos para longe dele nas ruas. Talvez seu nome não tivesse sido sussurrado com receio nos cantos do palácio. Talvez, se suas mãos soubessem obedecer naquela época como obedeciam agora, ele não tivesse ferido alguém que importava. Enkar flexionou os dedos, sentindo o calor repousar sob a pele como uma fera adormecida por escolha, não por fraqueza. Era controle, enfim. A palavra parecia firme, limpa, quase sagrada.
Ainda assim, em algum lugar profundo, havia raiva. Não flamejante, não visível, não solta. Apenas viva. Uma brasa coberta de cinza, esperando que alguém soprasse.
Ao dobrar a esquina para a praça dos quartéis, Enkar ouviu uma comoção diferente. Não era medo, nem briga, nem comércio. Era riso. Era gente abrindo espaço não por obrigação, mas por afeto. No centro da praça, um homem de cabelos ruivos ajudava dois soldados a erguer uma carroça tombada, as mangas arregaçadas e a armadura clara marcada por poeira. Não usava elmo. Como quase todos os guerreiros de Reuhtor, mantinha o rosto descoberto sob o sol, não apenas por costume, mas por orgulho; dizia-se que um soldado digno mostrava a face ao inimigo, pois coragem escondida atrás do ferro era coragem pela metade.
Quando a carroça voltou ao lugar, algumas pessoas aplaudiram. Uma velha tocou o braço do ruivo com as duas mãos. Um menino lhe ofereceu uma flor murcha como se fosse uma espada lendária. Zanael recebeu a flor com a seriedade de quem aceitava um juramento, ajoelhando-se para ficar à altura da criança. “Guardarei isto como prova de bravura.”
“Eu também vou ser cavaleiro”, declarou o menino, estufando o peito.

“Então comece ajudando sua mãe a carregar os cestos”, disse Zanael, apontando com delicadeza para a mulher que esperava logo atrás.
Alguns riram. O menino fez careta, mas obedeceu. Enkar encostou-se a uma coluna de pedra e observou por um momento. Zanael era famoso mesmo antes de falar. Havia homens que entravam em uma praça e ocupavam espaço. Zanael fazia o contrário: parecia iluminar o espaço dos outros. Embora não fosse do exército, era respeitado entre os soldados, sua autoridade não vinha de posto, disciplina ou aço polido. Vinha de uma combinação rara: bom coração, inteligência de batalha, habilidade extraordinária com a espada e uma postura natural de liderança que fazia veteranos ouvirem, recrutas se endireitarem e o povo acreditar que, enquanto ele estivesse ali, algo em Reuhtor ainda permaneceria justo.
Era vaidoso, claro. Só um cego não veria. O cabelo estava arrumado demais para alguém que dizia não se importar com aparência, e cada gesto trazia certo floreio natural, como se o mundo fosse uma plateia educada. Mas a bondade não parecia encenação. Isso era o pior. Em geral, Enkar preferia quando podia desprezar homens perfeitos sem culpa.
Zanael avistou-o entre as colunas. O sorriso veio antes do reconhecimento completo, largo e fácil, quase irritante em sua sinceridade.

“Enkar?”

“Zanael”, respondeu o mago, já se preparando para o impacto do abraço.
O cavaleiro atravessou a praça e o envolveu com força, sem pedir permissão, como se os anos fossem poeira fácil de sacudir do ombro.

“Por um instante achei que fosse só mais uma miragem causada pelo sol , pode se dizer que o filho pródigo voltou.”
Enkar soltou um suspiro contra a armadura dele.

“Nunca fui pródigo. Só caro de manter.”

“Isso seu pai confirmaria com gosto.”
Enkar soltou-se do abraço, ajeitando o manto e tentando esconder o desconforto com uma expressão leve.

“Você continua fazendo caridade em praça pública?”

“Alguém precisa compensar sua ausência.”

“Eu acendi uma lareira há pouco.”
Zanael levou uma das mãos ao peito com fingida reverência.

“Um início digno das canções menores.”

“E gelei a cerveja de um bêbado ingrato.”

“Agora sim entendo por que os bardos tremem.”

“E salvei uma criança que estava prestes a se esbofetar no chão”, completou Enkar, erguendo um dedo como quem apresentava uma prova irrefutável. “Sabe-se lá o tamanho da cicatriz que eu preveni.”
Zanael sustentou a seriedade por dois segundos inteiros antes de inclinar a cabeça, debochado.

“Realmente… heroísmo sem precedentes.”
Os dois sorriram. Havia entre eles aquela familiaridade rara de quem conheceu versões antigas um do outro e decidiu, por misericórdia, não mencioná-las todas de uma vez. Enkar olhou para a armadura de Zanael, para os detalhes rubros no metal, para a ausência do elmo pendurado no cinto.

“Ainda insiste em deixar a cabeça descoberta?”

Zanael tocou a própria testa como se procurasse algo perdido. “Reuhtorianos mostram o rosto ao inimigo.”

“Sim, sim. Coragem, honra, tradição, morte por flecha perdida…”

“Um rosto descoberto diz ao povo que não temos medo.”

“Ou diz ao arqueiro onde mirar.”

“Luthien diz a mesma coisa”, respondeu Zanael, olhando para além de Enkar com um brilho divertido nos olhos. “Embora, curiosamente, ela também não costume usar elmo.”
Perto dos alvos de palha, uma elfa de cabelos pretos muito bem presos em um coque abaixou o arco que acabara de disparar. A flecha ainda tremia no centro exato do alvo, acompanhada por outras duas tão próximas que pareciam uma só. Seu olhar sério e contido se voltou para eles, e por um raro instante a precisão de Luthien pareceu falhar diante da própria vergonha. Alguns soldados ao redor riram baixo. Ela ergueu o queixo, tentando recuperar a autoridade com dignidade, mas a ponta levemente avermelhada das orelhas a traiu.

“Eu não uso elmo porque atrapalha minha mira”, disse ela.

“E eu não uso porque atrapalha minha beleza”, respondeu Zanael.

“Então a minha razão é melhor.”

“Disso ninguém duvida”, disse Enkar.
Luthien apontou dois dedos para os próprios olhos e depois para eles, como quem prometia vingança silenciosa, antes de voltar aos arqueiros.

Zanael riu, e os recrutas próximos riram junto, embora tentassem disfarçar. “Continua insuportável”, disse o cavaleiro.

“E você continua bonito demais para ser confiável.”

“A beleza é um fardo que carrego por Reuhtor.”

“Heroico de sua parte.”
Uma voz grave interrompeu a conversa antes que Zanael pudesse florescer em nova pose.

“Zanael! Se terminou de desfilar, os recrutas ainda precisam apanhar antes do almoço.”
Trevor vinha do pátio de treino com uma vara de madeira apoiada no ombro. Era alto, largo, de pele escura e olhar severo, o tipo de homem que parecia ter sido esculpido para corrigir a postura alheia. Os anos haviam lhe posto fios grisalhos na barba e algumas marcas no rosto, mas não haviam diminuído em nada sua presença. Quando seus olhos encontraram Enkar, ele parou com a lentidão ameaçadora de um portão de fortaleza se fechando.

“Ora, ora”, murmurou o treinador.

Enkar abriu os braços com uma naturalidade cuidadosamente ensaiada. “Trevor.”

“Achei que tinham proibido você de entrar perto do quartel sem escolta.”

“Tecnicamente, aquilo foi há muitos anos.”

“Tecnicamente, eu ainda tenho a vara”, respondeu Trevor, batendo de leve a madeira contra a palma da mão.

Zanael cruzou os braços, satisfeito demais com a cena para fingir neutralidade. “Eu deixaria os dois conversarem, mas temo pela integridade do mago.”

Trevor se aproximou devagar, medindo Enkar dos pés à cabeça. “Está mais alto.”

“As pessoas costumam crescer.”

“Algumas também amadurecem. Ainda estou verificando seu caso.”

Enkar inclinou a cabeça, aceitando o golpe. “Justo.”
O treinador olhou para os dedos marcados dele, e o silêncio entre os dois mudou de peso. Trevor fora um dos homens que viram Enkar em seus piores dias: raivoso, acuado, fazendo piada para não pedir desculpas, transformando vergonha em labareda. Na ala militar, entre soldados, ordens e castigos, Enkar aprendera primeiro a cair. Depois, com muito atraso, aprendera a levantar sem tentar incendiar quem estivesse por perto.

“Ainda brincando com fogo?”, perguntou Trevor.

“Agora eu estudo antes.”

“Isso não responde.”

“Responde melhor do que eu responderia antes.”

O velho treinador sustentou o olhar por mais um instante. Havia julgamento ali, mas não crueldade. “Vi você na rua. A lareira. A caneca. O garoto.”

Enkar desviou a atenção para os recrutas no pátio, como se a postura errada de um deles exigisse súbita análise acadêmica. “Truques pequenos.”

“Para quem recebeu, não foram pequenos.”

Aquilo o calou por mais tempo do que gostaria. Zanael, talvez percebendo o peso que se formava, bateu uma mão no ombro de Enkar e apontou para o pátio com o queixo. “Venha ver os recrutas. Talvez eles se animem com um mago de verdade.”

“Ou aprendam tudo errado”, disse Trevor.

“Sempre posso ensinar disciplina”, sugeriu Enkar.

Trevor ergueu uma sobrancelha. “Você?”

“Eu disse que podia. Não disse que seria convincente.”
O pátio de treino ficava atrás da praça, cercado por muros baixos e estandartes vermelhos. Recrutas alinhavam-se em fileiras irregulares, segurando lanças com atenção excessiva, como se temessem ofender a arma com um movimento errado. Alguns usavam partes de armaduras de aço rubro, ainda mal ajustadas ao corpo; outros suavam sob gambesões claros, com o rosto aberto ao sol e o orgulho exposto antes mesmo da coragem. Não eram tolos, embora fossem jovens. Havia neles medo, entusiasmo e uma seriedade quase comovente, a seriedade de quem ainda acredita que treino, honra e boa vontade bastam para sobreviver ao mundo.
Entre eles, Enkar notou Cecilia, uma moça de cabelos pretos e expressão difícil de classificar, algo entre tédio, desafio e uma vontade obstinada de não demonstrar esforço. Segurava a lança com mais firmeza do que naturalidade, como quem havia treinado além do que admitiria em voz alta. Por um instante, seu olhar escapou para Zanael enquanto ele caminhava pelo pátio corrigindo posturas. Quando percebeu que Enkar a notara, ela desviou o rosto depressa, fingindo enorme interesse na posição dos próprios pés. Não era paixão. Não exatamente. Era admiração, clara e constrangida, a mesma que brilhava de formas diferentes nos olhos de quase todos ali. Zanael não era apenas o homem que os treinava; era a prova viva de que uma lâmina podia ser manejada com beleza, propósito e bondade sem perder o fio.
Luthien, do lado dos arqueiros, ajustava o braço de uma recruta com paciência silenciosa. Falava pouco, mas cada palavra parecia escolhida com a precisão de suas flechas.

“Respire antes de soltar. O arco não perdoa pressa”, disse ela, baixo o bastante para não virar espetáculo e firme o bastante para ser obedecida. A flecha seguinte acertou perto do centro, e Luthien assentiu uma única vez. Para muitos, aquilo provavelmente valia mais que aplausos.
Zanael caminhou entre os recrutas, corrigindo uma empunhadura aqui, oferecendo uma palavra ali. Quando um deles errou o movimento e quase acertou o companheiro, Trevor bateu a vara no chão com força.

“Lança não é cabo de vassoura, garoto. Postura reta. De novo.”
O rapaz empalideceu e obedeceu. Zanael ergueu então a espada de treino e chamou dois recrutas para atacá-lo ao mesmo tempo. Eles trocaram um olhar breve, respiraram fundo e avançaram com seriedade. O cavaleiro desviou do primeiro com elegância, aparou o golpe do segundo, girou a lâmina sem força excessiva e tocou a madeira no ombro de ambos, um após o outro. Os dois recuaram, derrotados em poucos instantes, mas não riram como crianças em brincadeira. Endireitaram-se, ofegantes, com o rosto marcado por frustração e respeito. Um deles olhou para a própria lâmina de treino como se tentasse entender em que momento a arma havia se tornado lenta demais. O outro assentiu para Zanael, absorvendo a lição como quem guardava algo precioso.

“Outra vez”, disse Zanael, sem soberba.
E eles foram.
Enkar encostou-se ao muro, observando. O som das lanças cortando o ar se misturava aos cascos distantes, aos martelos das forjas, ao murmúrio da cidade. Por um momento, Reuhtor pareceu inteira. Não perfeita. Nunca fora. Mas inteira. Seu olhar subiu até o palácio no alto da colina, onde as bandeiras tremulavam como chamas presas ao vento. Em algum lugar lá dentro, seu pai talvez estivesse sentado entre livros, mapas e velhos soldados, fingindo que não esperava pela volta do filho. Entär nunca fora bom em demonstrar saudade. Demonstrava preocupação como ordem, orgulho como silêncio e amor como cobrança.
Enkar também nunca fora bom em receber nada disso.

“Vai vê-lo hoje?”, perguntou Trevor, ao seu lado. O mago não percebeu quando o treinador se aproximara.

“Vou.”

“Antes ou depois de inventar uma desculpa?”

“Estou escolhendo a desculpa.”

“Escolha rápido. Seu pai envelheceu.”
A frase não veio como acusação. Veio pior: como verdade. Enkar respirou fundo, sentindo a manhã perder por um instante a leveza que carregava desde os portões.

“Eu sei.”

“Sabe mesmo?”
Ele olhou para Trevor, pronto para responder com ironia, mas a ironia morreu antes de chegar à língua.

“Sei.”

Trevor assentiu, satisfeito não com a resposta, mas com a ausência de fuga nela. “Então talvez você tenha mudado.”
No pátio, Zanael voltou a demonstrar o movimento, mais devagar dessa vez. A espada de madeira cortou o ar em um arco limpo, simples apenas para quem não entendia o esforço escondido em toda simplicidade. Cecília observava com os olhos atentos demais para sustentar a máscara de desinteresse. Luthien corrigia os arqueiros sem desperdiçar uma sílaba. Trevor avaliava todos como se pudesse ver falhas antes mesmo que acontecessem. E Enkar, ali parado com o calor repousando obediente sob a pele, teve a impressão estranha de estar diante de algo que não sabia se merecia reencontrar.

“Ele nasceu para isso, não foi?”, murmurou.

Trevor acompanhou seu olhar. “Para quê?”

“Fazer as pessoas acreditarem.”

O treinador demorou a responder. “Alguns homens carregam espada. Outros carregam símbolo. Zanael tenta carregar os dois.”

“Deve pesar.”

“Pesa...”
Os sinos da cidade soaram ao longe, atravessando telhados, ruas, forjas e estábulos. A manhã ainda parecia comum, clara demais para presságios. Os recrutas voltaram às posições, Zanael sorriu como se o mundo ainda merecesse confiança, Trevor ergueu a vara para corrigir mais uma postura, e Enkar fechou os olhos por um breve instante, sentindo o calor familiar repousar em suas mãos. Não como fera. Não como culpa. Apenas como parte dele.
Quando abriu os olhos, Reuhtor ainda brilhava.
E, por misericórdia dos deuses ou descuido do destino, ninguém na capital ainda via a fumaça que começaria a subir no sul.
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